Os consumidores brasileiros têm enfrentado, desde setembro de 2024, uma constante elevação no preço da carne bovina. A alta acumulada em 12 meses chega a 21%, superando com folga o índice geral da inflação no mesmo período.
Aumento nas exportações faz preço da carne subir nos supermercados do Brasil
Exportações recordes de carne bovina fazem preço disparar no Brasil. Consumidores sentem no bolso e mudam hábitos alimentares em 2025.
Por trás desse encarecimento está o aumento das exportações, que bateu recordes históricos no primeiro trimestre de 2025.
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Exportações em ritmo acelerado

Segundo dados do setor, o Brasil exportou US$ 2,9 bilhões em carne bovina apenas nos três primeiros meses do ano. Trata-se do maior valor já registrado para o período. A explicação está na combinação de dois fatores: a redução da produção em outros países fornecedores e a competitividade da carne brasileira no cenário internacional.
Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, destaca que o Brasil tem se posicionado como principal fornecedor de carne bovina para o mundo. “Em termos de escala, o mundo pergunta: quem tem carne para me atender? Praticamente só o Brasil tem levantado a mão”, afirma.
Mercado interno ainda é o principal destino
Apesar do boom nas exportações, o mercado doméstico continua sendo o maior consumidor da carne produzida no país. De acordo com Serigati, entre 70% e 80% da carne bovina brasileira é consumida internamente. O restante, cerca de 20% a 30%, é exportado.
“Mesmo com o crescimento das vendas externas, é o consumidor brasileiro quem responde pela maior parte da demanda. E isso faz com que o impacto dos preços elevados seja ainda mais sentido nas prateleiras dos supermercados”, ressalta o pesquisador.
Orçamento doméstico sob pressão
Inflação dos alimentos pesa mais para famílias de baixa renda
O aumento nos preços da carne acontece num momento em que o poder de compra dos brasileiros está comprometido. A inflação acumulada dos alimentos, aliada a outros custos essenciais como energia e transporte, vem corroendo a renda de milhões de famílias.
“Para algumas faixas da sociedade, de fato, a carne agora passa a pesar mais no orçamento doméstico”, afirma Serigati. Com isso, muitos consumidores têm reduzido o consumo de carne vermelha e buscado alternativas mais baratas, como frango, ovos e peixe.
Mudança no cardápio
Bonfim Pereira França, aposentado e morador do Rio de Janeiro, conta que precisou adaptar a alimentação. “A carne vermelha subiu muito. Agora eu compro mais frango, peixe. Coxa e sobrecoxa é o que cabe no meu bolso”, diz ele.
O fenômeno é generalizado. Dados de supermercados e atacadistas mostram que, embora o preço da carne continue subindo, o volume de vendas tem diminuído, especialmente nas grandes cidades.
Produção enfrenta desafios de longo prazo
Pecuária depende de ciclos longos para equilibrar oferta
Diferente de produtos agrícolas com ciclos curtos, como hortaliças e grãos, a carne bovina exige planejamento e tempo. A criação de gado leva anos e, portanto, o ajuste entre oferta e demanda não acontece de forma imediata.
Na fazenda de Eduardo Ferreira, em Mato Grosso do Sul, a estratégia tem sido investir em tecnologia para aumentar a produtividade sem precisar ampliar as áreas de pastagem. “O foco é aumentar a produção por hectare, integrando lavoura e pecuária, sem desmatamento. Só assim conseguiremos ampliar a oferta e ajudar na queda dos preços no médio e longo prazo”, afirma o produtor.
Tecnologia e sustentabilidade como saída
A integração lavoura-pecuária é uma das apostas do setor para garantir sustentabilidade e eficiência. Essa técnica permite o uso rotativo da terra entre plantações e pastagem, promovendo melhor aproveitamento do solo, redução de custos e maior produtividade.
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Além disso, há um esforço para reduzir custos com insumos e transporte, dois fatores que também impactam diretamente no preço final da carne ao consumidor. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) ressalta que os cortes exportados são, em geral, os de menor demanda interna, o que ajudaria a equilibrar a oferta nacional.
O que esperar para os próximos meses

Tendência de estabilidade depende de clima, custos e política internacional
Apesar da forte valorização em 2024, especialistas avaliam que o ritmo de alta nos preços da carne deve desacelerar a partir do segundo semestre de 2025. A estabilização, no entanto, dependerá de uma série de fatores: o desempenho da safra de grãos (que impacta no custo da ração), os custos com combustíveis, e os desdobramentos das relações comerciais com os principais compradores, como China e Estados Unidos.
Outro ponto de atenção é o comportamento da economia brasileira. Com o mercado de trabalho ainda instável e a inflação pressionando o consumo, o setor pode enfrentar uma retração na demanda interna, o que forçaria uma acomodação nos preços.
Alternativas no prato do brasileiro
Enquanto isso, o consumidor continua fazendo ajustes no cardápio. Além do frango e do peixe, cresce o consumo de ovos e proteínas vegetais. A indústria de alimentos também tem investido em produtos alternativos, como hambúrgueres à base de plantas, que, embora ainda tenham preços elevados, vêm conquistando espaço no mercado.
Conclusão
A alta nos preços da carne bovina no Brasil está diretamente ligada ao aumento das exportações, que bateram recordes em 2025. Embora o país exporte apenas o excedente, a forte demanda internacional e a redução da produção global elevaram os valores pagos pelos consumidores brasileiros. Com o orçamento das famílias mais apertado, muitos têm buscado alternativas à carne vermelha.
No campo, a resposta dos produtores tem sido apostar em tecnologia e integração produtiva para elevar a oferta sem aumentar o uso da terra. A expectativa é de que, com o tempo, esses esforços ajudem a equilibrar o mercado e a reduzir os preços. Até lá, o prato do brasileiro deve continuar mais variado — e com menos carne vermelha.
Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

