O Banco Central (BC) está preparando novas medidas diante do avanço das modalidades de crédito mais caras na composição das dívidas das famílias brasileiras. A preocupação foi destacada na ata da mais recente reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), divulgada nesta quarta-feira (2).
Segundo o órgão, o objetivo das ações em estudo é melhorar a identificação dos riscos no sistema financeiro, incentivar o reforço de capital pelas instituições e criar condições mais sustentáveis para a concessão de crédito. Embora o Banco Central ainda não tenha detalhado todas as medidas, o debate pode resultar em novas exigências para bancos e financeiras.
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Endividamento das famílias preocupa o Banco Central
O Comef avaliou que o endividamento das famílias brasileiras continua em um patamar historicamente elevado. Além disso, o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu o maior nível da série histórica acompanhada pela autoridade monetária.
O problema, segundo o BC, está relacionado não apenas à quantidade de crédito contratada, mas também ao tipo de dívida assumida pelos consumidores. Linhas mais caras passaram a ter participação relevante no orçamento das famílias, aumentando o peso dos juros sobre a renda disponível.
Dados recentes indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a níveis próximos de 29%, enquanto a inadimplência das pessoas físicas no crédito livre alcançou 7,8% em julho de 2026.
Na prática, isso significa que uma parcela crescente do orçamento familiar precisa ser direcionada ao pagamento de financiamentos, cartões e empréstimos, reduzindo a renda disponível para despesas essenciais e consumo.
Quais tipos de crédito estão no centro da preocupação?
Autoridades do Banco Central já indicaram preocupação especial com modalidades consideradas mais caras e arriscadas para o consumidor.
Entre elas estão o crédito rotativo do cartão e os empréstimos pessoais sem garantia. Essas modalidades costumam apresentar taxas de juros significativamente superiores às observadas em operações com garantias ou desconto direto na folha de pagamento.
Um exemplo comum acontece quando o consumidor não consegue pagar integralmente a fatura do cartão. O saldo restante pode entrar em uma modalidade de financiamento com custo elevado, fazendo com que uma dívida inicialmente pequena cresça rapidamente.
O crédito pessoal sem garantia também pode representar um peso significativo no orçamento, especialmente quando contratado por pessoas que já possuem outros financiamentos ou despesas recorrentes.
O que o Banco Central pode fazer?

As medidas ainda estão em fase de preparação, mas as informações disponíveis indicam que o BC estuda inicialmente ações direcionadas às próprias instituições financeiras.
Entre as possibilidades discutidas estão mecanismos capazes de exigir uma gestão mais rigorosa dos riscos associados à concessão de crédito caro. Isso poderia envolver, por exemplo, exigências adicionais de capital ou regras prudenciais relacionadas às operações consideradas mais arriscadas.
A ideia é evitar que a expansão do crédito ocorra sem uma avaliação adequada da capacidade de pagamento dos consumidores e dos riscos assumidos pelos bancos.
Um eventual limite para o comprometimento da renda das famílias também está entre as alternativas debatidas, mas essa possibilidade ainda não foi oficialmente anunciada pelo Banco Central. Por isso, qualquer mudança concreta dependerá da definição e da divulgação das novas regras.
Medidas podem afetar a oferta de empréstimos?
Possivelmente. Caso o Banco Central aumente as exigências para instituições que oferecem determinadas modalidades de crédito, bancos e financeiras poderão rever suas políticas de concessão.
Isso não significa necessariamente que os empréstimos deixarão de existir. O principal objetivo apontado pela autoridade monetária é tornar a oferta de crédito mais sustentável, reduzindo riscos tanto para os consumidores quanto para o sistema financeiro.
Uma consequência possível seria uma análise mais rigorosa antes da liberação de novos empréstimos. Instituições financeiras poderiam, por exemplo, considerar com mais atenção o nível de endividamento já existente antes de aprovar crédito adicional.
Por que o problema persiste mesmo com emprego e renda em alta?
O cenário chama atenção porque a pressão financeira sobre as famílias aumentou mesmo em um período de mercado de trabalho relativamente aquecido e de melhora na renda.
Para o Banco Central, o crescimento do endividamento e a elevada participação de linhas mais caras exigem cautela adicional. O custo dos juros pode consumir parte relevante da renda, principalmente entre famílias que precisam recorrer repetidamente ao crédito para cobrir despesas correntes.
O risco é a criação de um ciclo de endividamento: o consumidor contrata um empréstimo para quitar outra dívida, mas, sem uma redução efetiva dos gastos ou dos juros, acaba acumulando novas parcelas.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
