O Brasil registrou uma redução significativa nas taxas de desmatamento em 2024, conforme aponta levantamento divulgado nesta quinta-feira (15) pela plataforma MapBiomas Alerta. A iniciativa, responsável por identificar e qualificar pontos de supressão da vegetação nativa no país, revelou que todos os biomas apresentaram queda na devastação — um dado inédito nos últimos seis anos.
Desmatamento no Brasil: agronegócio é responsável por mais de 97%, diz pesquisa
Brasil registra queda no desmatamento em todos os biomas em 2024, segundo o MapBiomas. Entenda os dados e impactos.
Apesar do progresso, a região do Matopiba, composta pelo Tocantins e partes do Maranhão, Piauí e Bahia, continua sendo o principal polo de desmatamento, com destaque para a expansão das atividades agropecuárias e do cultivo de soja.
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Atividades agropecuárias respondem por 97% do desmatamento

Segundo os dados consolidados entre 2019 e 2024, mais de 97% do desmatamento no Brasil teve origem em atividades agropecuárias. A conversão da vegetação nativa em pastagem e lavouras segue sendo o principal vetor de destruição dos biomas nacionais, com forte presença no Cerrado e na Amazônia.
Durante o período, o país perdeu uma área de cobertura vegetal equivalente à Coreia do Sul — mais de 9 milhões de hectares, dos quais dois terços estão localizados na Amazônia Legal.
Matopiba: epicentro do desmatamento no Cerrado
O avanço da fronteira agrícola no Matopiba concentrou 75% do desmatamento no bioma Cerrado e 42% da perda total de vegetação nativa em todo o território nacional em 2024. Ainda que esses números representem uma queda de 40% em relação a 2023, a região segue liderando o ranking de devastação ambiental.
A expansão da soja no Maranhão
O Maranhão aparece pelo segundo ano consecutivo como o estado mais desmatado do Brasil, com 36% de toda a área afetada ocupada por atividades agropecuárias. O cultivo de soja é a principal atividade econômica responsável pela supressão vegetal.
- Em 2003: 268 mil hectares ocupados por soja
- Em 2023: mais de 1 milhão de hectares
A pesquisadora Roberta Rocha, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), destaca que o Cerrado, sobretudo no Matopiba, concentra hoje mais desmatamento do que toda a Amazônia.
A migração do desmatamento da Amazônia para o Cerrado

Entre os fatores apontados para a redução do desmatamento na Amazônia está o reforço na fiscalização ambiental, sobretudo nas áreas protegidas e de fronteira. Como consequência, o padrão de devastação se deslocou do Norte para o Centro-Oeste e Nordeste do país.
Segundo Marcos Rosa, geógrafo da USP e coordenador técnico do MapBiomas, a mudança de foco se deu principalmente por fatores econômicos e regulatórios:
“O Matopiba pega essa região mais do Cerrado e Caatinga, onde há maior permissão legal para desmatamento e menor fiscalização”.
Código Florestal favorece desmate no Cerrado
O Código Florestal brasileiro exige que propriedades rurais mantenham uma reserva legal de 80% na Amazônia. No Cerrado, essa exigência cai para apenas 20%, o que incentiva a conversão de terras para fins produtivos, sobretudo na pecuária e monocultura de grãos.
Essa diferença de exigência legal torna o Cerrado mais vulnerável à exploração desordenada, mesmo sendo considerado um bioma essencial para a manutenção do regime de chuvas e da biodiversidade.
O perfil dos imóveis desmatadores
Outro dado relevante do relatório MapBiomas Alerta indica que 99% dos imóveis rurais registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) não promoveram desmatamento em 2024. Apenas 0,9% das propriedades foram responsáveis pela supressão de vegetação no período.
Isso reforça a avaliação de que é possível produzir no campo sem desmatar, desde que sejam adotadas práticas sustentáveis e tecnologia de manejo adequado.
Segundo Marcos Rosa:
“Temos um setor agropecuário mais moderno que já percebeu os impactos negativos do desmatamento sobre o solo, o clima e a produtividade”.
Perspectivas para zerar o desmatamento até 2030
O Brasil assumiu o compromisso internacional de zerar o desmatamento até 2030, como parte do Acordo de Paris. Especialistas apontam que o objetivo é viável, mas depende da adoção de políticas consistentes de preservação, aliadas à responsabilização de desmatadores ilegais.
Marcos Rosa ressalta, no entanto, a existência de um impasse político:
“Ainda há uma parcela de representantes do agronegócio que pedem anistia para quem desmatou e tentam reduzir as leis de proteção”.
O avanço da devastação no bioma Caatinga
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Em 2024, pela primeira vez, a Caatinga apareceu com o maior alerta individual de desmatamento registrado pelo MapBiomas. Em três meses, um único imóvel rural no Piauí devastou mais de 13 mil hectares de vegetação nativa — o equivalente a 13 mil campos de futebol.
Segundo o pesquisador Diego Costa, do MapBiomas Caatinga, trata-se de um desmatamento autorizado para fins agropecuários. A magnitude do impacto, porém, chama atenção:
“Na Caatinga, os desmatamentos costumam ser pequenos. O tamanho médio de alerta é de 9,8 hectares. Este foi o maior da série histórica”.
Estados que mais desmataram em 2024
A classificação dos estados com maior índice de desmatamento em 2024, segundo o MapBiomas, é a seguinte:
- Maranhão
- Pará
- Tocantins
- Piauí
- Bahia
No Pará, além da agropecuária, o garimpo ilegal se consolidou como vetor importante de destruição ambiental. O município de Itaituba concentra a maior área de garimpo registrada no país.
Uso do território no Matopiba
Atualmente, cerca de 35% da área total do Matopiba é ocupada por atividades agropecuárias:
- 15 milhões de hectares de pastagens
- 5 milhões de hectares destinados à soja
Essa ocupação intensiva reforça o papel da região como motor da produção agrícola nacional, mas também impõe enormes desafios para a conservação ambiental.
Considerações finais
Os dados de 2024 trazem um alento inédito após seis anos de devastação contínua: pela primeira vez, todos os biomas brasileiros registraram redução nas áreas desmatadas.
Entretanto, o relatório também evidencia que a pressão da agropecuária sobre o Cerrado e a Caatinga permanece intensa, com destaque para o avanço da fronteira agrícola no Matopiba.
Zerar o desmatamento até 2030 exigirá comprometimento político, fiscalização efetiva, e valorização de práticas agrícolas sustentáveis. O desafio continua grande, mas os dados mostram que produzir sem desmatar é uma realidade possível, já adotada por grande parte do setor produtivo moderno.
