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Risco de rombo no caixa pode fazer Correios acionar Tesouro; entenda

Correios correm risco de ficar sem caixa até o fim de 2025 e podem pedir ajuda ao Tesouro. Governo resiste a aporte.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes7 min de leitura
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A empresa pública Correios (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) vive uma das fases mais delicadas de sua história. Com prejuízos acumulados, perda de receita, dificuldades para pagar fornecedores e risco de não conseguir honrar salários e despesas básicas até dezembro de 2025, a estatal corre sério risco de se tornar dependente do Tesouro Nacional para fechar as contas.

Caso essa situação se concretize, o governo federal precisará incluir os gastos da empresa dentro do Orçamento da União, o que pressionaria as regras fiscais e poderia exigir cortes em políticas públicas para acomodar cerca de R$ 20 bilhões em despesas da estatal.

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Imagem: Jo Galvao / Shutterstock

Prejuízo crescente e alerta à equipe econômica

Déficit quase triplica em um ano

Somente no primeiro semestre de 2025, os Correios registraram um rombo de R$ 4,37 bilhões, quase três vezes o prejuízo de R$ 1,35 bilhão registrado no mesmo período de 2024. O segundo trimestre foi particularmente crítico, com déficit de R$ 2,64 bilhões, frente a R$ 553,2 milhões um ano antes.

Esses números, revelados em primeira mão pela coluna Painel da Folha de S.Paulo, foram apresentados à equipe econômica do governo como sinal de alerta máximo. Internamente, já se admite que o caixa da empresa pode entrar em colapso a qualquer momento, inclusive ainda em setembro.

Sentenças judiciais e Postalis agravam situação

Entre os fatores que pressionam as contas estão:

  • Sentenças judiciais com valores milionários;
  • O acordo para cobrir o rombo do Postalis, fundo de pensão dos funcionários da empresa;
  • Perda abrupta de receitas logísticas com a entrada do Remessa Conforme, programa da Receita Federal.

Risco de dependência e impacto no Orçamento Federal

O que é uma estatal dependente?

Uma empresa pública é considerada “dependente” quando precisa de recursos diretos do Tesouro Nacional para arcar com despesas correntes, como salários, aposentadorias ou funcionamento básico.

Caso os Correios entrem nessa situação:

  • A estatal perde sua autonomia orçamentária;
  • Os gastos da empresa passam a ser computados no Orçamento Primário da União;
  • O governo federal terá de remanejar recursos ou cortar despesas em outras áreas para acomodar os gastos da estatal dentro do teto de gastos e do arcabouço fiscal.

Cenário seria dramático para a União

Em algumas simulações internas, o impacto no Orçamento poderia chegar a R$ 20 bilhões por ano, caso a empresa não consiga manter sua operação sem ajuda federal. O valor ultrapassa orçamentos de ministérios inteiros e afetaria políticas públicas em áreas sensíveis como saúde, educação e infraestrutura.

Governo evita admitir socorro, mas já estuda aporte

Aporte seria alternativa à dependência formal

Para evitar que os Correios sejam classificados como dependentes, a alternativa mais imediata seria um aporte direto de capital pelo Tesouro, de menor impacto fiscal — entre R$ 5 bilhões e R$ 8,7 bilhões, a depender do valor necessário para cobrir o patrimônio líquido negativo da empresa.

Porém, em junho, quando os primeiros sinais da crise foram apresentados, a equipe econômica negou qualquer possibilidade de aporte, alegando falta de espaço orçamentário.

Tesouro e ministérios evitam se comprometer

O Tesouro Nacional afirma que pedidos de capitalização devem ser feitos pelas estatais aos ministérios supervisores — no caso, o Ministério das Comunicações.

A pasta, por sua vez, declarou que os Correios “têm autonomia administrativa e financeira”, e seu papel é apenas de supervisão institucional. O ministro Frederico de Siqueira Filho declarou à imprensa que não vê aporte como solução imediata, e que o governo buscará “outras alternativas”.

Técnicos reconhecem: situação é insustentável

Reservadamente, técnicos do governo admitem que os Correios estão em “beco sem saída”. Mesmo com medidas de corte de gastos, a deterioração financeira da empresa é mais rápida do que os resultados das ações corretivas.

O temor é que, caso o governo insista em não realizar o aporte, a estatal entre em colapso em poucos meses, com impacto direto em serviços essenciais à população.

Medidas emergenciais dos Correios

Correios
Imagem: Diego Thomazini / Shutterstock.com

Venda de ativos e PDV

Para tentar evitar o colapso, a empresa adotou medidas como:

  • Venda de imóveis próprios, com expectativa de arrecadação extraordinária;
  • Criação de um PDV (Programa de Demissão Voluntária), que teve adesão de 3.500 funcionários.
    A economia projetada com o PDV é de R$ 1 bilhão em 2026, segundo estimativas da estatal.

Empréstimos com bancos privados

Em junho, os Correios recorreram a um empréstimo de R$ 1,8 bilhão junto a três instituições financeiras privadas: Citibank, BTG Pactual e Banco ABC Brasil.

A operação deu fôlego temporário ao caixa, mas a dívida vence em seis parcelas mensais a partir de julho de 2026. Ainda que esteja em carência, a empresa precisará ter fluxo de caixa positivo até lá, o que hoje não é garantido.

Atraso com fornecedores e contingenciamento

Para preservar caixa no curto prazo, a estatal tem atrasado pagamentos a fornecedores, gerando um passivo de aproximadamente R$ 600 milhões.

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Essa prática, no entanto, chegou ao limite. Fornecedores ameaçam suspender contratos, e a empresa corre o risco de ter serviços operacionais interrompidos.

Impacto do programa Remessa Conforme

Perda de receitas com “taxa das blusinhas”

Segundo os Correios, um dos principais gatilhos para a queda de receitas foi a implementação do Remessa Conforme, da Receita Federal.

A medida retirou a isenção de importação de produtos até US$ 50 adquiridos entre pessoas físicas e passou a cobrar impostos sobre compras internacionais em sites como Shein, Shopee e AliExpress.

A mudança:

  • Beneficiou operadoras privadas de logística, integradas ao programa;
  • Retirou dos Correios a função de principal porta de entrada de pequenas encomendas, até então responsável por parcela significativa das receitas da empresa.

Sucessão na presidência emperrada

Presidente entregou carta de demissão em julho

O presidente dos Correios, Fabiano Silva dos Santos, entregou carta de demissão em 4 de julho, em meio à pressão da crise. Dois meses depois, o desligamento ainda não foi formalizado, pois o governo não encontrou substituto de consenso.

Disputa política trava nomeação

O comando da estatal virou alvo de disputa entre alas do PT e do União Brasil, partidos que disputam espaço na estrutura do governo. Segundo fontes internas, nenhum grupo aceita assumir a gestão sem garantia de socorro federal, tamanha é a gravidade da situação financeira.

Negociação com Banco dos BRICS é improvável

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Imagem: rafapress/Shutterstock.com

Empréstimo de R$ 4 bilhões travado

Os Correios tentam negociar um contrato de financiamento com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do BRICS, no valor de R$ 4 bilhões em cinco anos, para bancar um projeto de modernização.

Mas há um entrave:

  • Como operação internacional, o contrato precisa de aval do governo federal;
  • Para isso, a estatal precisa atingir uma nota mínima de Capag (capacidade de pagamento);
  • Diante do quadro atual, isso é considerado improvável.

A frustração da negociação com o NDB pode acelerar a necessidade de um pedido oficial de socorro ao Tesouro Nacional.

Imagem: SERGIO V S RANGEL/ shutterstock.com

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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