Diálogos apreendidos pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero indicam que ex-dirigentes do Banco de Brasília (BRB) aceleraram operações financeiras com o Banco Master depois de identificarem o risco de liquidação da instituição. As conversas ocorreram entre julho e novembro de 2025 e envolvem o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, o diretor de Finanças e Controladoria Dario Osvaldo Garcia Junior e o advogado Fabiano Barbosa.
Em uma das mensagens, Costa orienta Dario a assinar “tudo que pudermos” para concluir as operações. Segundo a PF, o diretor respondeu “Vixi Maria” e, na sequência, recebeu nova determinação: “Deixe tudo assinado”. O conteúdo dos diálogos foi divulgado inicialmente pela TV Globo e confirmado pelo Correio Braziliense.
O caso ganhou novo capítulo nesta semana com uma decisão do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), que determinou cautelarmente a indisponibilidade de bens de ex-integrantes da alta administração do BRB. O tribunal também abriu uma Tomada de Contas Especial para apurar possíveis responsabilidades e eventuais danos ao patrimônio público.
Leia mais:
Foi votar em 2026? Comparecimento às urnas será usado na prova de vida do INSS
O que os diálogos da PF revelam sobre o BRB e o Master

As mensagens fazem parte do material apreendido durante medidas de busca e apreensão e quebra de sigilo determinadas no âmbito da investigação. De acordo com os investigadores, os dirigentes do BRB passaram a demonstrar urgência para concluir operações com o Master diante da percepção de que a instituição comandada por Daniel Vorcaro poderia entrar em liquidação.
A sequência das conversas é relevante porque o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. A autoridade monetária justificou a medida pela grave crise de liquidez, pelo comprometimento da situação econômico-financeira do conglomerado e por graves violações às normas que regulam as instituições do sistema financeiro.
Assim, os diálogos analisados pela PF ocorreram justamente nos meses que antecederam a intervenção do Banco Central. A investigação agora procura esclarecer se as decisões tomadas pelo BRB naquele período contribuíram para ampliar a exposição da instituição aos problemas do Master.
PF aponta falhas na tentativa de negociação
Segundo o relatório citado pelo Correio Braziliense, os investigadores identificaram problemas ao longo da tentativa do BRB de comprar o Master e das operações envolvendo carteiras de crédito.
A PF descreve o processo como marcado, segundo sua análise, por problemas de governança, documentação considerada irregular, ausência de liquidez e riscos regulatórios. O relatório também aponta que dirigentes teriam dado continuidade à compra de carteiras mesmo diante de atrasos, inconsistências documentais e questionamentos sobre os ativos envolvidos.
A apuração ainda não equivale a uma condenação dos envolvidos. As conclusões apresentadas pela Polícia Federal fazem parte de uma investigação e deverão ser submetidas às instâncias responsáveis pela análise das eventuais responsabilidades administrativas, civis ou criminais.
Banco Central já havia identificado inconsistências nas carteiras
A atuação do Banco Central ajuda a dimensionar o problema. Em nota publicada posteriormente, a autoridade monetária informou que sua área de Supervisão identificou inconsistências nas cessões de carteiras de crédito do Master para o BRB e apontou a existência de ativos considerados insubsistentes. O órgão afirmou também que comunicou os ilícitos ao Ministério Público Federal.
O Banco Central também informou que adotou uma medida prudencial preventiva em relação ao BRB para evitar novos impactos sobre sua liquidez. Posteriormente, a autarquia propôs a liquidação das instituições do Conglomerado Master.
A cronologia é central para entender o caso: as conversas agora reveladas ocorreram meses antes da liquidação, enquanto as operações entre BRB e Master já estavam sob escrutínio das autoridades.
TCDF determina bloqueio de bens de ex-dirigentes
Além da investigação criminal conduzida pela PF, o caso passou a ter uma frente de apuração no controle externo do Distrito Federal.
Em 23 de setembro, o TCDF determinou, em caráter cautelar, a indisponibilidade de bens de ex-integrantes da alta administração do BRB. A medida foi tomada com o objetivo de preservar eventual ressarcimento aos cofres públicos caso sejam comprovados danos relacionados às operações investigadas.
O bloqueio foi estabelecido pelo período de um ano. Os ex-dirigentes terão 30 dias para apresentar suas manifestações ao tribunal.
A decisão também converteu o processo em Tomada de Contas Especial (TCE). Esse procedimento é utilizado para apurar responsabilidades e quantificar eventual prejuízo causado ao patrimônio público.
O que o TCDF ainda vai analisar?
O tribunal determinou que o BRB encaminhe, em até 24 horas, um relatório de auditoria independente realizada na instituição. Também estabeleceu prazo de 15 dias para que o banco apresente esclarecimentos e documentos relacionados aos fatos apontados em representação do Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPC-DF).
O atual diretor-presidente do BRB também deverá apresentar justificativas, no prazo de 30 dias, sobre o descumprimento de uma determinação anterior relacionada ao envio de informações ao tribunal.
O TCDF ainda poderá avaliar a extensão das medidas a outros envolvidos caso novas diligências confirmem os indícios existentes no processo.
O que acontece agora com os ex-dirigentes?
As decisões não encerram as investigações. Na esfera do controle externo, os envolvidos terão oportunidade de apresentar documentos e justificativas, enquanto o TCDF continuará analisando os possíveis danos e responsabilidades.
Na esfera criminal, a PF segue apurando os fatos relacionados à Operação Compliance Zero. A investigação pode resultar em novas diligências e encaminhamentos às autoridades competentes.
Por isso, é necessário separar três situações diferentes: investigação, apuração de responsabilidade e condenação. A existência de diálogos ou de uma decisão cautelar de indisponibilidade de bens não significa, por si só, que todos os fatos imputados já estejam definitivamente comprovados.
BRB diz que trabalha para recuperar patrimônio
Em manifestação divulgada ao Correio, o BRB afirmou que considera positiva a decisão do TCDF e que a atual administração trabalha na defesa dos interesses da instituição e na recuperação de bens e direitos que entende serem devidos ao banco.
O banco também declarou que continuará adotando as medidas consideradas cabíveis e seguindo as determinações das autoridades responsáveis pela apuração.
As defesas dos citados foram procuradas pelo Correio Braziliense, mas não haviam respondido até o fechamento da reportagem utilizada como base para esta atualização.
Por que o caso é relevante para o BRB?
O episódio envolve uma instituição financeira controlada pelo Distrito Federal e, portanto, coloca em discussão não apenas decisões empresariais, mas também a proteção do patrimônio público.
A preocupação das autoridades está relacionada à possibilidade de que operações realizadas antes da liquidação do Master tenham produzido perdas ou aumentado a exposição financeira do BRB. A apuração deverá esclarecer a extensão de eventuais prejuízos e quem poderia ser responsabilizado por eles.
O caso também mostra como diferentes órgãos estão atuando sobre fatos relacionados: a PF conduz a investigação criminal; o Banco Central atua na supervisão e na regulação do sistema financeiro; e o TCDF examina possíveis responsabilidades e danos envolvendo recursos e patrimônio sob sua fiscalização.
O que já está confirmado e o que ainda está sob investigação?
Até 24 de setembro de 2026, alguns fatos já estão documentados oficialmente. O Banco Central confirmou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, enquanto o TCDF confirmou a decisão cautelar de indisponibilidade de bens de ex-dirigentes do BRB e a abertura da Tomada de Contas Especial.
Já as responsabilidades individuais e a dimensão de eventual prejuízo ainda dependem do avanço das investigações e dos processos correspondentes.
A PF sustenta, em seu relatório, que houve falhas relevantes na condução das operações. Os envolvidos, porém, ainda têm direito à manifestação e à defesa nos procedimentos em andamento.
Entenda a cronologia do caso

- Julho a novembro de 2025: ocorrem os diálogos entre integrantes do BRB relacionados às operações com o Master, segundo a PF.
- 18 de novembro de 2025: o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.
- 2026: as investigações da Operação Compliance Zero avançam e novos elementos sobre as operações entre as instituições são divulgados.
- 23 de setembro de 2026: o TCDF determina cautelarmente a indisponibilidade de bens de ex-dirigentes do BRB e converte o processo em Tomada de Contas Especial.
- 24 de setembro de 2026: novos detalhes dos diálogos são divulgados, incluindo mensagens que indicam pressa para concluir operações antes da liquidação do Master.
Conclusão
Os novos diálogos obtidos pela Polícia Federal ampliam a compreensão sobre a atuação de antigos dirigentes do BRB nos meses que antecederam a liquidação do Banco Master. As mensagens indicam uma tentativa de acelerar operações financeiras justamente quando, segundo a investigação, já havia percepção sobre os riscos enfrentados pela instituição.
Ao mesmo tempo, o bloqueio cautelar de bens determinado pelo TCDF abre uma frente específica para investigar possíveis danos ao patrimônio público. A Tomada de Contas Especial deverá ajudar a esclarecer responsabilidades e, caso seja identificado prejuízo, sua eventual dimensão.
O caso ainda está em andamento. As próximas etapas das investigações da PF, das análises do Banco Central e do processo no TCDF serão fundamentais para determinar quais fatos serão efetivamente comprovados e quais responsabilidades poderão ser atribuídas aos envolvidos.
