A cidadania italiana voltou ao centro das atenções políticas com a recente proposta de Antonio Tajani, que visa alterar profundamente os critérios de acesso à nacionalidade. O vice-premiê italiano apresentou um projeto que pode beneficiar milhares de jovens imigrantes por meio do sistema educacional, desafiando décadas de políticas baseadas no direito de sangue.
Projeto de lei promete novo caminho para cidadania italiana através da educação
Projeto "jus scholae" propõe cidadania italiana, porém, enfrenta oposição e tenta modernizar regras de nacionalidade. Saiba mais aqui!
O projeto, conhecido como “jus scholae”, representa uma tentativa de equilibrar tradição e modernidade em um país que vive intensas transformações demográficas. No entanto, a proposta enfrentará grandes obstáculos políticos, inclusive dentro da própria coalizão governista liderada por Giorgia Meloni.

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Um novo paradigma para a cidadania italiana
O que propõe o “jus scholae”
O projeto de lei apresentado pelo partido Força Itália estabelece que jovens nascidos na Itália, ou que chegaram ao país antes dos cinco anos, poderão obter cidadania após completarem 16 anos, desde que tenham frequentado escolas italianas por pelo menos 10 anos. Essa exigência busca assegurar um vínculo profundo com a cultura italiana.
A iniciativa pretende reconhecer jovens que, embora estrangeiros no papel, vivem e se educam como italianos. O objetivo é garantir direitos plenos a essa geração, incluindo acesso ao voto e à função pública, áreas hoje restritas a cidadãos reconhecidos legalmente.
Contexto político do projeto
A proposta surgiu em meio a divisões internas do governo de direita. Tajani defende que a educação é um fator legítimo de integração, enquanto seus aliados na coalizão, como o partido Irmãos da Itália (FdI) e a Liga, veem a medida com desconfiança, associando-a à facilitação da imigração ilegal.
A tensão interna cresce desde o referendo de junho de 2025, que buscava reduzir de dez para cinco anos o tempo de residência necessário para pedir cidadania. Apesar de 65% dos votos favoráveis, o referendo fracassou por baixa participação — apenas 30% do eleitorado votou, invalidando o resultado.
Histórico das leis de cidadania na Itália
Jus sanguinis: a regra tradicional
Desde o pós-guerra, a Itália tem baseado sua cidadania no jus sanguinis (direito de sangue), que favorece descendentes de italianos, mesmo que nunca tenham vivido no país. Esse sistema, embora tradicional, tem sido cada vez mais criticado por sua inadequação às novas realidades sociais.
O modelo atual exclui automaticamente filhos de imigrantes nascidos em solo italiano, obrigando-os a esperar até os 18 anos para solicitar cidadania. Muitos não conseguem completar o processo por dificuldades burocráticas ou falta de documentos dos pais.
Reformas recentes e impactos externos
Em março de 2025, o governo restringiu o “jus sanguinis”, permitindo que apenas descendentes de pais ou avós nascidos na Itália possam pedir cidadania. A decisão afetou drasticamente ítalo-descendentes no Brasil e Argentina, países com grandes comunidades ligadas à Itália.
Essa medida gerou reações imediatas: no Brasil, uma petição com quase 50 mil assinaturas exigiu a revogação do decreto. O governo, contudo, sustenta que a reforma visa conter abusos e desafogar os consulados, especialmente após os 20 mil pedidos processados no Brasil em 2024.
A educação como pilar da integração
O papel da escola na formação de cidadãos
O “jus scholae” propõe um novo modelo de pertencimento baseado na educação formal. A exigência de uma década de estudos em território italiano busca comprovar que o jovem teve contato prolongado com os valores e a cultura do país, assimilando-os como parte de sua identidade.
Segundo Tajani, o sistema escolar italiano tem sido o principal vetor de integração dos filhos de imigrantes. Eles aprendem o idioma, convivem com colegas italianos e participam da vida social local — uma vivência que, para o ministro, já é suficiente para justificar o acesso à cidadania.
Apoios institucionais
A proposta recebeu apoio de diversas entidades civis e religiosas. A Conferência Episcopal Italiana, por exemplo, defendeu a reforma em 2022 como forma de fortalecer o tecido social e combater a exclusão de jovens que cresceram como italianos, mas são tratados como estrangeiros.
Setores empresariais e acadêmicos também veem a medida com bons olhos, especialmente diante do envelhecimento populacional. A Itália precisa de jovens para sustentar sua economia, e oferecer cidadania a quem já vive no país é visto como um investimento estratégico.
Obstáculos políticos e resistências
Reações da direita nacionalista
A maior resistência ao projeto vem dos aliados de Tajani. Giorgia Meloni, premiê e líder do FdI, afirmou que a legislação atual é “adequada” e que o foco deve ser o combate à imigração ilegal. Ela teme que a cidadania automática incentive novas ondas migratórias.
Matteo Salvini, da Liga, também criticou duramente o “jus scholae”. Segundo ele, a proposta abre precedentes para futuras demandas por jus soli, o que poderia representar uma ruptura com a identidade histórica da Itália.
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A fragmentação no Parlamento
Apesar do apoio de partidos de oposição como o Partido Democrático e o Mais Europa, o projeto enfrenta um Parlamento polarizado. A fragmentação da coalizão governista dificulta qualquer avanço, e há incertezas sobre se o projeto chegará ao plenário com apoio suficiente.
Analistas políticos afirmam que Tajani tenta se posicionar como uma figura conciliadora, mas a pressão eleitoral e a retórica nacionalista têm limitado seu espaço de manobra. A tentativa de aprovar o projeto em 2025 pode ser adiada por falta de consenso interno.
Números que sustentam a urgência da reforma
- Estima-se que 5,5 milhões de imigrantes vivam na Itália, correspondendo a 9% da população total.
- Cerca de 900 mil estudantes estrangeiros frequentam escolas italianas atualmente.
- Aproximadamente 48 mil crianças poderiam se beneficiar da proposta “jus scholae” a cada ano.
- O número de italianos no exterior aumentou em 40% na última década, atingindo 6,4 milhões.
- Os consulados italianos processam anualmente cerca de 50 mil pedidos de cidadania, principalmente vindos da América do Sul.
Esses dados reforçam a necessidade de atualizar as normas de cidadania, não apenas para garantir justiça social, mas também para equilibrar a estrutura demográfica e responder aos desafios econômicos do país.
O impasse jurídico da cidadania infantil
Cidadania sem consentimento dos pais?
Um dos argumentos usados por opositores é a dificuldade de conceder cidadania a menores sem envolver a situação legal dos pais. Meloni apontou que isso poderia resultar em contradições legais, especialmente em casos de repatriação ou deportação de famílias.
A proposta de Tajani tenta contornar esse impasse exigindo uma longa permanência e vínculos sólidos com o país. Mesmo assim, há dúvidas jurídicas sobre como aplicar a lei sem conflitar com as normas internacionais sobre reunificação familiar e proteção de menores.
Modelos europeus comparativos
Diversos países europeus já adotaram sistemas mistos de cidadania, combinando jus soli, jus sanguinis e jus culturae (direito cultural). França, Alemanha e Espanha reformaram suas legislações nos últimos 20 anos, permitindo que jovens imigrantes acessem a nacionalidade com mais facilidade.
A Itália, nesse contexto, permanece entre os países mais restritivos. O “jus scholae” representa um passo tímido, mas significativo, rumo a uma maior integração, alinhando-se às práticas de inclusão europeias.

A proposta do “jus scholae” expõe as tensões estruturais da sociedade italiana contemporânea. De um lado, há o desejo de preservar a identidade nacional; de outro, a necessidade prática de reconhecer a nova geração de jovens que já vivem, estudam e trabalham na Itália como qualquer outro cidadão.
O projeto de Antonio Tajani é mais do que uma mudança legal: é um reflexo de um país em transição, que precisa decidir se continuará a basear sua cidadania no passado ou se adaptará às realidades do presente. O futuro da cidadania italiana será, inevitavelmente, um espelho da Itália que a sociedade deseja construir — inclusiva, moderna e com base no mérito educacional.
