Com o cenário de guerra comercial entre Estados Unidos e China se intensificando após o tarifaço implementado pelo presidente americano Donald Trump, o Brasil se vê diante de um novo desafio econômico.
Para proteger a indústria nacional de uma possível inundação de produtos chineses, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), estuda alternativas de proteção comercial emergencial.
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Contexto: guerra comercial e impactos no Brasil
O chamado “Liberation Day” – o aumento massivo de tarifas promovido por Trump – criou uma situação de incerteza nos fluxos comerciais internacionais. Com barreiras impostas às exportações chinesas para os Estados Unidos, cresce a preocupação de que parte dos produtos manufaturados da China busque novos mercados, entre eles o Brasil.
A indústria brasileira, que já vinha acompanhando o aumento das importações chinesas nos últimos anos, vê a necessidade de ações rápidas para evitar o agravamento do déficit industrial e a perda de competitividade.
Quais medidas de proteção estão sendo estudadas?
Antidumping tradicional
O antidumping é o instrumento mais conhecido, utilizado para punir produtos importados que entram no mercado interno a preços inferiores aos praticados no país de origem. No entanto, o processo de apuração de dumping é longo e burocrático, o que limita sua eficácia em situações emergenciais.
Salvaguardas temporárias
Diante da urgência, a Camex avalia a adoção de salvaguardas temporárias. Estas medidas:
- Têm duração inicial de até um ano;
- Podem ser aplicadas a todos os países simultaneamente;
- Não exigem comprovação de práticas desleais, apenas de aumento súbito de importações que causem dano à indústria nacional.
Uma versão simplificada das salvaguardas, com processos mais ágeis, está sendo considerada para conter rapidamente o fluxo excessivo de produtos.
Movimento já vinha se intensificando
O aumento das importações, especialmente de manufaturados chineses, não é um fenômeno novo. De acordo com Rene Medrado, sócio do escritório Pinheiro Neto e presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de Concorrência, Consumo e Comércio Internacional (Ibrac), a indústria nacional já observava um crescimento preocupante nas importações nos últimos anos.
Dados do Departamento de Defesa Comercial (Decom), do Mdic, apontam que:
- Em 2024, houve um salto de 140% nos pedidos de medidas de proteção em relação a 2023;
- Foram 106 petições recebidas em 2024, a maioria solicitando investigação de práticas de dumping.
Em 2025, até o momento, já foram protocoladas 17 novas petições, com tendência de alta caso a guerra comercial se agrave.
Quais setores são mais afetados?

Segundo o Decom, os setores que concentram o maior número de investigações contra produtos chineses são:
- Metais (11 casos);
- Têxteis (5 casos);
- Plásticos (4 casos);
- Produtos químicos (4 casos).
Atualmente, existem 73 investigações em andamento, sendo 34 envolvendo diretamente produtos chineses. No total, 126 medidas de defesa comercial estão em vigor no Brasil, a maior parte contra a China.
Salto nas importações chinesas para o Brasil
Entre 2019 e 2024, as importações brasileiras de produtos da indústria de transformação chinesa cresceram 78%. Esse aumento se intensificou:
- Em 2024, alta de 29% nas importações em relação ao ano anterior;
- No primeiro trimestre de 2025, crescimento de 36% em comparação com o mesmo período de 2024.
O economista Livio Ribeiro, sócio da BRCG Consultoria e pesquisador da FGV, destaca que houve uma “forte aceleração” nos embarques chineses a partir de dezembro do ano passado, provavelmente como uma antecipação às medidas tarifárias anunciadas por Trump.
O que esperar dos próximos meses?
Possível redirecionamento de produtos
Segundo Ribeiro, com a imposição de barreiras nos Estados Unidos, é provável que o excedente de produção chinesa busque novos destinos, incluindo o Brasil. No curto prazo, seria difícil para o mercado interno chinês absorver todo o volume.
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Crescimento limitado da absorção brasileira
Já José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), acredita que, embora o fluxo de importações chinesas continue, o Brasil não deverá absorver tantos produtos quanto poderia, devido a:
- Crescimento econômico mais fraco previsto para o Brasil em 2025;
- Aproximação política e econômica da China com o Brasil, o que pode evitar práticas comerciais agressivas.
Castro ressalta que a China precisa de parceiros estratégicos em meio à tensão comercial com os EUA, e isso pode moderar o volume exportado diretamente para o mercado brasileiro.
Desafios para o Brasil
O Brasil enfrenta um dilema:
- Proteger a indústria nacional para preservar empregos e competitividade;
- Evitar medidas protecionistas excessivas que possam gerar retaliações comerciais ou aumento de preços para os consumidores.
O equilíbrio entre essas duas necessidades será fundamental para garantir a sustentabilidade do comércio exterior brasileiro nos próximos anos.
Como funcionam salvaguardas e medidas emergenciais?

Salvaguardas tradicionais
- Aplicadas em casos de aumento repentino de importações que causem dano grave a um setor;
- Dependem de investigação prévia e aprovação da Organização Mundial do Comércio (OMC);
- Têm prazo de validade definido.
Salvaguardas simplificadas
- Possibilidade em estudo pela Camex para acelerar o processo;
- Evitam a burocracia típica dos casos antidumping;
- Medidas provisórias podem ser aplicadas rapidamente enquanto a análise definitiva é concluída.
Esses mecanismos visam dar resposta rápida às mudanças abruptas no comércio internacional.
Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil



