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Correios vivem crise mas gasto com funcionários chega a R$ 15,1 bilhões

Correios vivem crise de liquidez, gastam R$ 15,1 bilhões com pessoal e recorrem ao TST para tentar rever benefícios acima da CLT.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes7 min de leitura
Correios

Os Correios atravessam um dos momentos mais delicados de sua história recente. A estatal enfrenta uma crise de liquidez marcada por dívidas acumuladas, ao mesmo tempo em que mantém um dos maiores custos trabalhistas do setor público federal. Apenas com a folha de pagamento, a empresa desembolsa cerca de R$ 15,1 bilhões por ano, valor considerado elevado diante do atual cenário financeiro e operacional.

Esse gasto expressivo é impulsionado por um conjunto de benefícios previstos no Acordo Coletivo de Trabalho 2024/2025, firmado com as federações sindicais que representam os empregados. A diretoria da empresa afirma que muitas dessas cláusulas estão acima do que prevê a Consolidação das Leis do Trabalho e até mesmo do padrão praticado por outras estatais, o que, segundo a gestão, gera uma “ineficiência estrutural” difícil de sustentar.

Diante do impasse, a empresa decidiu levar a discussão ao Tribunal Superior do Trabalho, judicializando a negociação após não conseguir consenso com as entidades sindicais. O embate ocorre em paralelo a um plano de reestruturação que inclui um amplo Programa de Demissão Voluntária, com impacto direto sobre o futuro da estatal e de seus funcionários.

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Correios em crise de liquidez e pressão sobre as contas

A crise de liquidez dos Correios não surgiu de forma repentina. Ela é resultado de uma combinação de fatores, como aumento de custos operacionais, queda de receitas em determinados segmentos e dificuldades de adaptação a um mercado cada vez mais competitivo, especialmente no setor de encomendas.

Dívidas acumuladas e desequilíbrio financeiro

Com dívidas acumuladas e margens cada vez mais apertadas, a estatal passou a revisar suas despesas internas. Nesse contexto, a folha de pagamento aparece como um dos principais focos de atenção, não apenas pelo volume total, mas pela composição dos gastos.

Benefícios acima da média do mercado

Segundo a diretoria, o pacote de benefícios concedido aos funcionários está acima do praticado no mercado privado e até mesmo em comparação com outras empresas públicas. A avaliação interna aponta que esse cenário dificulta qualquer tentativa de ajuste financeiro sem enfrentar resistência sindical.

Judicialização do acordo coletivo no TST

Sem acordo com as federações sindicais Fentect e Findect para a renovação do Acordo Coletivo, cuja data-base era agosto, os Correios optaram por acionar o Tribunal Superior do Trabalho.

Objetivo da ação judicial

A intenção da estatal é rever cláusulas consideradas excessivas ou incompatíveis com o atual momento financeiro da empresa. A direção argumenta que não se trata de retirar direitos básicos, mas de adequar benefícios que extrapolam a legislação trabalhista.

Reação das entidades sindicais

As federações sindicais, por sua vez, afirmam que os benefícios são conquistas históricas e fazem parte da valorização dos trabalhadores. Para os representantes dos empregados, qualquer tentativa de corte representa perda de direitos e ameaça à qualidade do serviço prestado à população.

O que está em jogo no Acordo Coletivo 2024/2025

O documento oficial do acordo coletivo confirma a existência de uma série de benefícios que, juntos, ajudam a explicar o alto custo da folha de pagamento dos Correios. Alguns deles chamam atenção pelo impacto financeiro direto.

Férias com gratificação ampliada

Enquanto a CLT garante um adicional de um terço do salário nas férias, os funcionários dos Correios recebem uma gratificação de 70%. Essa diferença representa um custo significativo ao longo do ano, especialmente em uma empresa com milhares de empregados.

Licença menstrual remunerada

O acordo prevê licença menstrual de dois dias por mês para mulheres que comprovarem sintomas graves associados ao fluxo menstrual. O benefício é remunerado e não exige compensação posterior.

Hora extra tripla em dias de descanso

O trabalho realizado em dias de descanso semanal ou feriados é remunerado com adicional de 200% sobre a hora normal, o que equivale a pagamento triplo. Alternativamente, o funcionário pode optar por duas folgas compensatórias.

Vale-alimentação mantido em afastamentos

O vale-alimentação dos Correios tem valor facial de R$ 50,93 por dia, o que equivale a cerca de R$ 1.120 mensais para quem trabalha cinco dias por semana. O benefício é mantido integralmente durante férias, licença-maternidade, licença-paternidade e nos primeiros 90 dias de afastamento médico.

Vale-peru no fim do ano

Outro ponto que pesa no orçamento é o chamado vale-peru, que consiste em um crédito extra de R$ 2.500 no vale-alimentação, pago em duas parcelas, nos meses de dezembro e janeiro.

Ponto por exceção

Carteiros e agentes de distribuição não precisam registrar ponto diariamente. Eles só marcam quando fazem hora extra ou têm atrasos. Caso concluam o serviço antes do horário, são liberados sem desconto ou necessidade de compensação.

Licença-saúde estendida após alta do INSS

Se o INSS concede alta médica, mas o médico da empresa considera o funcionário inapto, os Correios mantêm o pagamento do salário por até 90 dias, enquanto o trabalhador recorre da decisão previdenciária.

Auxílio-creche e babá

O acordo prevê reembolso de até R$ 714,72 mensais para auxílio-creche ou babá, válido até a criança completar sete anos. O texto permite explicitamente a contratação de familiares da funcionária para exercer a função de babá.

Liberação para conselhos e fundos

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Empregados eleitos para conselhos da empresa ou dos fundos de pensão, como Postalis e Postal Saúde, têm direito a cinco dias de folga antes de cada reunião, destinados ao estudo da pauta.

Programa de Demissão Voluntária como estratégia de ajuste

Além da tentativa de rever o acordo coletivo, os Correios apostam em um Programa de Demissão Voluntária como parte central da estratégia de equilíbrio financeiro.

Metas de desligamento até 2027

A meta anunciada pela empresa é desligar cerca de 10 mil funcionários em 2026 e outros 5 mil em 2027. A expectativa é reduzir gradualmente os custos com pessoal sem recorrer a demissões compulsórias.

Impacto sobre a operação

Especialistas alertam que a redução do quadro funcional precisa ser acompanhada de reorganização interna para evitar prejuízos à qualidade do serviço, especialmente em regiões mais afastadas e dependentes da atuação dos Correios.

Ameaça de greve e tensão entre gestão e trabalhadores

Mesmo diante da possibilidade de adesão a programas de demissão incentivada, os funcionários dos Correios já sinalizam que podem recorrer à greve caso os benefícios sejam cortados ou reduzidos.

Mobilização sindical

As entidades sindicais afirmam que estão mobilizadas para defender os direitos previstos no acordo coletivo. Para os trabalhadores, a crise financeira não pode ser resolvida apenas com cortes internos, sem uma estratégia mais ampla de fortalecimento da estatal.

Risco de paralisação dos serviços

Uma eventual greve teria impacto direto sobre serviços essenciais, como entrega de correspondências, encomendas e atendimento em agências, afetando cidadãos, empresas e o comércio eletrônico.

Debate sobre sustentabilidade e futuro da estatal

O embate nos Correios reflete um debate maior sobre a sustentabilidade das empresas estatais em um cenário de restrição fiscal. De um lado, está a necessidade de equilíbrio financeiro e eficiência. De outro, a preservação de direitos trabalhistas e da função social da empresa.

Analistas apontam que o desfecho da disputa no TST pode servir de referência para outras estatais que enfrentam desafios semelhantes. O resultado também deve influenciar o modelo de negociação coletiva no setor público nos próximos anos.

Enquanto isso, os Correios seguem no centro de uma discussão que envolve contas públicas, direitos dos trabalhadores e a continuidade de um serviço considerado estratégico para o país.

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Imagem: SERGIO V S RANGEL/ Shutterstock

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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