O desempenho dos candidatos à Presidência nas eleições de 2026 apresentou diferenças expressivas entre municípios brasileiros com maior e menor presença de famílias beneficiárias do Bolsa Família. No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou a maioria dos votos em grande parte das cidades onde o programa tem maior peso em relação ao número de domicílios ocupados. Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, obteve vantagem nos municípios com menor dependência relativa do benefício.
O contraste aparece nos extremos do levantamento. Em Itaubal, no Amapá, apontado como o município mais dependente do programa, Lula recebeu 50,4% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 43%. Já em Braço do Trombudo, em Santa Catarina, considerado o município menos dependente, o candidato do PL obteve 79,15%, contra 14,89% do petista.
Os números indicam uma associação entre a presença do Bolsa Família nos municípios e o resultado eleitoral, mas não demonstram, isoladamente, que o recebimento do benefício determina a escolha dos eleitores.
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Onde Lula e Flávio Bolsonaro tiveram mais votos

Municípios com maior presença do Bolsa Família
Entre as 50 cidades classificadas como mais dependentes do programa, Lula venceu em 47. Flávio Bolsonaro ficou à frente em apenas três municípios desse grupo.
O padrão também aparece na análise mais ampla: em 1.660 municípios brasileiros, o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família correspondia a mais da metade do total de domicílios ocupados usado na comparação. Nesse conjunto, Lula venceu em 1.583 cidades, enquanto Flávio liderou em 77.
Esse resultado mostra que o candidato do PT teve vantagem na maior parte dos municípios em que o programa possui presença proporcionalmente elevada. A relação pode envolver diferentes fatores, como renda, condições de trabalho, estrutura econômica local e avaliação das políticas sociais.
Cidades com menor dependência do benefício
No extremo oposto, Flávio Bolsonaro venceu nos 50 municípios classificados como menos dependentes do Bolsa Família. A diferença mais marcante ocorreu em Braço do Trombudo, onde o candidato do PL obteve quase quatro quintos dos votos válidos.
O resultado sugere que o comportamento eleitoral varia de acordo com as características socioeconômicas de cada localidade. Entretanto, não é possível concluir que moradores de cidades com menor presença do programa tenham necessariamente um perfil político uniforme. Cada município reúne eleitores com diferentes rendas, ocupações, idades e preferências.
Como foi calculada a dependência do Bolsa Família
A classificação municipal considerou a relação entre o número de famílias beneficiárias do Bolsa Família e a quantidade de domicílios ocupados registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo Demográfico de 2022.
Para o cálculo, foram utilizados dados do programa referentes a janeiro de 2026. Quanto maior o número de famílias beneficiárias em comparação com o total de domicílios ocupados, maior a dependência relativa atribuída ao município.
A proporção pode ultrapassar 100%. Isso acontece porque uma mesma residência pode abrigar mais de uma família registrada no Cadastro Único, enquanto o Censo contabiliza o domicílio como uma unidade habitacional.
Existe também uma diferença temporal importante: os dados habitacionais são de 2022, enquanto os números do Bolsa Família são de janeiro de 2026. Mudanças demográficas, migrações e alterações na composição das famílias podem influenciar a comparação.
Por isso, o indicador deve ser interpretado como uma medida aproximada da presença do programa em cada município, e não como uma avaliação completa da pobreza ou da renda de seus habitantes.
O Bolsa Família influencia o voto?

O Bolsa Família é uma política federal de transferência de renda voltada a famílias que atendem aos critérios do programa. Seu impacto econômico pode ser especialmente relevante em localidades com poucas oportunidades de emprego formal e forte presença de atividades de baixa remuneração.
Em municípios menores, os recursos transferidos também podem movimentar o comércio local, contribuindo para a compra de alimentos, medicamentos, roupas e outros itens essenciais. Esse efeito econômico, somado à percepção dos eleitores sobre as políticas públicas, pode fazer parte do contexto em que as escolhas políticas são realizadas.
Ainda assim, o resultado de uma eleição depende de vários fatores. A avaliação do governo, a identificação partidária, as propostas dos candidatos, as condições econômicas e as questões regionais também podem influenciar a decisão do eleitor.
Além disso, observar que um candidato venceu em municípios com maior presença do programa não significa que todos os beneficiários tenham votado nele. Para estabelecer uma relação individual entre recebimento do benefício e voto, seriam necessárias pesquisas específicas, respeitando o sigilo eleitoral.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
