A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou uma mudança significativa na regulação dos serviços de internet no Brasil. A partir de agora, pequenos provedores de internet que não possuem outorga poderão ter seus serviços suspensos.
Conexões suspeitas: Anatel vai desligar provedores ligados ao crime
Descubra como a Anatel vai cortar internet de provedores do crime. Veja se sua conexão está em risco.
A medida visa combater o avanço de facções criminosas que, segundo levantamento oficial, controlam até 80% dos provedores que atuam em comunidades no Rio de Janeiro.
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Fim da dispensa de outorga: uma virada na regulação

Nova regra fecha brecha usada por grupos criminosos
A dispensa de autorização para pequenos provedores com até 5 mil acessos deixará de valer. Até então, esses provedores podiam operar sem a outorga formal da Anatel, o que facilitava o surgimento de empresas clandestinas controladas por facções criminosas.
A partir de agora, todos os provedores — independentemente do porte — deverão solicitar a outorga junto à agência até 25 de outubro de 2025. Após esse prazo, quem não estiver regularizado terá o serviço suspenso e o cadastro extinto.
“Essa é uma medida para devolver o controle da infraestrutura de telecomunicações ao Estado e à sociedade, retirando das mãos do crime organizado”, afirmou um representante da Anatel.
Infiltração do crime no setor de internet
Dados mostram o alcance das facções no Rio de Janeiro
Segundo informações da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, cerca de 80% dos provedores que atuam em comunidades fluminenses estão ligados ao crime organizado. O domínio inclui tanto o tráfico quanto as milícias.
Essas organizações utilizam empresas de fachada para explorar o serviço de internet como fonte de lucro e controle territorial. O estudo, baseado em denúncias do Disque-Denúncia e cruzamentos com cadastros da Anatel, revelou que a maior parte das 813 favelas da capital fluminense já está sob esse monopólio.
Mercado informal e os números preocupantes
Provedores sem outorga dominam comunidades com baixo IDH
No Estado do Rio de Janeiro, há 1.734 empresas prestadoras de internet, sendo 822 com outorga e 912 com dispensa. Na capital, esse número chega a 638 — divididas em 305 autorizadas e 333 dispensadas.
Apesar de serem pequenos, esses provedores têm impacto relevante: foram responsáveis por 53,7% dos acessos à banda larga em 2023, principalmente em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e Produto Interno Bruto (PIB).
No entanto, mais de 40% dessas empresas — com ou sem outorga — não enviaram os dados de acesso em 2024, o que compromete a transparência e competitividade do setor.
Como o crime explora o serviço de internet
Conexão como instrumento de poder e lucro
O serviço de internet virou uma das principais fontes de receita e controle das facções. O modelo é semelhante ao do “gatonet”, mas com um nível maior de organização e infraestrutura.
As organizações criminosas controlam os provedores em áreas onde há pouca ou nenhuma presença de grandes operadoras. Com isso, impõem tarifas, determinam qual conteúdo pode ser acessado e até utilizam a infraestrutura para facilitar atividades ilícitas, como extorsões e vigilância de moradores.
“Quem se recusa a contratar o serviço imposto pela milícia ou pelo tráfico acaba sofrendo represálias”, relatou um morador da Zona Oeste do Rio, sob anonimato.
Consequências para os consumidores
Risco de desconexão e necessidade de regularização
Com a nova regra da Anatel, milhares de consumidores podem ser impactados, principalmente em regiões periféricas onde só há oferta de provedores locais. Caso esses provedores não regularizem sua situação até outubro, o serviço poderá ser interrompido.
A agência orienta que os usuários busquem saber se o provedor do qual contratam serviço possui outorga ativa. Caso não possua, é recomendável que pressionem a empresa a se regularizar ou considerem a migração para operadoras regulares.
Desafio da inclusão digital em áreas dominadas pelo crime
Quando o único acesso possível à internet está comprometido
Apesar do problema da criminalidade, é inegável que os pequenos provedores cumprem um papel fundamental na inclusão digital em áreas negligenciadas pelas grandes operadoras.
Em muitos bairros de baixa renda, são essas empresas que oferecem acesso à educação online, telemedicina e serviços públicos digitais. A medida da Anatel, embora necessária, levanta um desafio: como garantir que os moradores dessas regiões não fiquem totalmente desconectados?
“A regulação precisa vir acompanhada de políticas públicas que incentivem operadoras legítimas a entrarem nessas áreas”, afirma um especialista em telecomunicações.
Próximos passos da Anatel
Monitoramento, denúncias e fiscalização
A Anatel afirmou que irá trabalhar em conjunto com órgãos de segurança pública para monitorar provedores suspeitos e intensificar a fiscalização nas áreas dominadas por facções.
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A partir do mapeamento fornecido pela Subsecretaria de Inteligência, a agência poderá cruzar dados de localização, titularidade e registros de acesso para identificar provedores que operam sob controle criminoso.
Além disso, será possível receber denúncias de usuários e autoridades locais para acelerar o processo de descredenciamento e desativação dessas empresas.
O que muda para os provedores de pequeno porte
Regularização é o único caminho
Empresas com até 5 mil clientes que antes estavam dispensadas da outorga terão que solicitar a autorização formal junto à Anatel até o prazo limite de 25 de outubro de 2025. Para isso, é necessário apresentar:
- Documentação da empresa (CNPJ, contrato social etc.);
- Infraestrutura técnica mínima;
- Plano de atendimento ao cliente;
- Informações de segurança e privacidade de dados.
Aquelas que não atenderem aos critérios ou não solicitarem a autorização terão o cadastro automaticamente cancelado e não poderão mais operar legalmente.
Como denunciar provedores ilegais

Canais oficiais para consumidores e autoridades
A população pode colaborar com a identificação de provedores ilegais através dos seguintes canais:
- Disque-Denúncia: 2253-1177 (RJ);
- Ouvidoria da Anatel: www.gov.br/anatel;
- Aplicativo Anatel Consumidor: disponível para Android e iOS.
Esses canais permitem o envio de denúncias anônimas sobre empresas suspeitas de ligação com o crime, extorsão, má qualidade do serviço ou operação sem outorga.
Conclusão
A decisão da Anatel de exigir outorga para todos os provedores de internet é uma medida robusta contra a infiltração do crime organizado nas telecomunicações.
Embora afete provedores de pequeno porte — essenciais para o acesso em regiões carentes — a medida é necessária para garantir segurança, transparência e qualidade no serviço.
Agora, o desafio está em equilibrar fiscalização com políticas públicas de inclusão digital para que a população mais vulnerável não fique desconectada.
Imagem: Reprodução / Anatel
