A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta quinta-feira (25), a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga uma das maiores fraudes contábeis da história do mercado financeiro brasileiro.
Fraude contábil nas Americanas avança com novos mandados da PF
PF cumpre nova fase da Operação Disclosure, e Justiça determina bloqueio de R$ 54 bilhões. Entenda o caso, os alvos e o impacto da investigação.
Além do cumprimento de novos mandados de busca e apreensão, a Justiça Federal determinou o bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 54 bilhões.
A decisão representa um novo capítulo das investigações iniciadas após a revelação das inconsistências contábeis nas Americanas, em janeiro de 2023.
Desta vez, o foco das autoridades se amplia para apurar se acionistas de referência e representantes de instituições financeiras também tiveram participação no esquema investigado.
Mas o que motivou essa nova operação? Quem são os investigados? E por que o valor bloqueado aumentou tanto desde o início do caso?
Confira os principais pontos.
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O que aconteceu na nova fase da Operação Disclosure?

A segunda fase da Operação Disclosure foi realizada pela Polícia Federal com apoio do Ministério Público Federal (MPF).
Ao todo, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Além disso, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o sequestro de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões.
Segundo a PF, o objetivo da nova etapa é aprofundar as investigações sobre possíveis participantes do esquema além dos ex-executivos da companhia.
Quem são os novos alvos?
Entre os investigados nesta fase estão:
- Acionistas de referência da Americanas;
- Representantes ligados a bancos privados;
- Pessoas apontadas como operadores financeiros do grupo.
Entre os nomes divulgados pelas autoridades estão Carlos Alberto da Veiga Sicupira, Paulo Alberto Lemann e Eduardo Saggioro Garcia.
É importante destacar que ser alvo de busca e apreensão ou de investigação não significa condenação. A apuração segue em andamento, e os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.
Por que a Justiça determinou o bloqueio de R$ 54 bilhões?
O bloqueio patrimonial tem caráter cautelar.
Na prática, a medida busca preservar recursos que poderão ser utilizados para eventual reparação de danos caso haja condenação ao final do processo.
O valor foi definido com base em laudos técnicos produzidos durante as investigações, que apontam que os prejuízos relacionados à fraude podem atingir aproximadamente R$ 54 bilhões.
Esse montante supera significativamente a estimativa inicial divulgada quando o caso veio à tona.
Como funcionava a fraude investigada?
Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, ex-executivos da companhia teriam manipulado demonstrações financeiras durante vários anos para apresentar uma situação econômica muito melhor do que a realidade.
A investigação aponta que os resultados financeiros eram artificialmente inflados, permitindo maior valorização das ações da empresa negociadas na bolsa de valores.
Com isso, executivos ligados ao esquema teriam recebido bônus milionários atrelados ao desempenho financeiro da companhia.
O que é o risco sacado?
Um dos principais mecanismos investigados envolve o chamado risco sacado.
Essa modalidade é bastante comum no mercado.
Funciona da seguinte forma:
- A empresa compra produtos de fornecedores;
- Um banco paga esses fornecedores antecipadamente;
- A companhia passa a dever para a instituição financeira, geralmente com prazo maior para pagamento.
O problema apontado pela investigação é que essas operações não teriam sido registradas corretamente.
Em vez de reconhecer a nova dívida com os bancos, parte dessas obrigações teria sido retirada dos balanços contábeis, fazendo parecer que a empresa possuía menos dívidas do que realmente tinha.
Como consequência, investidores e o mercado recebiam demonstrações financeiras distorcidas.
O que são as verbas de propaganda cooperada (VPC)?
Outro ponto investigado envolve as chamadas verbas de propaganda cooperada (VPC).
Esses incentivos são comuns no varejo.
Fornecedores costumam conceder descontos ou verbas promocionais para campanhas publicitárias realizadas pelos varejistas.
Segundo a Polícia Federal, parte dessas receitas teria sido registrada sem respaldo econômico ou com valores superiores aos efetivamente existentes.
Na prática, isso aumentaria artificialmente os lucros apresentados pela empresa.
Como a fraude foi descoberta?
O escândalo veio a público em 11 de janeiro de 2023.
Na ocasião, as Americanas comunicaram ao mercado que haviam sido identificadas inconsistências contábeis inicialmente estimadas em cerca de R$ 20 bilhões.
A revelação provocou forte reação dos investidores.
As ações despencaram, credores passaram a cobrar explicações e a empresa entrou com pedido de recuperação judicial.
Desde então, diversas auditorias, perícias e investigações vêm sendo conduzidas por órgãos públicos e privados.
O que aconteceu na primeira fase da operação?
A primeira fase da Operação Disclosure ocorreu em junho de 2024.
Na ocasião, a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão contra ex-diretores da companhia.
O principal nome investigado era o ex-CEO Miguel Gutierrez.
Ele foi preso na Espanha após inclusão de seu nome na Difusão Vermelha da Interpol.
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Posteriormente, a prisão preventiva foi revogada pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região.
Em março de 2025, o Ministério Público Federal denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários da empresa.
Eles respondem por crimes como:
- Organização criminosa;
- Manipulação de mercado;
- Falsidade ideológica;
- Uso de informação privilegiada, em alguns casos.
Até o momento, esses processos ainda seguem em tramitação na Justiça.
O que disseram os envolvidos?
Os acionistas de referência informaram, por meio de nota, que foram surpreendidos pela operação.
Segundo a manifestação, eles afirmam ter sido enganados pela antiga diretoria da empresa e reiteram que vêm colaborando com as autoridades desde que as irregularidades foram descobertas, em janeiro de 2023.
As defesas também afirmaram que ainda aguardam acesso integral à decisão judicial para eventual manifestação complementar.
Já a Americanas declarou que não foi alvo dos mandados desta nova fase da operação.
A companhia ressaltou que a investigação está relacionada aos fatos revelados em 2023 e informou que continuará colaborando com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal para o esclarecimento do caso.
A recuperação judicial da Americanas continua?
Em março de 2026, a Americanas informou à Justiça que havia solicitado o encerramento do processo de recuperação judicial.
Segundo a empresa, todas as obrigações previstas no plano aprovado pelos credores foram cumpridas dentro do prazo legal.
O pedido ainda depende da análise e decisão do Judiciário.
Esse procedimento é independente da investigação criminal conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.
Ou seja, mesmo que a recuperação judicial seja encerrada, as investigações sobre eventuais crimes continuam normalmente.
O que muda daqui para frente?

A nova fase da Operação Disclosure indica que as investigações estão avançando para analisar possíveis responsabilidades de outros envolvidos além da antiga diretoria.
Com a análise do material apreendido nesta quinta-feira, a Polícia Federal poderá reunir novas provas que reforcem ou descartem a participação dos investigados.
Caso sejam identificados elementos suficientes, o Ministério Público Federal poderá oferecer novas denúncias à Justiça.
Enquanto isso, o bloqueio de R$ 54 bilhões busca preservar patrimônio para eventual ressarcimento dos prejuízos caso as acusações sejam confirmadas ao final do processo.
Considerações finais
A nova fase da investigação sobre a fraude nas Americanas representa mais um avanço em um dos maiores escândalos corporativos do Brasil. O bloqueio judicial de até R$ 54 bilhões demonstra a dimensão dos prejuízos estimados e reforça o esforço das autoridades para identificar todos os possíveis responsáveis.
Apesar do avanço das apurações, é importante lembrar que a investigação ainda está em andamento. Os fatos seguem sendo analisados pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pela Justiça, respeitando o direito de defesa de todos os envolvidos até a conclusão definitiva dos processos.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
