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Tarifas dos EUA atrapalham planos do Brasil de explorar terras raras

Reservas brasileiras de terras raras podem mudar o equilíbrio global, mas crise diplomática com os EUA ameaça cooperação. Entenda o que está em jogo.

Bruna MachadoPor Bruna Machado5 min de leitura
terras raras

Sob camadas de argila e rocha, o Brasil guarda uma das maiores riquezas do planeta: milhões de toneladas de minerais de terras raras, elementos fundamentais para a produção de drones, robôs, carros elétricos, turbinas eólicas e mísseis guiados. Com reservas estimadas entre 19% e 23% do total mundial, o país desponta como peça-chave na geopolítica de recursos estratégicos.

Por anos, Brasil e Estados Unidos mantiveram conversas discretas sobre cooperação técnica e investimentos para desenvolver a cadeia produtiva das terras raras brasileiras.

A parceria poderia reduzir a dependência americana da China, que controla cerca de 90% do mercado mundial. Mas a recente crise diplomática entre os dois países ameaça paralisar esses avanços e abrir espaço para novos atores internacionais.

Leia mais:

Brasil e EUA podem iniciar negociações sobre minerais críticos e terras raras


O valor estratégico das terras raras

terras raras
Imagem: REPRODUÇÃO/ PORTAL DA MINERAÇÃO

O que são terras raras?

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados principalmente na fabricação de ímãs permanentes, fundamentais em setores de alta tecnologia. Estão presentes em baterias de carros elétricos, smartphones, satélites, radares, armamentos militares e até no setor aeroespacial.

Por que são estratégicas?

  • Alta demanda global: economias em transição energética dependem de terras raras para turbinas eólicas e veículos elétricos.
  • Aplicações militares: mísseis guiados, caças e sistemas de defesa utilizam ímãs de terras raras.
  • Dependência da China: Pequim controla grande parte do processamento, e já demonstrou disposição em restringir exportações por motivos políticos.

Brasil: segunda maior reserva do mundo

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) estima que o país possua cerca de 21 milhões de toneladas desses minerais, tornando-se o segundo maior detentor global, atrás apenas da China. O potencial ainda está subexplorado, mas já existem iniciativas pioneiras.

Projeto Serra Verde

  • Localização: Goiás.
  • Primeira mina em operação dedicada a terras raras no Brasil.
  • Investimento inicial: US$ 150 milhões de fundos americanos e britânicos em 2024.
  • Produção inicial: pequenas quantidades, ainda enviadas para processamento na China.

Ambições nacionais

O Brasil pretende criar uma cadeia completa de produção:

  • Exploração mineral;
  • Instalação de plantas de processamento;
  • Fabricação de ímãs em território nacional.

Brasil e EUA: uma parceria em risco

Cooperação inicial

Durante a administração Biden, diplomatas americanos visitaram o Brasil pelo menos cinco vezes entre 2022 e 2024, discutindo assistência técnica, investimentos e fornecimento ao Pentágono.

Interesses estratégicos dos EUA

  • Garantir acesso estável às reservas brasileiras.
  • Reduzir a dependência da China em setores de defesa e tecnologia.
  • Integrar o Brasil em cadeias produtivas ocidentais.

O ponto de ruptura

A relação começou a se desgastar quando o ex-presidente americano Donald Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil, em apoio político ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Pouco antes, os EUA haviam sinalizado interesse em incluir terras raras nas negociações comerciais.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu de forma dura:

“Ninguém põe a mão. Este país pertence ao povo brasileiro.”


Reações e desdobramentos diplomáticos

Brasil afirma soberania

Autoridades brasileiras deixaram claro que minerais estratégicos não serão moeda de troca em negociações comerciais. O governo Lula busca diversificar parcerias, com destaque para Índia, Espanha e União Europeia.

EUA endurecem discurso

Trump acusou o Brasil de ser um “péssimo parceiro comercial”. Em contrapartida, Lula rebateu, destacando que o país mantém déficit comercial com os EUA e não aceitará pressões externas.

Efeitos imediatos

  • Negociações estagnadas: os avanços obtidos entre 2022 e 2024 foram congelados.
  • Investimentos em risco: empresas americanas hesitam em ampliar aportes devido à instabilidade.
  • China e Índia observam: ambos os países buscam maior aproximação com o Brasil.

O domínio chinês e o desafio global

China como líder absoluta

  • Detém 40% das reservas e controla 90% do mercado de processamento.
  • Já utilizou o setor como ferramenta de pressão diplomática, cortando fornecimento ao Japão em 2010 e restringindo exportações aos EUA recentemente.

EUA buscam alternativas

  • O Pentágono investiu em MP Materials, mineradora de Las Vegas.
  • Exploração em países aliados, como Austrália, Canadá e, até então, Brasil.

O espaço do Brasil

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Com reservas abundantes, o Brasil é visto como candidato natural a desafiar o monopólio chinês. Mas o desenvolvimento depende de:

  • Investimentos bilionários em tecnologia de processamento;
  • Parcerias internacionais para acelerar produção;
  • Definição de política nacional clara sobre minerais estratégicos.

Perspectiva brasileira: soberania e oportunidades

Políticas públicas

O governo Lula classificou os minerais críticos como questão de soberania nacional. Isso significa:

  • Maior controle estatal sobre concessões e exportações;
  • Incentivo a parcerias público-privadas;
  • Monitoramento rigoroso para evitar domínio estrangeiro.

Cooperação internacional seletiva

O Brasil já busca alternativas:

  • Índia: parceria estratégica em tecnologia e energia renovável;
  • Espanha: auxílio no mapeamento geológico;
  • Consórcios multinacionais: mais de duas dezenas de empresas e universidades envolvidas em projetos.

O futuro das terras raras no Brasil

terras raras
Imagem: Wikimedia Commons

Potencial de liderança

Se conseguir estruturar toda a cadeia produtiva, o Brasil pode se tornar:

  • Exportador global de ímãs e componentes de alta tecnologia;
  • Fornecedor estratégico para indústrias de defesa e energia renovável;
  • Polo de inovação em materiais críticos.

Obstáculos no caminho

  • Burocracia regulatória: licenciamento ambiental ainda lento;
  • Dependência tecnológica: falta de expertise em processamento de alta pureza;
  • Disputas políticas: tensões diplomáticas podem afastar investimentos.

Considerações finais

As terras raras brasileiras estão no centro de uma disputa que vai muito além da mineração: trata-se de uma questão geopolítica global. De um lado, os EUA, que buscam reduzir sua dependência da China; de outro, o próprio Brasil, que deseja consolidar sua soberania e explorar suas riquezas em benefício nacional.

A crise diplomática atual ameaça atrasar investimentos e enfraquecer a parceria bilateral, mas também abre espaço para que o país diversifique alianças e fortaleça sua posição como potência mineral.

No tabuleiro da geopolítica global, as terras raras brasileiras podem ser o trunfo que definirá quem controlará as tecnologias e as economias do futuro.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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