O pregão desta quinta-feira (16) terminou com queda generalizada nos principais índices mundiais, após novas fraudes no sistema de crédito dos Estados Unidos e declarações do ex-presidente Donald Trump reacenderem as tensões comerciais com a China. No Brasil, o Ibovespa recuou 0,28%, aos 142.200 pontos, acompanhando o clima de cautela internacional e o baixo volume de negócios.
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Ibovespa fecha em leve queda

Com poucas notícias econômicas locais e sem impulso externo, o mercado brasileiro operou de forma morna durante todo o dia. As blue chips, que costumam sustentar o índice, pesaram no desempenho. A Petrobras caiu 0,79% (ações ordinárias) e 1,11% (preferenciais), enquanto a Vale recuou 0,92%, refletindo a baixa do minério de ferro no exterior.
No setor financeiro, o comportamento foi misto: Bradesco (BBDC4) subiu 1,15%, enquanto Itaú (ITUB4) e BTG Pactual (BPAC11) recuaram. O movimento foi atribuído a ajustes de portfólio e realização de lucros após uma sequência de altas recentes.
O dólar encerrou o dia em queda de 0,35%, cotado a R$ 5,44, com os investidores ainda apostando em corte de juros nos Estados Unidos até o fim do ano.
Fraudes e calotes nos EUA assustam investidores
O grande catalisador do pessimismo global veio de Wall Street. Duas instituições financeiras regionais, Zions Bancorporation e Western Alliance, divulgaram perdas inesperadas e admitiram possíveis fraudes em empréstimos corporativos, levantando dúvidas sobre a saúde do sistema de crédito americano.
As ações da Western Alliance despencaram mais de 12%, enquanto os papéis da Zions recuaram 10%, provocando um efeito dominó no setor bancário. O temor é que as irregularidades representem apenas a ponta de um iceberg, semelhante ao início da crise de 2008, quando problemas localizados se espalharam rapidamente pelo sistema financeiro global.
Segundo analistas de Nova York, o episódio revela vulnerabilidades em bancos médios e regionais, que, após a crise de liquidez de 2023, continuam expostos a empréstimos de alto risco e má governança. A incerteza fez com que investidores buscassem refúgio em títulos do Tesouro americano, provocando uma fuga de ativos de risco e pressionando as bolsas de todo o mundo.
Impacto imediato nas bolsas globais
A reação foi rápida e intensa. O Dow Jones caiu 1,4%, o S&P 500 recuou 1,8% e o Nasdaq teve baixa de 2,1%. Na Europa, o FTSE 100 de Londres perdeu 0,9%, enquanto o DAX de Frankfurt caiu 1,3%. As bolsas asiáticas seguiram o mesmo caminho, com destaque para o recuo de 1,7% em Hong Kong e de 1,1% em Tóquio.
No Brasil, o clima de aversão ao risco contaminou o mercado. Além da queda do Ibovespa, o índice de volatilidade aumentou 4,5%, e o volume financeiro do pregão ficou abaixo da média — um sinal de que os investidores preferiram a cautela antes do fim de semana.
Tensão comercial: Trump ameaça tarifas contra a China
Como se não bastasse o susto financeiro, o ex-presidente Donald Trump, em evento político na Flórida, prometeu impor tarifas de até 100% sobre produtos chineses caso retorne à Casa Branca. A declaração gerou apreensão imediata, relembrando o clima da guerra comercial de 2018–2019, que abalou o comércio global e as cadeias de suprimentos.
O governo chinês respondeu com firmeza, dizendo que “não hesitará em tomar medidas proporcionais” e criticando o uso de tarifas como instrumento político. A retórica aumentou o nervosismo nos mercados e pressionou moedas emergentes.
Especialistas avaliam que a ameaça de Trump pode agravar a inflação global e forçar o Federal Reserve a manter juros altos por mais tempo, reduzindo o apetite por risco.
Repercussões no Brasil

Enquanto o cenário externo pesava, Brasília também enfrentava suas próprias tensões. O chanceler Mauro Vieira se reuniu em Washington com o secretário de Estado americano Marco Rubio, discutindo temas como tarifas e acordos comerciais. Fontes do Itamaraty afirmam que o Brasil busca preservar o diálogo, especialmente diante do ambiente protecionista nos EUA.
Paralelamente, aumentam as preocupações com a falta de definição do Orçamento de 2026 e o impasse no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a desoneração da folha de pagamentos. Esses fatores adicionam incerteza fiscal e política ao ambiente doméstico, já sensível à volatilidade internacional.
Setor corporativo: movimentações e destaques
Mesmo em um dia de pessimismo, o setor corporativo brasileiro apresentou movimentações importantes.
Cemig conclui venda de usinas
A Cemig anunciou a conclusão da venda de quatro pequenas centrais hidrelétricas por R$ 52 milhões, em linha com sua estratégia de desinvestimento e foco em eficiência operacional.
CPFL anuncia dividendos milionários
A CPFL Energia aprovou o pagamento de R$ 200 milhões em dividendos, beneficiando acionistas e reforçando a percepção de solidez financeira da empresa no setor elétrico.
Vivo investe em computação em nuvem
A Vivo (Telefônica Brasil) firmou contrato de R$ 702 milhões voltado à expansão de serviços em nuvem e inteligência artificial, reforçando sua aposta na transformação digital e no aumento da produtividade empresarial.
Cade avalia fusão entre Petz e Cobasi
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) analisa a fusão entre Petz e Cobasi, que pode criar uma gigante do mercado pet com 11% de participação nacional. A operação, se aprovada, deve redefinir a concorrência e ampliar a presença das marcas no varejo físico e digital.
Especialistas alertam para aumento da aversão ao risco
Economistas consultados destacam que o episódio das fraudes nos EUA reforça o sentimento de aversão ao risco global, o que tende a impactar ativos emergentes, como o real e a bolsa brasileira. “Quando há sinais de instabilidade no sistema financeiro americano, a primeira reação do mercado é buscar segurança”, explica o analista Paulo Gonçalves.
Segundo ele, o Ibovespa pode continuar pressionado nos próximos dias, especialmente se as investigações nos EUA revelarem novos casos de fraude. “O investidor estrangeiro está cauteloso, e o cenário político local não ajuda”, completa.
Perspectivas para o fim da semana
O último pregão da semana promete ser de forte expectativa. Além da repercussão das notícias internacionais, o mercado aguarda discursos de dirigentes do Federal Reserve, que podem trazer pistas sobre o rumo dos juros americanos. No Brasil, o destaque será a divulgação dos dados fiscais de setembro, que devem confirmar o desafio do governo em conter o déficit público.
O Ibovespa deve continuar sensível ao humor global, especialmente com o aumento das incertezas em torno da economia dos Estados Unidos e da escalada protecionista de Trump. Analistas acreditam que o índice pode encontrar suporte na faixa dos 141 mil pontos, mas alertam para volatilidade elevada.
O que esperar a médio prazo

A médio prazo, a tendência é de volatilidade persistente nos mercados. A possibilidade de novas fraudes em bancos americanos reacende memórias recentes da crise do Silicon Valley Bank e coloca em xeque a estabilidade do sistema de crédito regional.
Se as tensões comerciais entre EUA e China se intensificarem, o impacto poderá ser ainda maior, atingindo commodities, exportações e moedas emergentes. Para o investidor brasileiro, o momento exige cautela, diversificação e foco em setores defensivos, como energia e saneamento.
Conclusão
O dia foi marcado por incertezas e desconfiança. O alerta de fraudes no sistema de crédito dos EUA e a retórica agressiva de Donald Trump criaram um ambiente de turbulência global, afetando desde Wall Street até a B3. No Brasil, o Ibovespa segue pressionado, e o cenário externo promete continuar sendo o principal motor dos mercados nas próximas semanas.
