O Crédito do Trabalhador, também conhecido como consignado CLT, foi lançado pelo governo federal em março de 2025 com a promessa de democratizar o acesso ao crédito para trabalhadores com carteira assinada. No entanto, em um cenário de alto endividamento no país, a novidade vem gerando opiniões divididas entre especialistas, economistas e a população.
Empréstimo consignado CLT: riscos e vantagens para o trabalhador
Crédito do Trabalhador já soma R$ 21 bilhões em quatro meses. Veja vantagens, riscos, simulações e como evitar dívidas com o consignado CLT.
De um lado, há quem veja o consignado CLT como uma alternativa viável, já que oferece taxas de juros mais baixas e desconto direto em folha, evitando inadimplência. De outro, os críticos alertam para o uso indiscriminado do crédito, o risco de superendividamento e a ausência de um teto de juros regulamentado, que pode transformar o que seria uma ajuda emergencial em um novo problema financeiro.
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Volume expressivo em apenas quatro meses
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o programa já registrou 4 milhões de contratos de empréstimos, atendendo 3,1 milhões de trabalhadores em todo o Brasil. Isso representa cerca de R$ 21 bilhões movimentados até o fim de julho de 2025. O estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, soma 255,7 mil empréstimos, totalizando R$ 1,3 bilhão.
A adesão em massa em poucos meses revela o apelo da proposta, especialmente entre os trabalhadores mais afetados pela inflação, pelo desemprego recente e pelo aumento do custo de vida.
O que é o Crédito do Trabalhador?
O Crédito do Trabalhador é uma linha de empréstimo consignado destinada a trabalhadores com carteira assinada, inclusive empregados domésticos, rurais, celetistas e motoristas de aplicativo. A principal característica é o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento, o que reduz o risco de inadimplência e, teoricamente, permite juros mais baixos.
Contudo, não há um limite oficial para as taxas cobradas pelas instituições financeiras, o que pode levar a contratos com encargos superiores aos praticados em outras modalidades de crédito.
Garantias e margem consignável
Um diferencial do consignado CLT é a possibilidade de usar parte do saldo do FGTS como garantia. São aceitos até 10% do saldo disponível na conta ativa ou até 100% da multa rescisória prevista em caso de demissão sem justa causa.
O valor máximo comprometido mensalmente é de 35% do salário líquido do trabalhador, sendo:
- 30% para empréstimos consignados;
- 5% adicionais para despesas com cartão consignado, se houver.
Benefícios apontados por especialistas
A professora Wendy Haddad Carraro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca que o consignado CLT pode ser útil em situações emergenciais ou para substituição de dívidas com juros mais altos.
“Pode ser suficiente para quitar uma dívida mais cara. Mas a gente tem que fazer a comparação de taxas. É muito importante definir o valor que vamos pegar do consignado, evitando usar a margem consignável total”, alerta Carraro.
A especialista também enfatiza que o crédito deve ser encarado como um recurso excepcional, e não como uma extensão do orçamento:
“Isso não é uma ajuda para o trabalhador. Ele tem que usar de forma muito consciente. Porque, depois que entra, fica muito difícil de sair.”
Riscos e armadilhas do crédito consignado

Apesar das vantagens, os riscos associados ao consignado CLT são consideráveis. Segundo o planejador financeiro Adriano Severo, da Severo Capital, o uso do FGTS como garantia pode ser prejudicial em caso de demissão.
“Em caso de demissão, além de usar até 100% da multa rescisória, o trabalhador pode ter parte do saldo do FGTS comprometido. Ou seja, ele pode perder uma reserva importante para o futuro.”
Outro ponto crítico é o alto comprometimento da renda com parcelas automáticas. Com até 35% do salário sendo retido, sobra menos dinheiro disponível para cobrir despesas fixas, emergências e consumo básico.
Severo também chama atenção para os trabalhadores informais ou de aplicativos, cuja renda é variável e instável:
“O trabalhador de aplicativo não pode ultrapassar 30% do que recebe, mas, por depender do veículo, pode sofrer imprevistos. Se o carro quebrar ou ocorrer um acidente, a renda cai e a dívida continua.”
O uso do consignado na compra da casa própria
A tentação de usar o consignado CLT como parte da entrada para um financiamento imobiliário também preocupa os especialistas. Embora o crédito seja de fácil acesso, usar essa linha para financiar a entrada de um imóvel pode ser um grande erro.
Segundo Wendy Haddad Carraro:
“É um grande perigo. Tomar um consignado para pagar a entrada de um financiamento significa que estou começando duas dívidas ao mesmo tempo, o que é extremamente arriscado.”
Nesse cenário, o trabalhador passa a ter dois compromissos financeiros simultâneos: o pagamento mensal do empréstimo e das parcelas do financiamento habitacional, o que pode levar ao descontrole orçamentário.
Dicas práticas para contratar com segurança
Para quem considera recorrer ao consignado CLT, especialistas recomendam cautela e planejamento. Veja algumas dicas essenciais para evitar problemas:
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- Faça um diagnóstico financeiro completo: Liste todos os seus gastos fixos e eventuais. Conhecer o próprio orçamento é o primeiro passo para uma decisão segura.
- Avalie a estabilidade no emprego atual: O empréstimo está atrelado ao vínculo empregatício. Se houver risco de demissão, o comprometimento do FGTS pode afetar seu futuro.
- Compare taxas de juros entre instituições: Nem sempre o consignado tem os juros mais baixos. Pesquise antes de fechar contrato.
- Evite comprometer toda a margem consignável: Pegue apenas o necessário. Não caia na tentação de usar o limite máximo permitido.
- Use o dinheiro apenas para a finalidade planejada: Desvios no uso do crédito aumentam o risco de inadimplência.
- Esteja ciente do desconto em folha: As parcelas são debitadas automaticamente, o que exige organização para não comprometer demais o orçamento.
Quem pode solicitar o Crédito do Trabalhador?
Estão aptos a contratar o empréstimo:
- Trabalhadores com carteira assinada (CLT);
- Empregados domésticos;
- Trabalhadores rurais formais;
- Microempreendedores Individuais (MEIs) com empregados;
- Motoristas de aplicativo (desde que o vínculo seja comprovado);
- Pessoas com mais de um vínculo podem fazer mais de um empréstimo, um por vínculo.
Como contratar o consignado CLT?
O processo é simples e pode ser feito totalmente online:
- Acesse o aplicativo Carteira de Trabalho Digital (CTPS Digital);
- Simule o valor, prazo e parcelas do empréstimo;
- Compare propostas de diferentes instituições financeiras;
- Escolha a melhor condição e finalize o contrato.
A liberação dos recursos é feita em poucos dias úteis, e o valor contratado é depositado diretamente na conta bancária do trabalhador.
Falta de regulamentação das taxas é motivo de crítica
Um dos principais pontos de controvérsia do programa é a ausência de um teto oficial para as taxas de juros cobradas pelas financeiras. Isso tem levado instituições a oferecerem condições piores do que o esperado, o que contraria a promessa de um crédito mais acessível.
A colunista Giane Guerra, referência na cobertura econômica no Sul do país, já alertou sobre financeiras que oferecem juros até maiores do que outros empréstimos pessoais, mesmo com a vantagem do desconto em folha.
Diante disso, cresce a pressão por maior regulação e transparência no setor, especialmente diante do público-alvo do programa: trabalhadores de baixa renda, mais vulneráveis ao superendividamento.
O que esperar do futuro do consignado CLT?

A popularização acelerada do consignado CLT mostra a necessidade da população por crédito, mas também reforça a urgência de medidas de educação financeira e regulamentação mais firme sobre taxas abusivas.
Se bem utilizado, pode ser uma ferramenta estratégica para quitar dívidas caras e reorganizar o orçamento. No entanto, se mal administrado, pode ampliar o ciclo de endividamento e afetar diretamente a saúde financeira dos trabalhadores.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
