Negociadores do Brasil e dos Estados Unidos devem se encontrar oficialmente no próximo mês para discutir a investigação aberta pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), com base na Seção 301 da legislação comercial americana. A primeira conversa entre os dois governos poderá ocorrer cerca de uma semana após a audiência pública marcada para o dia 2 de setembro em Washington, com representantes do setor privado dos dois países.
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Brasil e EUA devem iniciar em setembro negociações sobre investigação comercial do USTR com base na Seção 301.
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Entenda o que está em jogo
O processo pode durar cerca de um ano e envolve seis frentes que, segundo o USTR, merecem investigação por suposta violação de práticas comerciais justas por parte do Brasil:
- Acordos comerciais preferenciais com Índia e México
- Desmatamento e política ambiental
- Combate à corrupção
- Sistema de pagamentos instantâneos (PIX)
- Comércio de etanol
- Propriedade intelectual, incluindo pirataria e patentes farmacêuticas
O que é a Seção 301?
A Seção 301 é um dispositivo da legislação comercial dos Estados Unidos que autoriza o governo americano a investigar práticas de outros países consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas americanas. Caso a investigação conclua pela existência de práticas desleais, os EUA podem impor sanções comerciais unilaterais, como aumento de tarifas, restrições a importações ou outras medidas punitivas.
Esse mecanismo ficou famoso durante o governo Trump, que o utilizou para aplicar tarifas sobre produtos da China em meio à guerra comercial entre as duas potências.
Relatório brasileiro: resposta às acusações
Na última segunda-feira, o governo brasileiro enviou ao USTR um relatório técnico com esclarecimentos ponto a ponto sobre cada tema citado na investigação. O documento foi produzido por especialistas de diferentes ministérios e órgãos federais, em coordenação com o Itamaraty.
Acordos preferenciais com Índia e México
O Brasil argumenta que os acordos em vigor com Índia e México não são discriminatórios, pois seguem normas multilaterais da OMC e são aplicáveis a todos os países com os quais existem tratados comerciais. Além disso, destaca que as exportações dos EUA para o Brasil continuam crescendo acima da média, inclusive mais do que as exportações da Índia.
Sistema de pagamentos: o caso do PIX
O relatório também aborda a questão do PIX, que, segundo o USTR, poderia prejudicar empresas americanas do setor de pagamentos digitais. O governo brasileiro rebate afirmando que o PIX é um sistema universal, gratuito para pessoas físicas e administrado exclusivamente pelo Banco Central, sem qualquer restrição à atuação de empresas estrangeiras no país.
Corrupção e ambiente regulatório

Leis anticorrupção e investigações
Sobre as alegações de um ambiente regulatório frágil e permissivo à corrupção, o governo apresentou dados robustos:
- Mais de 4.200 investigações abertas desde 2013 contra empresas por suspeitas de práticas ilícitas;
- Fortalecimento da Lei Anticorrupção (12.846/2013);
- Cooperação internacional em investigações e processos.
O Brasil também enfatizou a atuação da Controladoria-Geral da União (CGU), do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal em operações de grande escala, como a Lava Jato.
Propriedade intelectual: patentes e pirataria
Um dos pontos centrais da investigação envolve a propriedade intelectual, com destaque para demoras no registro de patentes e o comércio ilegal de produtos falsificados.
Ações destacadas no relatório:
- Comprometimento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em reduzir prazos de concessão de patentes, especialmente na área farmacêutica;
- Ações conjuntas da Receita Federal, Polícia Federal e Procon em regiões como a Rua 25 de Março, em São Paulo, notória pela venda de produtos piratas;
- Investimentos em digitalização dos processos de registro para agilizar a tramitação.
Comércio de etanol: disputa tarifária
Os Estados Unidos questionam a tarifa de 18% aplicada pelo Brasil ao etanol importado, alegando que prejudica produtores americanos. O Brasil, por sua vez, lembra que o açúcar brasileiro sofre alíquotas elevadas para entrar no mercado norte-americano, o que desequilibra a relação comercial.
Posição do Brasil:
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- Disposição para reduzir a tarifa do etanol, desde que haja reciprocidade com o açúcar brasileiro;
- Acordo possível mediante negociações bilaterais no âmbito da OMC.
Desmatamento e política ambiental
A questão ambiental também aparece como uma das preocupações dos EUA na investigação. O USTR questiona o impacto do desmatamento sobre a competitividade agrícola brasileira, especialmente em produtos como soja e carne bovina.
O Brasil, no entanto, apresentou dados indicando uma queda de 50% no desmatamento da Amazônia Legal e reforçou que sua legislação ambiental é uma das mais rígidas do mundo:
- Sistema de licenciamento ambiental integrado;
- Preservação de áreas por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR);
- Monitoramento via satélite com o apoio do INPE.
OMC: nova frente aberta na disputa comercial

Além da investigação via USTR, o Brasil também abriu uma nova janela de negociação na Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesta terça-feira, os EUA aceitaram o pedido de consultas formais feito pelo Brasil contra a imposição de uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, medida aplicada durante o governo Donald Trump.
Reação da diplomacia brasileira:
- Esperança de resolver o impasse via mecanismos multilaterais;
- Estratégia paralela à negociação bilateral com o USTR;
- Reafirmação do compromisso brasileiro com regras internacionais.
O que esperar das negociações?
Próximos passos:
- Audiência pública em Washington – 2 de setembro
- Participação de empresas e entidades comerciais dos dois países.
- Primeiro encontro técnico bilateral
- Esperado para ocorrer até a segunda semana de setembro.
- Rodadas contínuas de negociação
- Duração estimada de até um ano.
- Possível resolução via OMC
- Dependente do andamento das consultas multilaterais.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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