A versão final do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) foi oficialmente publicada na última semana, quase um ano após o esboço inicial apresentado durante a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Estratégia do Brasil para inteligência artificial falha ao ignorar conceito básico
O PBIA reforça a criação de LLMs em português, destaca a importância da curadoria de dados nacionais e abre debate sobre diversidade e responsabilidade na inteligência artificial.
Com avanços significativos em relação à proposta anterior, o documento traz detalhes estratégicos para o desenvolvimento de tecnologias de IA no país, incluindo um foco inédito na criação de Grandes Modelos de Língua (LLMs) específicos para o português brasileiro.
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O que diz o PBIA sobre LLMs e a língua portuguesa?

O terceiro dos quatro grandes objetivos do PBIA é claro ao estabelecer como meta o desenvolvimento de LLMs baseados em dados nacionais, com atenção especial à língua portuguesa.
LLMs: de “linguagem” para “língua”
O plano cita o termo “modelos de linguagem de grande escala”, uma tradução literal do inglês Large Language Models. No entanto, especialistas em linguística alertam: o termo mais correto seria “modelos de língua”, já que o foco é o desenvolvimento de IAs que compreendam e processem o português brasileiro.
A diferença entre linguagem e língua: por que isso importa?
A distinção entre linguagem e língua vai muito além de uma questão terminológica. A linguagem é uma capacidade cognitiva universal do ser humano, enquanto a língua é uma construção social e histórica, resultado das práticas culturais de uma comunidade.
Impacto na construção de LLMs
Ao entender que o desafio é criar um modelo para a língua portuguesa, fica claro que o processo de curadoria de dados deve levar em conta as especificidades culturais, históricas e sociais do Brasil. Ignorar essa distinção pode levar à importação de preconceitos e vieses de outras culturas.
Curadoria de dados: um desafio estratégico para a IA brasileira
O PBIA prevê o investimento em curadoria de bases de dados nacionais. Mas o plano ainda não detalha claramente como será feita essa curadoria nem quais critérios serão adotados.
O que é curadoria de dados em IA?
Curadoria de dados vai além da coleta de textos. Ela envolve:
- Seleção responsável de conteúdos
- Respeito aos direitos autorais
- Filtragem de informações ofensivas ou discriminatórias
- Anotação e categorização de dados com metadados relevantes
O risco da dependência de dados estrangeiros
Sem uma curadoria criteriosa, existe o risco de que modelos brasileiros sejam treinados com dados de outras línguas ou culturas, carregando preconceitos externos para a realidade brasileira.
Preconceitos nos LLMs: o alerta da comunidade científica
Pesquisas recentes apontam que LLMs multilíngues tendem a reproduzir não apenas os preconceitos presentes na sua língua de origem, mas também os vieses culturais de outras regiões.
O exemplo do SHADES
O SHADES, um dataset construído por um consórcio internacional de pesquisadores, avalia como os LLMs propagam preconceitos de raça, gênero, classe social, nacionalidade e idade em 16 línguas, incluindo o português brasileiro.
Limitações culturais em modelos multimodais
Outro estudo, o CVQA, testou a capacidade de LLMs multimodais de responder perguntas sobre imagens com forte carga cultural. Exemplos brasileiros incluíram:
- Perguntas sobre a forma tradicional de comer paçoca de rolha
- Crenças populares sobre deixar um chinelo virado no chão
Os resultados mostraram que muitos modelos não compreendem essas referências, evidenciando a importância de dados culturalmente ancorados.
A importância da participação de linguistas na construção de LLMs
Especialistas alertam que o sucesso de um LLM em português depende diretamente da participação de profissionais capacitados em linguística.
Por que incluir linguistas?
Os linguistas possuem o conhecimento necessário para:
- Mapear variações regionais do português brasileiro
- Analisar ambiguidades linguísticas
- Garantir representatividade de diferentes registros de linguagem
- Reduzir vieses de gênero, raça e classe nos dados
Como o PBIA trata a dependência externa?
O PBIA reconhece a necessidade de reduzir a dependência externa em relação ao desenvolvimento de LLMs. No entanto, ainda faltam detalhes sobre quais políticas serão adotadas para alcançar essa soberania tecnológica.
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Transferência de aprendizado: solução ou armadilha?
Uma solução comum no mercado de IA é utilizar transfer learning, técnica que transfere conhecimentos de um modelo treinado em uma língua para outra. Especialistas, porém, alertam que isso pode reforçar vieses estrangeiros, prejudicando a adequação cultural dos modelos.
Responsabilidade, diversidade e transparência: os próximos desafios

O PBIA está no caminho certo ao incluir a criação de LLMs em português como um dos pilares para a soberania digital do Brasil. Contudo, há desafios críticos que precisam ser enfrentados.
Definição de critérios claros de curadoria
O governo precisará estabelecer:
- Parâmetros de qualidade para os dados
- Procedimentos para validação ética
- Mecanismos para consulta pública e participação social
Financiamento e infraestrutura
A construção de LLMs de qualidade exige:
- Investimento em infraestrutura computacional
- Apoio a projetos de pesquisa em linguística computacional
- Parcerias com universidades e centros de pesquisa
Políticas de governança e auditoria
Para garantir uma IA ética e representativa, será necessário criar órgãos de controle que monitorem:
- Transparência dos datasets
- Métodos de treinamento
- Resultados e impactos sociais dos modelos
Considerações finais
A publicação da versão final do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial marca um avanço importante na estratégia tecnológica nacional. O destaque dado aos LLMs em português brasileiro é um passo essencial para garantir a soberania digital do país.
No entanto, o sucesso dessa iniciativa depende de escolhas conscientes e inclusivas, que envolvam especialistas em linguística, tecnologia e direitos digitais.
A responsabilidade agora está nas mãos do governo e das instituições de pesquisa: transformar as boas intenções do plano em ações concretas que respeitem a diversidade cultural e linguística do Brasil.
