O Brasil deu um passo estratégico em direção à soberania tecnológica ao criar um grupo de especialistas para estudar a viabilidade de desenvolver um sistema nacional de posicionamento, navegação e tempo por satélite. O movimento ocorre em meio a crescentes preocupações com a dependência de sistemas estrangeiros, como o GPS (Sistema de Posicionamento Global), operado pelos Estados Unidos.
Brasil pode desenvolver sistema nacional de GPS, diz governo em avaliação
Governo brasileiro cria grupo técnico para estudar sistema nacional de geolocalização por satélite e reduzir dependência do GPS dos EUA.
A decisão foi oficializada por meio da Resolução nº 33, do Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, e publicada em julho de 2025. A medida visa diagnosticar os desafios, custos e possíveis vantagens de o país dispor de seu próprio sistema de geolocalização por satélite — um empreendimento de altíssima complexidade, mas com impactos estratégicos de longo alcance.
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A criação do grupo técnico e seus objetivos
Quem faz parte do grupo
O grupo técnico multidisciplinar reúne representantes de 14 instituições, entre elas ministérios, a Aeronáutica, a Agência Espacial Brasileira (AEB), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), e outras entidades científicas e governamentais. O time ainda poderá contar com especialistas externos convidados a colaborar com o projeto.
Prazo e entregáveis
De acordo com a resolução assinada pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Marcos Antonio Amaro dos Santos, o grupo terá 180 dias, contados a partir de 14 de julho, para apresentar um relatório técnico contendo conclusões, cenários possíveis e sugestões de caminhos para o Brasil alcançar a independência em sistemas de navegação por satélite.
Por que o Brasil quer um sistema próprio?
Dependência do GPS e riscos estratégicos
Atualmente, o Brasil depende de constelações de satélites operadas por outras nações para fornecer dados de geolocalização essenciais para setores como aviação, transporte, logística, agricultura de precisão, defesa e telecomunicações. O principal sistema utilizado no país é o GPS, administrado pela Força Espacial dos Estados Unidos.
Essa dependência levanta preocupações em tempos de instabilidade geopolítica. O diretor da Agência Espacial Brasileira, Rodrigo Leonardi, explica que a criação do grupo não está diretamente ligada a tensões recentes, como o tarifaço anunciado pelos EUA contra produtos brasileiros. No entanto, ele reconhece que a autonomia neste setor é estratégica e há muito tempo discutida.
Alternativas globais ao GPS
Leonardi destaca que o GPS é apenas um dos sistemas disponíveis no mundo. Há outros com cobertura global, como o Glonass (Rússia), Galileo (União Europeia), e BeiDou (China). Além disso, países como Índia (NavIC) e Japão (QZSS) operam sistemas regionais. Boa parte dos equipamentos modernos — especialmente celulares — já são compatíveis com múltiplas constelações (multiconstelação).
Apesar disso, o Brasil ainda carece de estrutura própria, dependendo do funcionamento e da estabilidade geopolítica dos países controladores desses sistemas.
A polêmica sobre possível bloqueio do GPS pelos EUA

Boatos e “ruídos” nas redes sociais
A discussão sobre a criação de um sistema nacional ganhou mais atenção após rumores espalhados nas redes sociais sugerirem que os Estados Unidos poderiam bloquear o sinal do GPS para o Brasil, como forma de retaliação em um eventual conflito comercial. No entanto, Leonardi classificou essas informações como “ruído” infundado.
“Não houve qualquer pronunciamento oficial do governo norte-americano indicando essa intenção. Além disso, uma medida tão extrema teria consequências globais, incluindo prejuízos para empresas americanas que operam no Brasil”, disse o diretor da AEB.
Consequências técnicas de um possível corte
O professor Geovany Araújo Borges, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que, embora tecnicamente possível, restringir o sinal do GPS para o Brasil traria perdas comerciais, operacionais e até riscos à segurança da aviação civil — inclusive de cidadãos norte-americanos em território brasileiro.
“É uma medida improvável. Os sistemas atuais são amplamente redundantes, e os receptores modernos captam sinais de diversas constelações. Mesmo com a ausência do GPS, muitos serviços continuariam operando normalmente”, afirmou Borges.
As dificuldades de criar um sistema nacional
Complexidade tecnológica e desafios financeiros
Desenvolver um sistema de geolocalização por satélite exige capacidades avançadas em engenharia aeroespacial, microeletrônica, telecomunicações e integração de sistemas. Além disso, é necessário um investimento financeiro bilionário e sustentável por muitos anos.
“Se o país decidir seguir adiante, será necessário multiplicar o orçamento atual do programa espacial brasileiro”, afirmou Leonardi. Isso inclui o desenvolvimento e o lançamento de uma constelação de satélites, a criação de centros de controle, e o estabelecimento de infraestrutura terrestre de suporte.
A cadeia de suprimentos e os entraves externos
Segundo Borges, além do custo, o Brasil terá de enfrentar outro desafio crítico: a restrição na compra de componentes sensíveis. Muitos países se recusam a exportar certos elementos usados em sistemas de defesa e tecnologia espacial. Isso exigiria que o Brasil investisse também no fortalecimento de sua indústria nacional de microeletrônica.
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“Não se trata apenas de lançar satélites. É preciso assegurar a autonomia na produção de chips, sensores e sistemas embarcados. Para isso, será necessário tratar o projeto como política de Estado e investir também em educação e ciência básica”, pontuou o professor da UnB.
Vantagens estratégicas de um sistema brasileiro
Soberania e segurança nacional
A principal justificativa para a criação de um sistema nacional de geolocalização é a soberania tecnológica. Em tempos de tensões geopolíticas, depender de sistemas estrangeiros pode comprometer a segurança nacional, especialmente em operações militares e de defesa civil.
Estímulo à inovação e ao setor produtivo
O desenvolvimento de tecnologias espaciais tem efeito multiplicador em outras áreas da economia. Setores como medicina, agricultura, automação, mineração e energia seriam diretamente beneficiados por avanços em telecomunicações, sensoriamento remoto e geoprocessamento.
Potencial para liderança regional
Se optar por um sistema regional — como os da Índia e do Japão — o Brasil poderia atender a todo o seu território e até países vizinhos. Isso ampliaria sua relevância geopolítica na América do Sul e abriria portas para parcerias tecnológicas com outros países emergentes.
O futuro da geolocalização no Brasil

Multiconstelação como solução imediata
A curto prazo, a recomendação dos especialistas é incentivar o uso de receptores multiconstelação. Essa abordagem aumenta a confiabilidade dos serviços de geolocalização, aproveitando sinais simultâneos de diferentes sistemas — como GPS, Glonass, Galileo e BeiDou.
Um projeto de longo prazo
Caso o Brasil decida criar seu próprio sistema, será necessário estabelecer metas de médio e longo prazo, com fases progressivas: desde a definição do escopo (regional ou global), até o desenvolvimento da infraestrutura e da base industrial.
O relatório final do grupo técnico, previsto para janeiro de 2026, deve nortear essas decisões e embasar propostas de política pública, orçamento e articulação internacional.
Imagem: structuresxx / shutterstock.com
