Em mais um capítulo de tensão entre o Executivo e o Legislativo, o Congresso Nacional derrubou os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a trechos da Lei das Eólicas Offshore, provocando reação imediata no setor elétrico. A decisão, tomada na última semana, pode resultar em um aumento médio de 3,5% na conta de luz dos brasileiros, além de reforçar a dependência de fontes poluentes como as termelétricas movidas a óleo diesel.
Conta de luz mais cara: entenda os tributos que pesam no seu bolso
Congresso derruba vetos na Lei das Eólicas Offshore, medida pode elevar conta de luz em 3,5% e aumentar uso de termelétricas no país.
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Conta de luz ficará 3,5% mais cara com decisão do Congresso; impacto é de R$ 197 bi

Entenda a decisão do Congresso Nacional
O que foi votado
A votação no Congresso teve como foco os vetos presidenciais a dispositivos que previam subsídios e a contratação compulsória de usinas termelétricas dentro da regulamentação do mercado de energia offshore. O presidente Lula havia vetado pontos considerados prejudiciais ao equilíbrio ambiental e econômico do setor.
Principais pontos derrubados
- Incentivos à contratação obrigatória de termelétricas, muitas delas movidas a óleo diesel
- Subsídios cruzados para viabilizar a instalação dessas usinas em locais de pouca infraestrutura energética
- Exigência de reserva de capacidade térmica, independentemente da demanda real
Reações do governo e de entidades do setor
A Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) classificou a decisão como um “retrocesso”. Já o Ministério de Minas e Energia (MME) manifestou preocupação com o aumento da tarifa e com o impacto ambiental. Segundo a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres (Abrace), o impacto financeiro acumulado pode chegar a R$ 197 bilhões nos próximos 25 anos.
Por que a conta de luz deve ficar mais cara?
Composição da tarifa de energia
De acordo com o MME, o valor pago pelo consumidor é composto por:
- Custo de geração
- Custo de transmissão
- Custo de distribuição
- Encargos setoriais
- Tributos federais, estaduais e municipais
O peso dos encargos setoriais
As alterações trazidas pela derrubada dos vetos impactam principalmente a parte de encargos setoriais, responsável por financiar subsídios e programas específicos do setor elétrico.
Exemplo de composição da tarifa (Neoenergia Brasília)
- Impostos e encargos: 47,08%
- Energia e transmissão: 40%
- Distribuição: 12,92%
Estimativa de reajuste
Com os novos subsídios e obrigações contratuais para as termelétricas, o setor estima um aumento médio de 3,5% nas contas de luz já nos próximos anos, com efeito acumulado nos reajustes anuais.
Impacto ambiental: mais uso de termelétricas a diesel
Aumento nas emissões de gases de efeito estufa
Outro efeito negativo da medida é o aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE), devido à maior utilização de usinas termelétricas movidas a combustíveis fósseis como o óleo diesel.
Contradição com metas ambientais
A decisão ocorre em um momento delicado para a política ambiental brasileira. Em novembro de 2025, o Brasil sediará a COP30 em Belém (PA), conferência internacional da ONU sobre mudanças climáticas. A ampliação do uso de termelétricas é vista por ambientalistas como um movimento contrário aos compromissos assumidos internacionalmente.
Custo ambiental e de saúde pública
Além da elevação das emissões de CO₂, a maior queima de diesel tende a aumentar a poluição do ar, com possíveis impactos na saúde pública, especialmente nas regiões próximas às usinas.
Sistema de bandeiras tarifárias: como a decisão pode afetar o consumidor
Situação atual das bandeiras tarifárias
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinou que o mês de junho de 2025 está sob a bandeira vermelha patamar 1, com cobrança adicional de R$ 4,46 a cada 100 kWh consumidos.
Critérios para definição das bandeiras
O sistema de bandeiras tarifárias considera:
- Condições hídricas
- Custo de geração
- Necessidade de acionamento de fontes emergenciais, como termelétricas
Possível agravamento com as novas medidas
Com a obrigatoriedade de contratação de termelétricas, o acionamento dessas usinas tende a ser mais frequente, o que pode resultar em bandeiras tarifárias mais caras, como a vermelha patamar 2 ou até a criação de novos patamares de cobrança extra.
Como funciona a estrutura da conta de luz no Brasil

Componentes da conta de luz
A estrutura tarifária inclui:
Geração de energia
Responsável pelo custo de produção de energia nas usinas, seja hidrelétrica, solar, eólica ou térmica.
Transmissão
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Cobre os custos de transporte da energia das usinas até as distribuidoras.
Distribuição
Refere-se ao serviço das distribuidoras locais para entregar energia aos consumidores finais.
Encargos setoriais
Incluem subsídios definidos por leis e regulamentos, como os recentemente ampliados com a derrubada dos vetos.
Tributos
Impostos federais (PIS/Cofins), estaduais (ICMS) e municipais (CIP – iluminação pública).
Exemplo prático: distribuição dos custos em Brasília
- 47,08%: impostos e encargos
- 40%: geração e transmissão
- 12,92%: distribuição
O que dizem os defensores da derrubada dos vetos
Argumento de segurança energética
Deputados e senadores que votaram pela derrubada dos vetos afirmam que a medida garante a segurança energética em regiões com baixa oferta de energia, como o Norte e o Nordeste.
Interiorização da geração elétrica
Outro argumento usado é a necessidade de interiorizar a produção de energia, reduzindo a dependência de grandes centros geradores e fortalecendo o abastecimento em áreas remotas.
Incentivo à indústria nacional
O setor de equipamentos e serviços ligados a termelétricas também vê a medida como um estímulo à geração de empregos e à produção nacional.
Próximos passos: judicialização no STF

A Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) já estuda ingressar com uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF), alegando que a medida pode ferir princípios constitucionais relacionados ao direito do consumidor e à proteção ambiental.
Posição da Abrace
A Abrace, que representa grandes consumidores de energia, também considera recorrer judicialmente, sob o argumento de que os custos da decisão serão repassados de forma desigual, afetando especialmente os consumidores residenciais e as pequenas empresas.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
