As aplicações de recursos de institutos estaduais de previdência no Banco Master passaram a integrar uma das frentes de investigação sobre as operações da instituição financeira. Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, revelaram conversas sobre captação de investimentos, participação de intermediários e possíveis articulações políticas envolvendo dirigentes do União Brasil.
Os diálogos mencionam Antônio Rueda, presidente nacional do partido, e ACM Neto, vice-presidente da legenda. A Polícia Federal solicitou autorização para realizar buscas em endereços ligados aos dois políticos, mas o Supremo Tribunal Federal não autorizou a operação.
O material investigado envolve negociações com institutos previdenciários do Amapá, do Amazonas e do Rio de Janeiro. As apurações procuram esclarecer como foram aprovadas aplicações de recursos públicos, quem participou das tratativas e se houve irregularidades nos procedimentos.
Uma proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro atribuiu aos dois dirigentes uma suposta atuação em benefício do banco mediante comissões de 10% sobre valores investidos por fundos estaduais. A proposta, contudo, foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Portanto, as alegações não devem ser tratadas como fatos comprovados.
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Amapá Previdência transferiu R$ 300 milhões ao banco
Um dos episódios mais detalhados nas conversas envolve a Amapá Previdência, responsável pela administração de recursos destinados ao pagamento de benefícios previdenciários dos servidores estaduais.
De acordo com as informações divulgadas, executivos do Banco Master discutiam, em abril de 2024, uma captação de R$ 400 milhões no estado. A negociação avançou nos meses seguintes e, em julho, mensagens passaram a mencionar preocupações com notícias sobre problemas envolvendo títulos da instituição financeira.
Em um dos diálogos, Alberto Felix, então tesoureiro do Master, relatou a Vorcaro que a repercussão poderia comprometer a operação. A conversa também atribuiu a Rueda a intenção de manter as negociações em andamento. Em outro momento, o dirigente teria pedido ao banqueiro que apagasse as mensagens.
Pouco depois, integrantes do banco comunicaram a aprovação de uma operação de R$ 200 milhões. A reportagem também descreve conversas sobre pagamentos de comissões relacionados à captação.
Os registros mencionam valores de R$ 8 milhões em uma nota de consultoria e um lançamento posterior de R$ 11 milhões identificado como comissão do Amapá. Naquele período, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao Banco Master.
A existência dessas mensagens e dos valores mencionados, por si só, não esclarece a natureza de todos os pagamentos nem comprova eventual participação dos políticos em irregularidades. Esses pontos dependem da análise documental e da apuração das autoridades.
Intermediários aparecem nas negociações financeiras
Os diálogos também citam pessoas que teriam aproximado representantes do banco dos responsáveis pelos investimentos previdenciários.
Entre os nomes mencionados está Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, apontado pela Polícia Federal como lobista de Vorcaro no caso do Rioprevidência. Segundo a reportagem, uma consultoria atribuída a ele trabalharia com comissões equivalentes a 10% em operações envolvendo o banco.
Outras mensagens citam um intermediário identificado como Raphael, que teria comentado a possibilidade de Rueda interferir no andamento de determinadas negociações.
A semelhança entre os percentuais mencionados nos diálogos e a suposta comissão descrita na proposta de delação não comprova que os dirigentes partidários tenham recebido esses valores. A investigação precisa estabelecer a origem, o destino e a finalidade de eventuais pagamentos.
Amazonas e Rio de Janeiro também aparecem nas apurações

No Amazonas, conversas de junho de 2024 mencionaram uma captação de R$ 50 milhões relacionada à Amazonprev, instituto responsável pela previdência dos servidores estaduais.
Em mensagens posteriores, um lobista teria relatado a Vorcaro a influência de um mesmo grupo em negociações envolvendo o Amazonas e Rondônia. Os diálogos também fazem referências a contatos políticos associados a Rueda.
No Rio de Janeiro, as investigações envolvem o Rioprevidência, que destinou aproximadamente R$ 2 bilhões ao Banco Master, segundo informações atribuídas à Polícia Federal.
O ex-presidente do instituto, Deivis Marcon Antunes, foi preso em fevereiro de 2026. As apurações procuram esclarecer as circunstâncias das aplicações e a participação de pessoas que poderiam ter influenciado as decisões administrativas.
Os três casos levantam questões sobre os critérios utilizados pelos institutos para selecionar investimentos, avaliar riscos e proteger o patrimônio destinado ao pagamento futuro de aposentadorias e pensões.
Mensagens citam jatos, hospedagens e contratos
Além das negociações financeiras, os registros atribuídos a Vorcaro mencionam benefícios oferecidos a Rueda. Em dezembro de 2023, o banqueiro teria disponibilizado aeronaves particulares ao dirigente. Em maio de 2024, um jatinho teria sido utilizado para transportar familiares do presidente do União Brasil a Miami, onde acompanhariam uma etapa da Fórmula 1.
Outras conversas fazem referência a hospedagem em um apartamento e no hotel Rosewood, em São Paulo.
Os documentos também mencionam contratos profissionais entre o Banco Master e empresas relacionadas aos dirigentes partidários. Segundo a reportagem, o escritório Rueda & Rueda Advogados foi contratado para atuar em quatro ações, em um acordo de R$ 15,4 milhões. Também são relatados repasses de R$ 6,4 milhões a escritórios ligados a Rueda e de R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto.
Em relação a ACM Neto, as mensagens citam encontros com Vorcaro e Rueda, além de contatos sobre assuntos políticos. A proposta de delação do ex-banqueiro também apresentou alegações sobre supostos pagamentos ao ex-prefeito de Salvador, inclusive em dinheiro vivo. Essas declarações não constituem, isoladamente, comprovação de recebimento ilícito.
O que dizem Antônio Rueda e ACM Neto
Antônio Rueda afirma que sua relação com o Banco Master foi profissional e que os serviços jurídicos contratados foram efetivamente prestados, com emissão de notas fiscais e recolhimento dos impostos correspondentes.
O dirigente também questionou a divulgação de conversas que considera descontextualizadas e afirmou que pretende adotar medidas para defender sua reputação.
ACM Neto negou ter atuado para favorecer aplicações de institutos previdenciários no Banco Master ou para influenciar decisões do governo federal relacionadas à instituição. Ele declarou que os valores recebidos decorreram de serviços de consultoria previstos em contrato iniciado em janeiro de 2023, com documentação fiscal regular.
O ex-prefeito também afirmou estar à disposição das autoridades desde março de 2026 para prestar esclarecimentos.
As manifestações dos dois dirigentes fazem parte do contexto necessário para avaliar as acusações. A comprovação de eventuais irregularidades exige evidências independentes, análise dos contratos e rastreamento dos recursos.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
