Uma alteração anunciada pela Caixa Econômica Federal no modelo de remuneração dos Correspondentes Caixa Aqui (CCAs) voltou a colocar em evidência um tema sensível para o mercado imobiliário: como ajustes internos do banco público podem impactar diretamente a engrenagem que sustenta a contratação de crédito habitacional no Brasil. A discussão vai além dos correspondentes e alcança imobiliárias, corretores, construtoras e, em última instância, o ritmo de financiamento de imóveis no país.
A mudança, denominada oficialmente de “Novo Modelo de Remuneração da Rede Parceira – Habitação”, tem previsão de entrada em vigor em 2 de janeiro de 2026. Desde que veio a público, a proposta vem sendo alvo de críticas da Associação Nacional de Correspondentes Caixa Aqui (ANCCA), que pede a suspensão imediata da implementação e a abertura de um debate técnico mais amplo.
Leia mais:
Minha Casa, Minha Vida: Caixa contrata novas unidades
O que muda no modelo de remuneração da Caixa
Segundo a ANCCA, o novo desenho rompe com o modelo vigente há anos, afetando a previsibilidade financeira dos correspondentes e alterando regras que vinham sendo adotadas como referência na rede.
Como funciona o modelo atual
No formato atual, a remuneração dos correspondentes na área habitacional teria como base um percentual de 1,20%, condicionado ao cumprimento de metas semestrais. Esse mecanismo, segundo a entidade, permitia algum grau de planejamento financeiro e alinhamento entre desempenho e remuneração.
Principais mudanças previstas
De acordo com as manifestações da associação, o novo modelo elimina, já a partir de janeiro de 2026, o direito ao percentual integral, inclusive para correspondentes que tenham cumprido metas até dezembro de 2025. A ANCCA afirma que a nova tabela pode provocar uma redução da receita bruta entre 16,67% e 33,33%, dependendo do volume de produção.
Outro ponto sensível é a manutenção de tetos financeiros congelados desde fevereiro de 2015, apesar das transformações no mercado e do aumento expressivo dos custos operacionais ao longo da última década.
Reação dos correspondentes e pedido de suspensão
A ANCCA sustenta que a mudança foi comunicada sem o devido processo de diálogo e sem estudos de impacto amplamente divulgados. Para a entidade, a proposta gera insegurança jurídica e quebra do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
Proposta de diálogo institucional
Entre as principais reivindicações está a criação de um grupo técnico envolvendo a Caixa Econômica Federal, o Conselho Curador do FGTS, a própria ANCCA e a Febralot. A ideia é discutir alternativas, ajustes e um eventual período de transição antes da adoção definitiva de um novo modelo.
Impacto em toda a cadeia do mercado imobiliário
O debate ganhou força também fora do círculo dos correspondentes. Profissionais do setor imobiliário passaram a alertar para os efeitos indiretos da mudança sobre toda a cadeia habitacional.
Visão de especialistas do mercado
Em manifestações públicas, o especialista em financiamento imobiliário Murilo Arjona destacou que o tema não se restringe à remuneração de um elo específico, mas afeta “todo o ecossistema” do crédito imobiliário. Segundo ele, a redução estimada em cerca de 20% na remuneração ligada ao SBPE pode desestimular a atuação dos correspondentes, que desempenham papel central na originação de crédito.
Arjona também chama atenção para o fato de que a remuneração da rede não teria sido reajustada desde 2015, enquanto os custos operacionais cresceram de forma consistente ao longo do período.
A importância dos Correspondentes Caixa Aqui
Os CCAs são considerados peça-chave na execução da política habitacional brasileira, especialmente em regiões onde não há agências físicas da Caixa.
Presença nacional e capilaridade
De acordo com dados apresentados pela ANCCA, os correspondentes estão presentes em 2.078 municípios brasileiros. Em muitas dessas localidades, são o principal ou único canal de acesso ao crédito habitacional oferecido pelo banco público.
Participação na produção habitacional
A entidade afirma que os CCAs seriam responsáveis por mais de 90% da produção habitacional nacional. Entre janeiro e julho de 2025, a rede teria originado R$ 55 bilhões em financiamentos habitacionais com recursos do FGTS e R$ 23 bilhões via SBPE. Somando outros produtos, como consignado, consórcio e seguros, o volume total alcançou R$ 81,86 bilhões no período.
Custos operacionais e defasagem histórica
Outro ponto central do debate envolve o aumento expressivo dos custos operacionais enfrentados pelos correspondentes nos últimos anos.
Aumento de despesas entre 2015 e 2025
Segundo estimativas da ANCCA, os custos médios cresceram cerca de 91,2% no período, pressionados por fatores como inflação acumulada, reajustes do salário mínimo, alta nos aluguéis comerciais, energia elétrica, telecomunicações, combustíveis e investimentos em tecnologia da informação.
Para a associação, o congelamento de percentuais e tetos financeiros ao longo de mais de uma década ampliou a defasagem do modelo e reduziu a margem de sustentabilidade das empresas que atuam como correspondentes.
Riscos sistêmicos apontados pelo setor
A possível implementação do novo modelo sem ajustes ou transição adequada levanta preocupações sobre efeitos em cadeia no mercado imobiliário.
Possíveis consequências práticas
Entre os riscos apontados estão o fechamento de empresas de correspondência, perda de capilaridade em regiões afastadas dos grandes centros, aumento dos prazos de análise e contratação de crédito e queda na qualidade do atendimento ao consumidor.
Esses fatores, segundo os críticos da proposta, podem comprometer o ritmo de contratações de financiamentos habitacionais, inclusive em programas de interesse social.
Apoio de entidades representativas
A preocupação não se limita à ANCCA. Entidades representativas do setor também manifestaram apoio ao pedido de revisão do modelo.
Construção civil e corretores no debate
Instituições como a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o Conselho Federal de Corretores de Imóveis (COFECI) e o Fórum Norte e Nordeste da Construção Civil (FNNIC) reforçaram que o tema afeta diretamente construtoras, incorporadoras e corretores, responsáveis por transformar o crédito disponível em moradias efetivamente contratadas.
Não perca nenhuma oportunidade de crédito e pagamento: acesse agora nossas últimas notícias no Seu Crédito Digital.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
