O cartão de crédito aparece como o principal tipo de dívida renegociada pelo Novo Desenrola Brasil dentro da plataforma Acordo Certo e reforça um alerta sobre o peso dessa modalidade no orçamento das famílias.
Segundo levantamento divulgado pela empresa, 44.550 das mais de 89 mil dívidas negociadas por meio da plataforma durante o programa estavam relacionadas ao cartão de crédito.
Isso representa aproximadamente 50% de todos os acordos registrados pela Acordo Certo no período.
O dado não significa que metade de todas as dívidas renegociadas pelo Desenrola Brasil no país seja de cartão. O levantamento considera especificamente as negociações realizadas dentro da plataforma.
Ainda assim, a concentração ajuda a mostrar como faturas atrasadas podem se transformar em um dos principais problemas financeiros dos consumidores.
Leia mais:
Cartões por aproximação ganham mais espaço nas compras do dia a dia
Cartão de crédito representa metade dos acordos na Acordo Certo

O levantamento da Acordo Certo mostra uma diferença significativa entre o cartão e outras modalidades de crédito.
Enquanto aproximadamente 44,5 mil renegociações envolviam cartão, os empréstimos pessoais aparecem na sequência, com quase 11 mil acordos.
O volume das dívidas de cartão é, portanto, cerca de quatro vezes maior.
Por outro lado, o valor médio renegociado nos empréstimos pessoais era superior.
Segundo os dados divulgados, as dívidas de cartão tinham valor médio próximo de R$ 1.616, enquanto os empréstimos pessoais alcançavam aproximadamente R$ 2.473.
O número elevado de acordos relacionados às faturas chama atenção especialmente porque o cartão faz parte da rotina de milhões de consumidores.
Por que a dívida do cartão pode crescer tão rápido?
O principal problema ocorre quando o consumidor não consegue pagar integralmente a fatura.
Nesse caso, o saldo restante pode ser financiado pela instituição financeira.
Uma das possibilidades é o crédito rotativo, modalidade conhecida pelas taxas elevadas.
Dados do Banco Central mostram que as taxas cobradas pelas instituições variam significativamente.
Em levantamento referente ao período entre 30 de julho e 5 de agosto de 2026, por exemplo, algumas das principais instituições registravam taxas anuais do rotativo acima de 300%.
Dependendo do banco, o percentual divulgado ultrapassava 400% ao ano.
Isso não significa que todos os consumidores pagarão exatamente essa taxa, já que as condições variam conforme instituição, contrato e perfil do cliente.
Mesmo assim, os números mostram por que deixar a fatura sem pagamento integral pode rapidamente aumentar o custo da dívida.
Limite de juros do cartão mudou a dinâmica da dívida
Desde 2024 existe uma limitação legal para o crescimento dos juros e encargos financeiros sobre a parte da fatura que não foi paga ou que foi parcelada com juros.
Pelas regras em vigor, o total cobrado a título de juros e encargos não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida.
Isso significa que uma dívida original de R$ 1 mil pode gerar, no máximo, outros R$ 1 mil em juros e encargos relacionados ao financiamento daquele saldo.
Na prática, o consumidor poderá ter de pagar até R$ 2 mil naquele exemplo, sem considerar compras novas ou outras operações realizadas no cartão.
O teto trouxe maior previsibilidade, mas não tornou o rotativo barato.
O custo ainda pode comprometer rapidamente a capacidade financeira de uma família.
Compras parceladas também pressionam os meses seguintes
Outro problema não está necessariamente nos juros, mas no acúmulo de parcelas.
Uma compra de R$ 1.200 dividida em 12 vezes pode parecer leve quando analisada isoladamente, porque representa R$ 100 por mês.
O risco aparece quando diferentes compras são feitas ao mesmo tempo.
Imagine um consumidor que já tenha:
- R$ 100 de uma televisão;
- R$ 180 de um celular;
- R$ 150 de móveis;
- R$ 220 de passagens;
- R$ 200 em outras compras parceladas.
Antes mesmo das despesas do mês, R$ 850 da próxima fatura já estariam comprometidos.
Esse efeito pode se repetir durante vários meses.
Por isso, o limite disponível do cartão não deve ser confundido com renda disponível.
Como funciona o Novo Desenrola Brasil em 2026?
O Novo Desenrola Brasil foi instituído pela Medida Provisória nº 1.355, de 4 de maio de 2026.
O nome oficial do programa é Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias.
A iniciativa permite a renegociação de determinadas dívidas financeiras de pessoas físicas com condições diferenciadas.
Segundo o serviço oficial do Governo Federal, podem participar pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos e que possuam dívidas enquadradas nos critérios definidos pelo programa.
Quem pode renegociar pelo Desenrola Brasil?
Entre os principais requisitos estão:
- renda mensal de até cinco salários mínimos;
- dívida contratada até 31 de janeiro de 2026;
- atraso entre 91 e 720 dias;
- contratação junto a uma instituição financeira participante;
- enquadramento da operação entre as modalidades autorizadas.
Em 2026, com salário mínimo de R$ 1.621, o teto de cinco salários mínimos corresponde a R$ 8.105 mensais.
O consumidor precisa procurar a instituição responsável pela dívida para verificar se a operação está efetivamente disponível para renegociação.
Não existe garantia de que todas as pendências terão as mesmas condições.
Quais dívidas podem entrar no programa?
Entre as modalidades previstas estão dívidas de:
- cartão de crédito;
- cheque especial;
- crédito pessoal sem consignação em folha;
- operações decorrentes da consolidação de determinadas dívidas.
A instituição financeira verifica se o contrato atende aos critérios estabelecidos pelo programa.
Por isso, possuir uma dívida de cartão não significa automaticamente que ela estará disponível para renegociação.
É necessário conferir o enquadramento.
Descontos podem chegar a 90%
As condições dependem da instituição e da dívida.
A Caixa Econômica Federal, por exemplo, informa que os descontos para contratos enquadrados podem chegar a até 90%.
Esse percentual máximo não é garantido para todos os participantes.
O abatimento efetivamente concedido depende da situação do contrato e da política aplicada na renegociação.
Antes de aceitar uma proposta, o consumidor deve comparar o valor original da dívida com o montante final a ser pago.
Qual é a taxa de juros do Novo Desenrola?
Nas renegociações parceladas dentro das regras do programa, está prevista taxa de juros de 1,99% ao mês, além da incidência de IOF conforme as condições aplicáveis.
A diferença em relação ao custo potencial do rotativo do cartão pode ser expressiva.
Isso ajuda a explicar por que a renegociação pode representar uma alternativa mais sustentável para quem já perdeu o controle das faturas.
Mesmo assim, a nova parcela precisa caber no orçamento.
Renegociar uma dívida e atrasar novamente poucos meses depois pode recriar o problema financeiro.
É possível usar o FGTS no Novo Desenrola?
Sim, desde que o trabalhador e a dívida preencham os requisitos.
As regras permitem utilizar recursos das contas vinculadas do FGTS para amortizar ou liquidar parcialmente determinadas dívidas renegociadas pelo Novo Desenrola Brasil.
O limite corresponde a até R$ 1 mil ou 20% do saldo disponível nas contas vinculadas, prevalecendo o maior dos dois valores.
Podem ser considerados saldos de contas ativas e inativas.
A avaliação do enquadramento é feita pela instituição financeira.
Usar FGTS para pagar dívida vale a pena?
A decisão precisa ser analisada com cautela.
Reduzir uma dívida muito cara pode representar uma economia relevante, principalmente quando a alternativa é continuar pagando juros elevados.
Por outro lado, o FGTS funciona como uma reserva vinculada a situações específicas previstas em lei, como demissão sem justa causa e aquisição da casa própria.
Assim, utilizar parte do fundo para pagar dívida significa reduzir o saldo disponível para outras finalidades futuras.
O ideal é comparar quanto será economizado em juros com a importância daquele recurso para o planejamento familiar.
Até quando vai o Novo Desenrola Brasil?
A MP nº 1.355 foi publicada em 4 de maio de 2026.
No Congresso Nacional, seu prazo de vigência foi prorrogado e chega a 31 de agosto de 2026.
Em 29 de agosto, a medida provisória ainda aparece como vigente e aguardando instalação da comissão mista responsável por sua análise.
Isso cria um ponto de atenção.
O consumidor interessado em renegociar deve verificar imediatamente junto ao banco ou à instituição participante se ainda existem condições disponíveis para seu contrato.
O prazo legislativo da medida provisória não deve ser confundido com uma garantia automática de contratação até determinada hora ou por qualquer canal.
Como fazer a renegociação?
O Governo Federal orienta que o consumidor procure diretamente a instituição financeira participante responsável pela dívida.
O atendimento pode ocorrer por:
- aplicativo do banco;
- internet banking;
- site da instituição;
- canais conveniados;
- atendimento disponibilizado pelo próprio credor.
Plataformas parceiras também podem intermediar negociações quando autorizadas pelas instituições.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Antes de informar CPF, senha ou dados bancários, é fundamental confirmar se o ambiente utilizado é legítimo.
Não é necessário pagar taxa para entrar no programa
O serviço de renegociação é gratuito para o cidadão.
Portanto, propostas que condicionem a entrada no Novo Desenrola ao pagamento antecipado de uma “taxa de liberação” devem ser tratadas com desconfiança.
Criminosos costumam explorar programas governamentais justamente quando existe grande procura da população.
O consumidor deve evitar links recebidos de desconhecidos e priorizar os canais oficiais do próprio banco.
Renegociar não significa apenas conseguir o maior desconto
Um desconto de 80% pode parecer melhor que um de 60%, mas outros fatores precisam entrar na conta.
O consumidor deve verificar:
- quantidade de parcelas;
- valor de cada prestação;
- juros da renegociação;
- valor total ao final do contrato;
- data da primeira parcela;
- impacto no orçamento mensal;
- possibilidade de antecipação.
Uma parcela menor pode esconder um contrato mais longo.
Por isso, é importante observar o custo total e não apenas o valor mensal apresentado.
Vale trocar uma dívida de cartão por outro empréstimo?
Em alguns casos, substituir uma dívida cara por outra mais barata pode fazer sentido.
O problema é fazer isso sem eliminar a causa original do endividamento.
Imagine uma pessoa que utilize um empréstimo pessoal para quitar integralmente o cartão.
Se continuar fazendo novas compras no cartão enquanto paga o empréstimo, poderá terminar com duas dívidas.
A troca só tende a funcionar quando há redução efetiva dos juros e controle das novas despesas.
Consignado exige cuidado
Crédito consignado pode oferecer juros menores em determinados casos, especialmente para aposentados, pensionistas e trabalhadores que atendam às regras da modalidade.
Mas a parcela é descontada diretamente da renda.
Isso reduz o dinheiro disponível todos os meses para alimentação, medicamentos, aluguel e outras despesas.
Portanto, usar consignado apenas para liberar novamente o limite do cartão pode transformar um problema de curto prazo em comprometimento prolongado da renda.
Antecipação do saque-aniversário do FGTS também é dívida
Outra modalidade que costuma apresentar taxas inferiores às do cartão é a antecipação do saque-aniversário.
Nesse tipo de operação, porém, os saques futuros do FGTS ficam comprometidos para pagamento do empréstimo.
Não se trata de dinheiro extra ou benefício gratuito.
O consumidor precisa avaliar as consequências antes de utilizar a modalidade simplesmente para cobrir gastos recorrentes.
Como evitar voltar ao rotativo depois da renegociação?

A renegociação resolve a dívida anterior, mas não corrige automaticamente o orçamento.
Algumas mudanças podem ajudar.
Uma delas é reduzir o limite do cartão para um valor compatível com a renda.
Outra é acompanhar o total das parcelas futuras antes de realizar uma compra nova.
Também pode ser útil estabelecer um teto mensal de gastos no cartão inferior ao valor máximo oferecido pelo banco.
O limite deve funcionar como mecanismo de pagamento, e não como complemento permanente da renda.
Cartão de crédito exige planejamento mesmo sem juros
O cartão não é necessariamente um problema financeiro.
Quando utilizado com planejamento e pagamento integral da fatura, pode oferecer praticidade e permitir melhor organização das despesas.
O risco aparece quando o consumidor passa a depender do limite para manter gastos que a renda mensal já não consegue sustentar.
Nesse cenário, o cartão deixa de ser apenas um meio de pagamento e passa a funcionar como crédito recorrente.
Os mais de 44 mil acordos identificados pela Acordo Certo mostram justamente a dimensão que esse problema pode alcançar.
Renegociação deve abrir espaço no orçamento
Para quem está elegível ao Novo Desenrola Brasil, a prioridade deve ser transformar uma dívida difícil de administrar em uma obrigação que caiba efetivamente na renda disponível.
Isso envolve avaliar o desconto, a taxa de juros e o prazo, mas também mudar a forma como o crédito será usado depois do acordo.
O levantamento da Acordo Certo mostra que o cartão respondeu por 50% das mais de 89 mil dívidas renegociadas em sua plataforma.
O dado reforça que, mesmo com regras que limitam o crescimento dos juros, o acúmulo de faturas continua sendo um dos principais sinais de desequilíbrio financeiro.
Com o prazo da MP nº 1.355 chegando a 31 de agosto de 2026, consumidores que se enquadram nas regras do Novo Desenrola devem consultar os canais oficiais de seus credores e avaliar cuidadosamente se a proposta oferecida realmente cabe no orçamento.



