A deflação registrada pelo IPCA-15 em agosto trouxe um alívio importante para o cenário inflacionário, mas o resultado não significa, necessariamente, que os preços continuarão caindo nos próximos meses. A prévia da inflação oficial recuou 0,40%, influenciada principalmente por fatores pontuais, como o desconto temporário do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica.
Com o resultado divulgado pelo IBGE, o IPCA-15 acumulou alta de 3,09% no ano e de 4,24% em 12 meses. O indicador voltou, portanto, a ficar abaixo do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta de inflação, que é de 3% com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O desafio é saber se esse comportamento favorável será sustentável. A reversão de descontos na energia, a evolução do câmbio, a força do mercado de trabalho e os possíveis efeitos do El Niño sobre a produção agrícola estão entre os fatores que podem pressionar novamente a inflação.
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Bônus de Itaipu foi decisivo para a deflação de agosto
O principal impacto negativo do IPCA-15 veio do grupo Habitação, que caiu 1,41% no mês. A energia elétrica residencial teve redução de 6,25%, resultado diretamente influenciado pelo desconto do Bônus de Itaipu nas faturas dos consumidores.
O benefício ajudou a reduzir a conta de luz de milhões de brasileiros durante agosto, mas possui caráter temporário. Por isso, a comparação dos próximos meses pode mostrar uma reaceleração da inflação quando esse efeito deixar de atuar sobre o índice. O Bônus de Itaipu foi apontado pelo governo e pelo IBGE como o principal fator negativo do IPCA-15 no mês.
Além da energia, os preços dos alimentos e bebidas caíram 0,57%. Transportes também recuaram 1%, com influência de itens como passagens aéreas e combustíveis. Essa combinação explica por que a deflação foi mais forte do que a esperada por parte do mercado.
Na prática, a queda do índice em agosto deve ser analisada com cautela. Uma conta de luz temporariamente menor reduz a inflação naquele período, mas não representa, por si só, uma mudança permanente na dinâmica dos preços.
El Niño pode aumentar pressão sobre os alimentos
Outro ponto de atenção é o clima. O El Niño já está configurado e órgãos oficiais brasileiros acompanham seus possíveis efeitos sobre diferentes regiões e atividades econômicas.
O Cemaden informou que os modelos apontam probabilidade de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027, com possibilidade de um evento muito forte. Para o período entre agosto e outubro, a previsão indica, de forma geral, chuvas acima da média em áreas do Sul e volumes abaixo da média no centro-norte do país.
Essas alterações podem afetar lavouras de maneiras diferentes. Excesso de chuva pode prejudicar a colheita e aumentar a ocorrência de doenças nas plantações, enquanto seca e temperaturas elevadas podem reduzir a produtividade em outras regiões.
Se problemas climáticos diminuírem a oferta de produtos agrícolas, a consequência pode chegar ao consumidor. Um exemplo é a elevação dos preços de hortaliças, grãos, café e outros alimentos quando perdas de safra ou dificuldades logísticas reduzem a disponibilidade no mercado.
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Isso não significa que o El Niño provocará automaticamente uma disparada da inflação. O impacto dependerá da intensidade e duração do fenômeno, das regiões atingidas, da resposta das safras e também das condições internacionais das commodities. Ainda assim, o risco climático passou a fazer parte das projeções para os preços de alimentos.
Mercado ainda projeta inflação acima do teto da meta

Apesar da melhora recente, as expectativas para o IPCA cheio de 2026 continuam acima do limite superior da meta. A mediana das projeções do mercado financeiro no Boletim Focus divulgado em 24 de agosto indicava inflação de 5,02% para o ano.
Se essa previsão se confirmar, o IPCA terminará 2026 acima do teto de 4,5% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional.
Essa diferença entre o IPCA-15 acumulado em 12 meses, atualmente em 4,24%, e a projeção de 5,02% para o fechamento do ano mostra por que uma única leitura favorável não é suficiente para encerrar as preocupações com a inflação.
Os próximos dados precisarão confirmar se o processo de desinflação continuará mesmo sem os efeitos pontuais do desconto na energia elétrica.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital



