Os bancos brasileiros devem enfrentar custos mais elevados para recompor a liquidez do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) após as liquidações da Master e da Will Financeira. A avaliação é da Moody’s, que estima que o pagamento das garantias aos investidores levará os recursos do fundo abaixo do índice mínimo de cobertura, acionando mecanismos extraordinários de recomposição. Apesar disso, a agência não vê riscos sistêmicos materiais para o sistema financeiro.
O movimento reacende o debate sobre custos de captação, liquidez bancária e transparência, ao mesmo tempo em que autoridades revisam a metodologia do seguro de depósitos no Brasil.
Leia mais:
FGC garante capacidade do app após atrasos em pagamentos
O que aconteceu com o FGC após as liquidações
Segundo a Moody’s, após os pagamentos aos investidores, o FGC pode apresentar um déficit estimado de R$ 55 bilhões em relação ao índice mínimo de cobertura de 2,5% dos depósitos segurados. Quando o fundo cai abaixo desse patamar, o estatuto permite a ativação de instrumentos para recompor a liquidez.
Quais ferramentas o FGC pode usar
Entre as alternativas previstas estão:
- Antecipação de contribuições ordinárias futuras, de forma proporcional ao volume de depósitos cobertos de cada banco
- Sobretaxas temporárias sobre as contribuições
- Alíquota mensal de 0,01% sobre os depósitos segurados
A Moody’s avalia que o conselho do FGC deve recorrer a uma combinação de antecipação multianual e uma sobretaxa temporária de 50% sobre a contribuição ordinária até que o nível-alvo de liquidez seja restabelecido.
Quem paga mais pela recomposição
Embora não haja divulgação pública da proporção exata de depósitos segurados por instituição, a concentração do sistema é conhecida. Bancos sistemicamente importantes — como Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Santander Brasil, Caixa Econômica Federal e BTG Pactual — respondem por cerca de 75% dos depósitos elegíveis ao seguro. Na prática, isso significa que arcam com a maior parte da conta.
Para o sistema como um todo, a recomposição tende a elevar custos, mas de forma distribuída e diluída no tempo.
Impacto potencial na liquidez e no crédito
A redução de R$ 55 bilhões na liquidez do sistema, em um cenário de Selic ao redor de 15%, implica um efeito anual superior a R$ 8 bilhões na receita líquida de juros, o equivalente a 2,1% do total reportado nos 12 meses até setembro de 2025, segundo a Moody’s.
O que isso pode significar na prática
- Menor folga de liquidez para alguns bancos
- Custo marginal maior de captação, sobretudo para médios e pequenos
- Repasse parcial para operações de crédito, de forma gradual
Ainda assim, a agência destaca que não há indícios de estresse sistêmico, dada a robusta liquidez doméstica e o perfil do mercado brasileiro.
Bancos médios e a aversão ao risco
Um efeito colateral possível é o aumento da aversão ao risco em relação a bancos de médio porte nas próximas semanas ou meses. Por outro lado, a Moody’s ressalta fatores de compensação importantes.
Mercado de capitais como amortecedor
Em setembro de 2025, o volume em circulação de letras financeiras somava R$ 658 bilhões, alta de 57% em três anos. Desse total, 55% foi emitido pelos maiores bancos, indicando que há profundidade de mercado para absorver ajustes.
Além disso, a expectativa de moderação na originação de crédito em 2026, diante de crescimento econômico mais fraco, tende a reduzir pressões de liquidez e a necessidade de captação adicional pelos bancos médios.
Revisão da metodologia do FGC e do seguro de depósitos
O Banco Central do Brasil (BCB) e o FGC anunciaram a reavaliação da metodologia usada para calcular os limites do fundo e seu tamanho geral. A revisão ocorre a cada quatro anos e considera:
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
- Evolução dos depósitos elegíveis
- Perfis de risco das instituições participantes
- Participação dos depósitos segurados no sistema
O que pode mudar com a nova metodologia
A atualização pode resultar em prêmios de seguro estruturalmente mais altos, sobretudo para bancos menores que ampliaram o uso do seguro de depósitos nos últimos cinco anos. Somadas às contribuições extraordinárias para recompor o fundo, as mudanças tendem a elevar o custo de captação em todo o sistema.
Visão do setor: impacto tende a ser limitado
Para Leandro Vilain, presidente da Associação Brasileira dos Bancos (ABBC), ainda é cedo para medir o impacto total do aumento das contribuições. A expectativa é que o FGC defina rapidamente a recomposição, com prazo estimado entre 60 e 90 dias, já que os pagamentos aos credores estão em andamento.
Segundo Vilain, as instituições não enxergam um problema relevante: pode haver leve aumento de despesas e algum repasse ao crédito, mas diluído no tempo. “É uma fração muito pequena — 0,01% dos depósitos — e não deve inviabilizar negócios”, afirma.
Mais transparência e acesso a dados
O presidente da ABBC também avaliou positivamente as mudanças aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Destaque para:
- Acesso ampliado do FGC a dados operacionais das instituições associadas
- Compartilhamento de informações entre bancos, FGC e Banco Central
- Possibilidade de o FGC contratar auditorias e consultorias independentes
- Divulgação pública de relatórios sobre instituições seguradas e instrumentos garantidos
Essas medidas fortalecem a análise de risco, aumentam a transparência e oferecem mais informação ao investidor.
Não perca nenhuma oportunidade de crédito e pagamento: acesse agora nossas últimas notícias no Seu Crédito Digital.
(Foto: Adobe Stock)



