A empresa pública Correios (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) vive uma das fases mais delicadas de sua história. Com prejuízos acumulados, perda de receita, dificuldades para pagar fornecedores e risco de não conseguir honrar salários e despesas básicas até dezembro de 2025, a estatal corre sério risco de se tornar dependente do Tesouro Nacional para fechar as contas.
Risco de rombo no caixa pode fazer Correios acionar Tesouro; entenda
Correios correm risco de ficar sem caixa até o fim de 2025 e podem pedir ajuda ao Tesouro. Governo resiste a aporte.
Caso essa situação se concretize, o governo federal precisará incluir os gastos da empresa dentro do Orçamento da União, o que pressionaria as regras fiscais e poderia exigir cortes em políticas públicas para acomodar cerca de R$ 20 bilhões em despesas da estatal.
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Prejuízo crescente e alerta à equipe econômica
Déficit quase triplica em um ano
Somente no primeiro semestre de 2025, os Correios registraram um rombo de R$ 4,37 bilhões, quase três vezes o prejuízo de R$ 1,35 bilhão registrado no mesmo período de 2024. O segundo trimestre foi particularmente crítico, com déficit de R$ 2,64 bilhões, frente a R$ 553,2 milhões um ano antes.
Esses números, revelados em primeira mão pela coluna Painel da Folha de S.Paulo, foram apresentados à equipe econômica do governo como sinal de alerta máximo. Internamente, já se admite que o caixa da empresa pode entrar em colapso a qualquer momento, inclusive ainda em setembro.
Sentenças judiciais e Postalis agravam situação
Entre os fatores que pressionam as contas estão:
- Sentenças judiciais com valores milionários;
- O acordo para cobrir o rombo do Postalis, fundo de pensão dos funcionários da empresa;
- Perda abrupta de receitas logísticas com a entrada do Remessa Conforme, programa da Receita Federal.
Risco de dependência e impacto no Orçamento Federal
O que é uma estatal dependente?
Uma empresa pública é considerada “dependente” quando precisa de recursos diretos do Tesouro Nacional para arcar com despesas correntes, como salários, aposentadorias ou funcionamento básico.
Caso os Correios entrem nessa situação:
- A estatal perde sua autonomia orçamentária;
- Os gastos da empresa passam a ser computados no Orçamento Primário da União;
- O governo federal terá de remanejar recursos ou cortar despesas em outras áreas para acomodar os gastos da estatal dentro do teto de gastos e do arcabouço fiscal.
Cenário seria dramático para a União
Em algumas simulações internas, o impacto no Orçamento poderia chegar a R$ 20 bilhões por ano, caso a empresa não consiga manter sua operação sem ajuda federal. O valor ultrapassa orçamentos de ministérios inteiros e afetaria políticas públicas em áreas sensíveis como saúde, educação e infraestrutura.
Governo evita admitir socorro, mas já estuda aporte
Aporte seria alternativa à dependência formal
Para evitar que os Correios sejam classificados como dependentes, a alternativa mais imediata seria um aporte direto de capital pelo Tesouro, de menor impacto fiscal — entre R$ 5 bilhões e R$ 8,7 bilhões, a depender do valor necessário para cobrir o patrimônio líquido negativo da empresa.
Porém, em junho, quando os primeiros sinais da crise foram apresentados, a equipe econômica negou qualquer possibilidade de aporte, alegando falta de espaço orçamentário.
Tesouro e ministérios evitam se comprometer
O Tesouro Nacional afirma que pedidos de capitalização devem ser feitos pelas estatais aos ministérios supervisores — no caso, o Ministério das Comunicações.
A pasta, por sua vez, declarou que os Correios “têm autonomia administrativa e financeira”, e seu papel é apenas de supervisão institucional. O ministro Frederico de Siqueira Filho declarou à imprensa que não vê aporte como solução imediata, e que o governo buscará “outras alternativas”.
Técnicos reconhecem: situação é insustentável
Reservadamente, técnicos do governo admitem que os Correios estão em “beco sem saída”. Mesmo com medidas de corte de gastos, a deterioração financeira da empresa é mais rápida do que os resultados das ações corretivas.
O temor é que, caso o governo insista em não realizar o aporte, a estatal entre em colapso em poucos meses, com impacto direto em serviços essenciais à população.
Medidas emergenciais dos Correios

Venda de ativos e PDV
Para tentar evitar o colapso, a empresa adotou medidas como:
- Venda de imóveis próprios, com expectativa de arrecadação extraordinária;
- Criação de um PDV (Programa de Demissão Voluntária), que teve adesão de 3.500 funcionários.
A economia projetada com o PDV é de R$ 1 bilhão em 2026, segundo estimativas da estatal.
Empréstimos com bancos privados
Em junho, os Correios recorreram a um empréstimo de R$ 1,8 bilhão junto a três instituições financeiras privadas: Citibank, BTG Pactual e Banco ABC Brasil.
A operação deu fôlego temporário ao caixa, mas a dívida vence em seis parcelas mensais a partir de julho de 2026. Ainda que esteja em carência, a empresa precisará ter fluxo de caixa positivo até lá, o que hoje não é garantido.
Atraso com fornecedores e contingenciamento
Para preservar caixa no curto prazo, a estatal tem atrasado pagamentos a fornecedores, gerando um passivo de aproximadamente R$ 600 milhões.
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Essa prática, no entanto, chegou ao limite. Fornecedores ameaçam suspender contratos, e a empresa corre o risco de ter serviços operacionais interrompidos.
Impacto do programa Remessa Conforme
Perda de receitas com “taxa das blusinhas”
Segundo os Correios, um dos principais gatilhos para a queda de receitas foi a implementação do Remessa Conforme, da Receita Federal.
A medida retirou a isenção de importação de produtos até US$ 50 adquiridos entre pessoas físicas e passou a cobrar impostos sobre compras internacionais em sites como Shein, Shopee e AliExpress.
A mudança:
- Beneficiou operadoras privadas de logística, integradas ao programa;
- Retirou dos Correios a função de principal porta de entrada de pequenas encomendas, até então responsável por parcela significativa das receitas da empresa.
Sucessão na presidência emperrada
Presidente entregou carta de demissão em julho
O presidente dos Correios, Fabiano Silva dos Santos, entregou carta de demissão em 4 de julho, em meio à pressão da crise. Dois meses depois, o desligamento ainda não foi formalizado, pois o governo não encontrou substituto de consenso.
Disputa política trava nomeação
O comando da estatal virou alvo de disputa entre alas do PT e do União Brasil, partidos que disputam espaço na estrutura do governo. Segundo fontes internas, nenhum grupo aceita assumir a gestão sem garantia de socorro federal, tamanha é a gravidade da situação financeira.
Negociação com Banco dos BRICS é improvável

Empréstimo de R$ 4 bilhões travado
Os Correios tentam negociar um contrato de financiamento com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do BRICS, no valor de R$ 4 bilhões em cinco anos, para bancar um projeto de modernização.
Mas há um entrave:
- Como operação internacional, o contrato precisa de aval do governo federal;
- Para isso, a estatal precisa atingir uma nota mínima de Capag (capacidade de pagamento);
- Diante do quadro atual, isso é considerado improvável.
A frustração da negociação com o NDB pode acelerar a necessidade de um pedido oficial de socorro ao Tesouro Nacional.
Imagem: SERGIO V S RANGEL/ shutterstock.com
