Um ataque hacker realizado no último domingo, 19, deixou a fintech FictorPay com um prejuízo estimado em R$ 26 milhões, segundo informações confirmadas por fontes do setor financeiro. A ofensiva cibernética, iniciada por volta das 18h, explorou uma falha em um aplicativo white label contratado pela empresa, permitindo que os criminosos realizassem pelo menos 280 transferências via Pix para 270 contas laranjas distribuídas entre bancos e outras fintechs.
Ataque hacker rouba milhões de instituição financeira e desafia o Banco Central
Ataque hacker à fintech FictorPay desvia R$ 26 milhões via Pix após falha em aplicativo white label. Entenda o caso!
O caso reacende o debate sobre segurança digital no ecossistema financeiro brasileiro e sobre o uso de plataformas terceirizadas para conexão com o sistema Pix — uma prática comum entre fintechs de menor porte que não possuem autorização direta do Banco Central (BC).
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A FictorPay e o grupo controlador
A FictorPay pertence à holding Fictor, grupo empresarial que atua nos setores alimentício, financeiro e de infraestrutura. Fundada em 2007, a holding emprega cerca de 4 mil funcionários e registrou faturamento de R$ 3,5 bilhões em 2024, com projeção de chegar a R$ 5 bilhões em 2025.
O braço financeiro do grupo, a FictorPay, opera como uma plataforma de pagamentos digitais, oferecendo serviços de carteira eletrônica, emissão de cartões e soluções de banking-as-a-service (BaaS).
Como ocorreu o ataque hacker
De acordo com informações preliminares, o ataque começou quando os criminosos identificaram uma brecha de segurança em um aplicativo white label — uma solução terceirizada utilizada pela FictorPay e outras empresas do setor para oferecer serviços financeiros personalizados.
Por meio dessa vulnerabilidade, os hackers conseguiram acessar a conta da empresa responsável pelo aplicativo, o que permitiu o saque indevido de valores e a realização de transferências em massa via Pix.
O volume do ataque
- Valor total desviado: cerca de R$ 26 milhões
- Quantidade de transações: 280
- Contas de destino: cerca de 270, espalhadas por diferentes bancos e fintechs
As transferências não respeitaram o limite de valor imposto pelo Banco Central, já que a fintech não é participante direta do sistema Pix, operando por meio de empresas intermediárias, chamadas Prestadoras de Serviços de Tecnologia da Informação (PSTIs).
FictorPay se conecta ao Pix por meio de terceiros
A FictorPay não possui conexão direta com o sistema Pix. Em vez disso, utiliza intermediários licenciados, que operam dentro das normas do Banco Central. Essa arquitetura é comum em fintechs que ainda estão em fase de expansão, mas aumenta o risco de vulnerabilidades externas.
Segundo o BC, atualmente cerca de 250 instituições acessam o sistema de pagamentos por meio de terceiros, o que torna a cadeia de segurança mais complexa.
Embora a falha tenha ocorrido na empresa fornecedora do aplicativo white label, as transações indevidas partiram da conta corporativa associada à FictorPay, o que deve ser apurado pelas autoridades.
A resposta da Celcoin: “Nenhuma invasão ocorreu em nosso ambiente”
Uma das empresas que presta serviços à FictorPay é a Celcoin, fintech que fornece infraestrutura de pagamentos e tecnologia de Core Banking para várias instituições financeiras.
Em nota oficial, a Celcoin afirmou que não foi alvo de ataque e que nenhuma invasão ocorreu em seu ambiente tecnológico. Segundo a empresa, seus sistemas de monitoramento detectaram movimentações atípicas e agiram rapidamente:
“Assim que o comportamento foi percebido, bloqueamos preventivamente as operações e alertamos imediatamente o cliente. As análises indicam que a origem do incidente está em uma empresa provedora de soluções de aplicativo white label utilizada por este cliente e por outras empresas do mercado.”
A Celcoin destacou ainda que continua apoiando a FictorPay nas investigações e que todas as suas operações permanecem “estáveis e seguras, em total conformidade com as normas do Banco Central”.
O que é um aplicativo white label?
Os aplicativos white label são plataformas tecnológicas desenvolvidas por uma empresa e customizadas por outras marcas, que as utilizam para oferecer serviços financeiros sem precisar construir uma estrutura do zero.
Embora o modelo reduza custos e acelere o lançamento de produtos, também aumenta os riscos de segurança, já que várias empresas compartilham a mesma base tecnológica.
No caso da FictorPay, a brecha explorada pelos hackers atingiu justamente essa camada intermediária, comprometendo várias empresas do ecossistema que utilizam a mesma provedora.
Banco Central limita transferências para fintechs terceirizadas

O Banco Central do Brasil vem tentando reforçar a segurança do sistema Pix e reduzir os riscos envolvendo intermediários. Em 2024, a autarquia limitou em R$ 15 mil o valor máximo das transferências para instituições não autorizadas diretamente ou que se conectam por meio de PSTIs.
A decisão foi uma resposta à crescente sofisticação dos golpes digitais e ao aumento de ataques a plataformas de terceiros, que muitas vezes não possuem o mesmo nível de proteção que bancos tradicionais.
O caso da FictorPay, contudo, mostra que mesmo com restrições, ainda existem lacunas de segurança exploráveis pelos criminosos.
O silêncio do Banco Central e da FictorPay
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Procurado pela imprensa, o Banco Central informou que não comentará o caso. Já a FictorPay não respondeu aos contatos feitos por telefone e via LinkedIn ao CEO Ricardo Abdo e ao CEO da holding Fictor, Rafael Gois.
Fontes do setor afirmam que a empresa está conduzindo uma investigação interna e colaborando com autoridades policiais para tentar rastrear as contas utilizadas no golpe.
Impactos e investigação em andamento
A Polícia Federal e as áreas de compliance bancário das instituições envolvidas já estão atuando para identificar os destinatários das transferências e tentar reverter os valores desviados.
Especialistas em segurança digital apontam que os recursos podem ter sido fragmentados rapidamente entre múltiplas contas laranjas, tornando difícil a recuperação integral.
Possíveis consequências para o setor
- Perda de confiança de investidores e clientes em fintechs conectadas a terceiros;
- Aumento da pressão regulatória sobre empresas de BaaS e white label;
- Revisão de contratos de terceirização tecnológica;
- Maior fiscalização do Banco Central sobre o ecossistema Pix.
Falhas humanas e tecnológicas: um alerta para o mercado
O ataque à FictorPay é mais um exemplo de como brechas em sistemas terceirizados podem causar grandes prejuízos financeiros e reputacionais.
De acordo com especialistas em cibersegurança, a falha possivelmente foi explorada por meio de engenharia social combinada com vulnerabilidades de autenticação, permitindo que os hackers se infiltrassem sem acionar os protocolos de segurança automáticos.
Empresas de BaaS e Core Banking que utilizam o mesmo provedor white label estariam revendo suas políticas de integração, com reforço em autenticação multifatorial, monitoramento de APIs e auditorias externas.
Fintechs sob pressão: um ambiente cada vez mais vulnerável

A sofisticação dos golpes cibernéticos tem desafiado fintechs e startups financeiras, especialmente as que dependem de parcerias tecnológicas para operar.
O Pix, embora seguro em sua estrutura central, tornou-se porta de entrada para criminosos quando mal implementado em plataformas intermediárias.
Casos como o da FictorPay evidenciam que a fragilidade pode estar fora do perímetro das instituições financeiras principais, e que o modelo de terceirização tecnológica exige revisão urgente.
Imagem: ViChizh / shutterstock.com
