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São Paulo registra queda de 50% nas vendas de apartamentos de luxo

O mercado de imóveis de alto padrão e luxo em São Paulo entrou em uma fase de desaceleração em 2026. No primeiro semestre, as vendas de unidades desses segmentos recuaram 39% na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto os lançamentos diminuíram 53%, segundo levantamento da Brain Inteligência Imobiliária. No segundo trimestre, a retração […]

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 11 min de leitura
Imóveis

O mercado de imóveis de alto padrão e luxo em São Paulo entrou em uma fase de desaceleração em 2026. No primeiro semestre, as vendas de unidades desses segmentos recuaram 39% na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto os lançamentos diminuíram 53%, segundo levantamento da Brain Inteligência Imobiliária. No segundo trimestre, a retração das vendas chegou a cerca de 53%.

A mudança ocorre depois de um 2025 marcado por forte expansão. O aumento da oferta, os juros elevados e a maior cautela dos compradores reduziram a velocidade das negociações. Ao mesmo tempo, a quantidade de empreendimentos disponíveis começou a enfraquecer um dos principais argumentos usados pelo setor: a sensação de exclusividade.

Apesar da queda, os dados não apontam necessariamente para uma crise generalizada. A própria Brain estima que o estoque do segmento corresponda a aproximadamente 18 meses de vendas, nível considerado administrável pela consultoria.

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O que está acontecendo com os imóveis de luxo em São Paulo?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A principal mudança é de ritmo. Depois de um período de forte crescimento, o mercado passou a encontrar mais dificuldade para transformar a oferta de novos apartamentos em vendas na mesma velocidade.

Segundo a Brain, as incorporadoras praticamente dobraram o volume de lançamentos nos últimos cinco anos. O problema é que o número de famílias capazes de comprar imóveis de vários milhões de reais é naturalmente limitado. Com mais projetos disputando o mesmo público, a competição aumenta.

O efeito aparece nos números: entre janeiro e junho de 2026, as vendas de alto padrão e luxo caíram 39% na comparação anual, enquanto os lançamentos recuaram 53%.

A retração também não ocorre de maneira uniforme em todos os empreendimentos. Projetos com localização privilegiada, plantas diferenciadas e atributos considerados raros continuam conseguindo atrair compradores.

Por que os compradores estão demorando mais para fechar negócio?

O comportamento do consumidor de alta renda ajuda a explicar a desaceleração.

Ao contrário de quem procura o primeiro imóvel ou precisa trocar de residência por necessidade, o comprador de luxo muitas vezes já possui patrimônio e moradia. A aquisição de um segundo ou terceiro imóvel depende, portanto, de o empreendimento despertar interesse suficiente para justificar a aplicação de uma quantia elevada.

Com mais opções disponíveis, esse comprador ganhou poder de comparação.

Uma pessoa interessada em um apartamento de alto padrão pode visitar diversos empreendimentos antes de tomar uma decisão. O presidente da Benx, Luciano Amaral, relatou que os clientes passaram a pesquisar mais e visitar três ou quatro projetos antes de escolher, prolongando o processo de compra.

Na Even, a avaliação é semelhante. A empresa afirmou que o processo entre visita, negociação e assinatura de contrato estava levando, em média, cerca de 90 dias.

A maior oferta diminuiu a sensação de exclusividade

Exclusividade é um dos elementos centrais na comercialização de imóveis de luxo. Localização, arquitetura, número reduzido de unidades, serviços, áreas comuns e até marcas associadas ao empreendimento são utilizados para criar a percepção de que determinado imóvel é difícil de encontrar novamente.

O problema surge quando vários projetos semelhantes chegam ao mercado ao mesmo tempo.

A avaliação de especialistas ouvidos na reportagem é que a expansão da oferta enfraqueceu o discurso de escassez. Se existem diversos empreendimentos de alto padrão em bairros valorizados, o comprador deixa de ter a mesma pressão para decidir rapidamente.

Essa mudança também altera a dinâmica dos estandes de vendas. Em vez de chegar ao empreendimento pronto para fechar negócio, o consumidor passa a comparar preços, plantas, condomínios e condições comerciais.

Quanto custa hoje um apartamento de alto padrão?

Mesmo com a retração nas vendas, os preços médios continuaram avançando.

De acordo com os dados apresentados pela Brain, o preço médio chegou a aproximadamente R$ 2,9 milhões no segmento de alto padrão, alta de 47% em um ano. No mercado classificado como luxo, o valor médio alcançou R$ 10,8 milhões, aumento de 24%.

Isso significa que a redução no número de unidades vendidas não necessariamente representa uma queda equivalente no dinheiro movimentado pelo segmento.

Uma análise publicada pela Forbes, também baseada no levantamento da Brain, mostra que o segmento com imóveis acima de R$ 2 milhões teve queda de 51,1% nas vendas no segundo trimestre, enquanto o preço por metro quadrado e o tíquete médio avançaram.

A diferença é importante: vender menos unidades não significa necessariamente vender imóveis mais baratos.

Quais bairros concentram os imóveis mais caros?

A localização continua sendo um dos principais fatores para a formação de preços no mercado de luxo paulistano.

Dados da Brain referentes a junho de 2026, compilados pela Forbes, colocaram a Vila Nova Conceição na liderança entre os bairros monitorados, com preço médio de R$ 46.566 por metro quadrado.

Na sequência apareceram Jardins, Jardim Europa, Jardim América e Cerqueira César.

BairroPreço médio por m²
Vila Nova ConceiçãoR$ 46.566
JardinsR$ 43.213
Jardim EuropaR$ 42.413
Jardim AméricaR$ 41.497
Cerqueira CésarR$ 41.204
Real ParqueR$ 34.125
Alto de PinheirosR$ 31.218
Vila OlímpiaR$ 30.723

Os valores variam conforme o empreendimento, a área, a idade do imóvel e as características específicas de cada unidade.

Juros altos também pesam sobre o mercado de luxo

Outro componente relevante é o custo de oportunidade do dinheiro.

Mesmo entre consumidores de alta renda, a decisão de retirar recursos de aplicações financeiras para comprar um imóvel depende da comparação entre o potencial de valorização e renda do apartamento e o retorno que o patrimônio poderia obter em investimentos.

Com juros elevados, essa conta fica menos favorável para determinados compradores.

O analista André Mazini, do Citi, avaliou que a taxa de juros é um concorrente importante das incorporadoras justamente porque pode tornar mais interessante manter o dinheiro aplicado do que direcioná-lo imediatamente para um imóvel na planta.

Além dos juros, o ambiente de incerteza econômica e política aumenta a disposição dos compradores de esperar.

O mercado imobiliário inteiro está em queda?

Não. Esse é um ponto que merece atenção.

A retração apresentada pela Brain se refere especificamente ao segmento de alto padrão e luxo, e não representa automaticamente o comportamento de todo o mercado residencial paulistano.

Os dados do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) mostram que a cidade continuou registrando volumes expressivos de comercialização de imóveis residenciais novos. Em junho de 2026, foram vendidas 9.308 unidades, enquanto o acumulado de 12 meses chegou a 114 mil unidades.

Em maio, por exemplo, o mercado paulistano tinha 88,8 mil unidades disponíveis para venda, considerando imóveis na planta, em construção e prontos lançados nos 36 meses anteriores.

Portanto, não é correto interpretar os números do mercado de luxo como se representassem uma paralisação de todo o setor imobiliário da capital.

Estoque maior acende um sinal de alerta

O estoque é um dos indicadores que ajudam a entender a situação.

Segundo a Brain, o estoque de imóveis de alto padrão e luxo equivale a aproximadamente 18 meses de vendas. Para a consultoria, esse patamar ainda não caracteriza uma crise e pode ser administrado pelas incorporadoras.

Já os números do Secovi-SP mostram níveis de oferta mais elevados quando os imóveis são separados por tamanho. Na cidade, o estoque correspondia a cerca de 19,6 meses de vendas para unidades entre 86 m² e 130 m², 20 meses para imóveis entre 131 m² e 180 m² e 21 meses para aqueles acima de 180 m².

Esses números estão acima das médias históricas mencionadas na reportagem, que ficam em torno de 12 a 13 meses para essas faixas.

Isso não significa que os apartamentos estejam encalhados. Significa que, mantendo o ritmo de vendas observado, seria necessário mais tempo para absorver toda a oferta disponível.

Como as incorporadoras estão reagindo?

A resposta mais imediata tem sido reduzir o ritmo de novos projetos.

Com vendas mais lentas, lançar muitos empreendimentos simultaneamente pode aumentar o estoque e pressionar as empresas a oferecer condições comerciais mais agressivas. Por isso, algumas incorporadoras passaram a adiar lançamentos ou compras de terrenos.

A Even afirmou ter reduzido o volume de novos projetos diante de um ambiente mais desafiador, enquanto a Benx manteve parte dos lançamentos planejados, mas adotou uma postura mais conservadora na aquisição de terrenos.

Essa reação pode ajudar a equilibrar o mercado ao longo do tempo: menos lançamentos significam menor entrada de novas unidades justamente quando o estoque existente precisa ser absorvido.

Ainda existem empreendimentos vendendo rapidamente

A desaceleração do segmento não significa que todos os projetos estejam enfrentando dificuldades.

Alguns empreendimentos continuam apresentando desempenho acima da média quando conseguem combinar localização, arquitetura, metragem, serviços e outros atributos valorizados pelo público de alta renda.

Um exemplo citado na reportagem é o residencial da Construtora Adolpho Lindenberg em Moema. A empresa informou ter vendido 21 dos 39 apartamentos em um único fim de semana de agosto, com unidades a partir de R$ 14 milhões.

Outro caso é o Reserva Cidade Jardim, da JHSF, com apartamentos na faixa de R$ 30 milhões. Segundo a companhia, mais da metade das 146 unidades já havia sido vendida.

Os exemplos mostram que o desempenho do mercado não pode ser resumido apenas pela média. Há empreendimentos que continuam despertando forte demanda, mesmo em um ambiente mais seletivo.

O que pode acontecer daqui para frente?

O cenário mais provável apontado pelas empresas e consultorias ouvidas é de acomodação, e não de colapso.

Com menos lançamentos, a tendência é que o estoque seja gradualmente absorvido. Ao mesmo tempo, os compradores devem continuar mais seletivos, principalmente enquanto os juros permanecerem elevados.

O presidente da Benx, Luciano Amaral, avaliou que 2026 e 2027 podem continuar marcados por menor volume de lançamentos e projetou uma melhora a partir de 2028 caso os juros se aproximem de 10%. Trata-se, porém, de uma expectativa empresarial, e não de uma previsão garantida para o mercado.

A evolução dos juros, da economia brasileira e da confiança dos consumidores será determinante para definir a velocidade dessa recuperação.

O que a queda das vendas significa para quem quer comprar um imóvel?

Para o comprador, um mercado mais lento pode aumentar o espaço para comparação e negociação.

A maior oferta permite analisar diferentes empreendimentos, comparar plantas, localização, condomínio, padrão construtivo e condições de pagamento antes de fechar negócio. Em determinadas situações, a incorporadora também pode estar mais aberta a negociar para acelerar as vendas.

Isso não significa, porém, que todo imóvel de luxo ficará mais barato.

Os dados recentes mostram justamente que os preços médios continuaram subindo apesar da redução das vendas. Portanto, quem pretende comprar deve analisar o imóvel individualmente, e não presumir que uma queda nas vendas produzirá automaticamente descontos generalizados.

Também é fundamental considerar custos que vão além do preço anunciado, como condomínio, IPTU, despesas de manutenção e eventuais custos de financiamento.

O que explica a desaceleração em uma frase?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O mercado de luxo paulistano parece estar passando de uma fase de expansão acelerada para uma etapa de seleção.

Depois de anos de aumento da oferta, há mais empreendimentos disputando um público relativamente restrito. Ao mesmo tempo, juros elevados tornam o dinheiro aplicado mais competitivo, enquanto as incertezas econômicas incentivam compradores a adiar decisões.

As incorporadoras, por sua vez, estão reduzindo lançamentos para evitar que o estoque cresça ainda mais.

Por isso, os números de 2026 apontam mais para uma correção de ritmo após o pico de 2025 do que para uma crise generalizada no mercado de imóveis de luxo de São Paulo.

Conclusão

A queda nas vendas de imóveis de alto padrão em São Paulo mostra que o mercado atravessa um período de ajuste após o forte crescimento registrado em 2025. Com juros elevados, maior oferta e consumidores mais cautelosos, as incorporadoras precisam adaptar o ritmo de lançamentos e disputar um comprador que passou a comparar mais antes de fechar negócio.

Para quem pretende comprar, o momento pode ampliar o poder de escolha e negociação, mas não significa que os preços necessariamente cairão. O desempenho continuará bastante ligado à localização, à qualidade dos empreendimentos e, principalmente, à evolução dos juros e da economia brasileira.

Os próximos meses devem mostrar se a desaceleração será apenas uma acomodação temporária ou o início de uma mudança mais profunda no mercado de luxo paulistano. Por enquanto, os dados indicam um setor menos acelerado, porém ainda distante de uma crise generalizada.

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