Menos de dois meses após o Banco Central (BC) anunciar novas medidas para reforçar a segurança do Sistema Financeiro Nacional (SFN), um novo ataque hacker envolvendo transações via Pix escancarou fragilidades que ainda persistem, especialmente em modelos de negócios não regulados diretamente, como o Banking as a Service (BaaS).
Hacker drena até R$ 40 milhões via Pix em ataque a empresa de tecnologia
Hackers roubaram R$ 26 milhões via Pix ao invadir fornecedor da FictorPay. Caso pressiona Banco Central e revela falhas na regulação do BaaS.
O alvo, desta vez, foi a FictorPay, fintech parceira de grandes plataformas financeiras, que teve pelo menos R$ 26 milhões desviados por criminosos cibernéticos, segundo o site PlatôBR. Outras fontes sugerem que o valor pode superar os R$ 40 milhões, já que o ataque teria como epicentro a Diletta, uma empresa de tecnologia de Campinas (SP), especializada em soluções white label para o setor financeiro.
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Como o ataque ocorreu: credenciais e sistemas terceirizados
Invasão por dentro: credenciais comprometidas
Segundo fontes ligadas à apuração do Finsiders Brasil, o ataque teve semelhanças com os casos recentes envolvendo C&M Software e Sinqia, que também atuam como Provedoras de Serviço de Tecnologia da Informação (PSTIs).
Assim como nesses episódios, o vetor de entrada foi o uso indevido de credenciais de acesso internas, supostamente repassadas por um funcionário, o que facilitou o controle remoto dos sistemas e a movimentação indevida de recursos via Pix.
Diletta: software white label sem vínculo direto com o BC
O agravante é que, diferente das PSTIs, a Diletta não possui conexão regulatória direta com o Banco Central. Como fornecedora de software para instituições que operam sob licença bancária, ela atua nos bastidores do BaaS — modelo que permite a empresas operarem serviços financeiros sem serem bancos.
Isso torna a rastreabilidade e supervisão ainda mais complexas, especialmente em casos de fraude em larga escala, como o ocorrido.
FictorPay e Celcoin: envolvidas, mas sem invasão direta

FictorPay: prestador foi a origem
A FictorPay, fintech afetada pelo roubo, declarou em nota que seus próprios sistemas não foram comprometidos. A empresa afirma ter sido notificada sobre “atividade irregular em ambiente tecnológico de um prestador de serviços”, o que confirma o elo com a Diletta.
Segundo a empresa:
“A ocorrência está sendo apurada pela própria prestadora, com apoio de especialistas em segurança da informação, e até o momento não há registro de qualquer impacto nos sistemas próprios da FictorPay.”
Celcoin: sem relação direta, mas afetada
A Celcoin, uma das principais infraestruturas financeiras autorizadas pelo BC, também foi citada por estar conectada ao ecossistema da FictorPay. A empresa negou qualquer violação em seus sistemas:
“As análises indicam que a origem do incidente está em uma empresa provedora de soluções de aplicativo white label utilizada por este cliente e por outras empresas do mercado, impactando diversos players de BaaS e Core Banking, sem qualquer relação com a Celcoin.”
BaaS: o elo frágil da cadeia financeira?
O episódio reforça uma preocupação crescente entre especialistas: o modelo Banking as a Service se expande rapidamente, mas ainda carece de marcos regulatórios sólidos.
Falta de supervisão direta
Empresas como a Diletta, embora não realizem operações financeiras diretamente, intermediam softwares essenciais para transações — inclusive via Pix. Contudo, por não serem instituições autorizadas pelo BC, essas empresas ficam fora do alcance da supervisão direta do regulador.
Impacto sistêmico sem rastreabilidade
O maior problema é que uma falha em empresas como a Diletta pode afetar todo um ecossistema de fintechs, sem que o BC consiga agir de forma imediata. Sem regras específicas para BaaS e provedores white label, a responsabilidade em caso de ataque torna-se difusa.
Medidas recentes do Banco Central são suficientes?
Diante de uma escalada de fraudes digitais com Pix, o Banco Central anunciou em setembro uma série de medidas, entre elas:
Novas regras de limite e rejeição
- Limite de R$ 15 mil para Pix e TED em Instituições de Pagamento (IPs) não autorizadas ou com uso de PSTIs.
- Obrigatoriedade, desde 13 de outubro, de instituições rejeitarem transações com contas suspeitas de envolvimento em fraudes.
Normas de penalidade
- O BC também estabeleceu novas resoluções sobre segurança e penalidades, visando reforçar a governança e a responsabilidade das instituições financeiras em caso de falhas ou omissões.
Críticas e lacunas
Apesar dos avanços, especialistas apontam que as regras ainda deixam de fora peças-chave da cadeia, como:
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- Empresas não autorizadas diretamente pelo BC, mas que desenvolvem sistemas essenciais;
- Modelos BaaS e white label, cuja responsabilidade é difusa;
- Falta de cadastro e vigilância cibernética obrigatória sobre esses intermediários.
O que dizem as empresas envolvidas
Diletta
“A Diletta informa que, recentemente, foi vítima de um ataque cibernético. Assim que o incidente foi identificado, a empresa tomou todas as diligências necessárias para tratar da situação com a máxima seriedade e responsabilidade… Até esse momento não foi identificado o envolvimento de dados pessoais no incidente.”
FictorPay
“A FictorPay informa que foi comunicada sobre uma atividade irregular em ambiente tecnológico de um prestador de serviços… até o momento não há registro de qualquer impacto nos sistemas próprios da FictorPay.”
Celcoin
“Foi identificada uma movimentação atípica na conta de um cliente, prontamente detectada por nossos sistemas… a origem do incidente está em uma empresa provedora de soluções white label, sem qualquer relação com a Celcoin.”
Riscos para o futuro: o que pode acontecer se nada mudar

Expansão do Pix e fragilidade dos intermediários
Com a expansão do Pix para novos serviços como Pix parcelado, Pix automático e até mesmo Pix internacional, o risco cibernético cresce proporcionalmente. Caso players críticos continuem fora da alçada regulatória, brechas como a explorada no caso Diletta/FictorPay tendem a se repetir — e escalar.
Efeito cascata no ecossistema financeiro
- Fintechs perdem reputação e usuários;
- Bancos enfrentam riscos sistêmicos indiretos;
- O consumidor final sofre perdas e insegurança;
- O Banco Central é pressionado por mais regras e supervisão ampliada.
Soluções sugeridas por especialistas
Entre as sugestões do setor estão:
- Cadastro obrigatório de todos os fornecedores de tecnologia financeira que atuam como intermediários;
- Criação de um selo de conformidade cibernética para software white label;
- Auditorias técnicas regulares em ambientes que processam transações Pix;
- Formação de centros cooperativos de segurança digital entre fintechs, bancos e provedores.
Imagem: SeventyFour / shutterstock.com
