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BYD: 163 chineses são resgatados de trabalho análogo à escravidão na Bahia

A força-tarefa de órgãos federais resgatou 163 trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão nas obras da fábrica da BYD

Djamilla Ribeiro MartinsPor Djamilla Ribeiro Martins6 min de leitura
BYD: 163 chineses são resgatados de trabalho análogo à escravidão na Bahia

A construção da nova fábrica da BYD (Build Your Dreams), uma das maiores montadoras de carros elétricos da China, em Camaçari, na Bahia, foi interrompida após uma força-tarefa composta por órgãos federais resgatar 163 trabalhadores que estavam sendo submetidos a condições análogas à escravidão. 

O escândalo ocorreu nas obras realizadas por empresas terceirizadas contratadas pela montadora. A situação levantou questionamentos sobre as práticas trabalhistas e as responsabilidades da empresa em relação ao bem-estar dos trabalhadores envolvidos na construção do complexo industrial.

Leia mais: BYD anuncia início da produção no Brasil para março de 2025

A Interdição e o Resgate: Detalhes da Operação

A força-tarefa foi composta por diversas entidades federais, incluindo o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Polícia Federal (PF), o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a Defensoria Pública da União (DPU), a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Ministério Público Federal (MPF). 

Durante a operação, foram encontrados indícios de graves infrações trabalhistas, resultando na interdição de parte das instalações da obra.

Fábrica BYD
Imagem: Divulgação/ BYD

Condições Degradantes

Os trabalhadores, todos de nacionalidade chinesa, estavam sob condições degradantes, com jornadas de trabalho extenuantes que chegavam a 12 horas por dia, sem folgas semanais e com severas restrições à sua liberdade. 

Além disso, as condições nos alojamentos eram precárias, com superlotação, falta de colchões e de infraestrutura adequada para higiene, como evidenciado por um banheiro compartilhado por 31 trabalhadores.

Condições de Trabalho Desumanas e Abusivas

A fiscalização revelou que os trabalhadores da empresa Jinjiang Group, uma das terceirizadas responsáveis pela obra, estavam em situação de extrema vulnerabilidade. 

Além das longas jornadas de trabalho e falta de segurança, foi constatado que muitos operários tinham seus passaportes retidos pela empresa, o que impedia sua livre circulação. A fiscalização encontrou ainda trabalhadores em situação irregular no país, com vistos temporários de assistência técnica, o que agrava a situação de exploração.

Superlotação nos Alojamentos: Um Retrato da Violação de Direitos

Um dos principais problemas identificados foi a superlotação nos alojamentos, onde condições básicas de higiene e conforto eram inexistentes. 

A fiscalização apontou que em um dos alojamentos, 31 trabalhadores compartilhavam um único banheiro, uma clara violação de direitos humanos. Tais condições violam a dignidade dos trabalhadores e podem resultar em sérios riscos à saúde e segurança.

Restrições à Liberdade: Passaportes Retidos e Acesso Limitado

A situação de restrição à liberdade foi uma das mais graves identificadas durante a operação. Os auditores descobriram que ao menos 107 trabalhadores tinham seus passaportes retidos pela empresa, impedindo sua livre circulação. 

Parte dos operários só podia sair dos alojamentos com autorização dos empregadores, uma clara forma de controle abusivo sobre os trabalhadores.

O Papel da BYD: Responsabilidade da Montadora

Apesar de a força-tarefa ter identificado as infrações nas obras terceirizadas, a responsabilidade pela contratação e supervisão dessas empresas recai sobre a BYD, que assumiu a antiga planta da Ford em Camaçari. 

A montadora chinesa foi notificada e teve parte das obras interditadas. No entanto, a empresa não havia se pronunciado oficialmente sobre o caso até o fechamento desta matéria.

Denúncia

Em novembro de 2023, a BYD já havia sido alertada sobre as condições de trabalho nos canteiros de obra, após uma denúncia de trabalhadores chineses, que apontava jornadas de até 12 horas diárias, sem equipamentos de proteção e sem descanso semanal. 

Na ocasião, a empresa informou que havia repudiado as imagens da denúncia, afastado os agressores e exigido medidas urgentes das empresas terceirizadas.

A Resposta da Montadora: Compromisso com a Ética e a Legislação

Em resposta à operação de fiscalização e ao escândalo de trabalho análogo à escravidão, a BYD se comprometeu a colaborar com as autoridades para resolver as questões identificadas. 

A empresa também destacou que suas operações no Brasil sempre seguiram as leis locais e que reforçou as inspeções nas obras para garantir que as condições de trabalho respeitassem os direitos dos trabalhadores.

No entanto, a situação gerou um questionamento sobre o grau de fiscalização da montadora sobre suas terceirizadas e sobre os mecanismos de controle de condições de trabalho em suas fábricas no Brasil. As falhas apontadas indicam uma possível lacuna na gestão da empresa e nas suas responsabilidades com as condições de trabalho dos operários.

O Impacto do Caso na Imagem da BYD

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O caso gerou repercussão internacional, prejudicando a imagem da BYD no Brasil e, possivelmente, afetando suas operações no país. A montadora, que já havia investido cerca de R$ 5,5 bilhões na construção da fábrica e na produção de carros elétricos, agora se vê diante de uma crise de credibilidade, que pode comprometer suas relações com o governo, consumidores e investidores.

Além disso, o escândalo coloca em xeque a eficiência do sistema de fiscalização do trabalho no Brasil e levanta a questão de como grandes corporações, como a BYD, gerenciam suas cadeias de suprimentos e suas obras terceirizadas, especialmente em um país com um histórico de violação dos direitos trabalhistas.

O Procedimento de Investigação: Como Tudo Começou

O procedimento investigativo foi iniciado após uma denúncia anônima recebida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no final de setembro de 2024. A denúncia relatava condições de trabalho degradantes nas obras da fábrica da BYD, o que levou a uma série de inspeções realizadas em novembro. 

A operação revelou as severas condições de abuso e exploração dos trabalhadores, que resultaram no resgate de 163 chineses em situação análoga à escravidão.

Papel das Empresas Terceirizadas: Jinjiang Group na Mira

A Jinjiang Group, empresa contratada pela BYD para a execução das obras, também foi alvo das investigações. A empresa foi notificada pelos órgãos competentes e precisará responder por sua participação na exploração laboral e pelas condições de trabalho que permitiram que os operários fossem submetidos a essa situação de abusos.

BYD D1
Imagem: Divulgação / BYD

O Caso como Reflexo de uma Realidade Preocupante

Este caso não é um fato isolado. Ele faz parte de uma realidade alarmante de trabalho em condições análogas à escravidão que ainda persiste no Brasil, especialmente em setores como a construção civil, onde as irregularidades são comuns. 

Empresas de grande porte, como a BYD, precisam estar atentas à responsabilidade que têm sobre as empresas terceirizadas que contratam, para evitar que seus nomes sejam associados a violações de direitos humanos.

A Luta Contra o Trabalho Escravo no Brasil

A fiscalização e as ações das forças-tarefa demonstram que o Brasil continua sendo um campo de batalha na luta contra o trabalho análogo à escravidão. 

Em uma época de globalização e crescente pressão por parte da sociedade civil, é fundamental que grandes empresas adotem práticas rigorosas de monitoramento de suas cadeias de suprimentos e que se comprometem a garantir que todos os trabalhadores, independentemente de sua nacionalidade, sejam tratados com dignidade e respeito.

Imagem: Divulgação / BYD

Djamilla Ribeiro Martins

Autor

Djamilla Ribeiro Martins

Djamila Martins é formada em Tecnologia em Gestão Empresarial (Processos Gerenciais) pela FATEC de Santos, Licenciada em Letras pelo Instituto Federal de São Paulo e também graduada em Pedagogia pela Universidade de Marília. Com uma base sólida em educação e gestão, alia conhecimento técnico e sensibilidade didática para contribuir com conteúdos informativos, acessíveis e confiáveis no portal Seu Crédito Digital, com foco em cidadania, economia e serviços públicos.

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