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Operadora suspeita da farra do INSS esteve em reunião no órgão sob Lula

Cecília Mota, acusada na "farra do INSS", participou de reunião na Diretoria de Benefícios em 2024 com servidores investigados.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Precatórios

A Polícia Federal aponta a advogada Cecília Rodrigues Mota como uma das principais operadoras do esquema de descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), conhecido como a “farra do INSS”. Novas informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que a advogada participou de uma reunião oficial na sede do INSS, em Brasília, no dia 5 de setembro de 2024, com presença de dirigentes da autarquia e de representantes de entidades investigadas pela Operação Sem Desconto.

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Foto: Reprodução

Reunião ocorreu na Diretoria de Benefícios do INSS

A reunião, realizada das 11h às 13h30, foi registrada como uma apresentação do Portal de Desconto de Mensalidade Associativa (PDMA), sistema vinculado diretamente à validação dos descontos em folha de aposentados e pensionistas, epicentro do esquema investigado pela PF.

Segundo o documento oficial, o encontro aconteceu de forma híbrida, com participação presencial e remota de:

  • Cecília Rodrigues Mota, na condição de representante da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen);
  • Vanderlei Barbosa dos Santos, então diretor de Benefícios do INSS, nomeado em julho de 2024;
  • Representantes da Dataprev e das associações Contag, Cobap, CBPA, Conafer e Abrapps, todas citadas na investigação da PF.

Relação de Cecília com o esquema

Segundo o relatório da Operação Sem Desconto, Cecília recebeu valores de associações investigadas e os repassou a pessoas ligadas a servidores do INSS, configurando um esquema estruturado de lavagem de dinheiro e corrupção institucionalizada.

O escritório Cecília Rodrigues Mota – Sociedade Individual de Advocacia e outras empresas ligadas à advogada movimentaram valores considerados incompatíveis com o faturamento de uma microempresa, o que levantou os primeiros indícios de irregularidades.

Volume de recursos investigado

A Polícia Federal afirma que pessoas físicas e jurídicas vinculadas à advogada receberam R$ 14.081.937,35 de associações e empresas intermediárias. Entre os repasses suspeitos, destacam-se:

  • R$ 630 mil da Rodrigues & Lima Advogados para a empresa Xavier Fonseca Consultoria, pertencente à irmã de Virgílio Antônio Filho, ex-procurador-geral do INSS;
  • R$ 520 mil para Eric Fidelis, filho de André Fidelis, ex-diretor de Benefícios do INSS;
  • R$ 1,7 milhão para a empresa Highway Comércio e Serviços de Informática, também ligada a Cecília;
  • R$ 2,8 milhões remetidos pela mesma empresa, com destino final na própria Cecília e em seu escritório.

Atuação simultânea em entidades associativas

A advogada aparece como presidente simultânea da AAPEN (Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional) e da AAPB (Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil) entre março de 2017 e fevereiro de 2020, o que, segundo os investigadores, demonstra concentração de poder associativo e possível conflito de interesses.

Ambas as instituições são apontadas pela PF como centrais no esquema de descontos indevidos, que desviavam recursos de aposentados e pensionistas sem consentimento ou com consentimento viciado.

Participação de servidores e afastamentos

A participação da advogada em reuniões estratégicas do INSS sob comando de Vanderlei Barbosa dos Santos, indicado pelo governo Lula ao cargo em julho de 2024, reforça os indícios de proximidade entre operadores do esquema e a alta gestão da autarquia.

Vanderlei foi afastado em abril de 2025, após a deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto, assim como o ex-procurador Virgílio Antônio Filho e outros nomes ligados ao setor de benefícios.

Sistema PDMA: foco da reunião e ponto crítico do esquema

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Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital

O Portal de Desconto de Mensalidade Associativa (PDMA), cuja apresentação foi a pauta oficial do encontro de setembro de 2024, tornou-se instrumento central na engenharia do esquema de descontos indevidos.

O que é o PDMA?

O PDMA foi criado para automatizar e validar os descontos autorizados por aposentados e pensionistas em favor de associações. No entanto, segundo a PF, o sistema foi manipulado por entidades com acesso privilegiado, permitindo o registro de mensalidades não autorizadas ou consentidas de forma fraudulenta.

Durante a reunião, diversos participantes levantaram questões sobre a integração do sistema com bancos de dados das entidades e a forma de validação das autorizações. A participação de Cecília nesse momento crítico é vista pelos investigadores como um marco simbólico da legitimação institucional do esquema.

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Viagens de luxo: padrão de vida incompatível

Outro ponto que chama a atenção dos investigadores é o volume atípico de viagens realizadas pela advogada no período investigado. Segundo relatório da PF:

  • Cecília viajou 33 vezes entre janeiro e novembro de 2024, incluindo Dubai, Paris, Lisboa e outros destinos internacionais;
  • Em 2023, realizou oito viagens, já em número considerado elevado para o padrão de faturamento de suas empresas.

As viagens são vistas como indício de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito, reforçando a linha investigativa de que os valores recebidos por meio do esquema eram utilizados para bancar um estilo de vida luxuoso e incompatível com a renda declarada.

Impacto da Operação Sem Desconto

Desde sua deflagração, a Operação Sem Desconto provocou um abalo estrutural no INSS, com afastamento de servidores, apuração de fraudes bilionárias e revisão de centenas de milhares de descontos associativos. Estima-se que o esquema tenha movimentado mais de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

Medidas tomadas após a operação:

  • Suspensão temporária de todos os descontos associativos automáticos;
  • Implantação de novas regras de validação via app Meu INSS;
  • Apuração de responsabilidade funcional de servidores envolvidos;
  • Revisão de acordos com entidades conveniadas ao INSS.

Governo tenta conter danos

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Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

O governo federal, por meio do Ministério da Previdência e da Controladoria-Geral da União (CGU), iniciou um processo de revisão de convênios e regulamentação mais rígida dos descontos associativos.

O presidente do INSS à época da operação, Alessandro Stefanutto, também foi afastado. Em nota, o Ministério da Previdência afirmou que não tolerará irregularidades e que está colaborando com as investigações.

Imagem: Reprodução/Miguel Schincariol/AFP

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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