Um novo capítulo no escândalo de fraudes envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) revela o uso estratégico e ilícito de tecnologias como robôs de telemarketing e sistemas URA (Unidade de Resposta Audível) por associações que atuam junto a aposentados e pensionistas. As práticas, investigadas pela Polícia Federal (PF) na operação Sem Desconto, apontam para um esquema bilionário que lesou milhares de beneficiários em todo o país.
Associações usaram robôs para aplicar descontos indevidos no INSS
Associações usaram robôs e URA para aplicar descontos indevidos em benefícios do INSS; fraude bilionária é alvo da operação da PF.
Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, as associações utilizaram call centers automatizados com suporte de inteligência artificial para realizar chamadas em massa oferecendo “benefícios” aos segurados. Essas chamadas resultavam, muitas vezes, na implantação de descontos não autorizados nos contracheques de aposentados e pensionistas.
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Como funciona o esquema com URA e robocalls

URA e robocalls: combinação perigosa para o consumidor
O método envolve duas tecnologias já comuns no setor de atendimento, mas que foram reaproveitadas com fins fraudulentos. A URA Digital, geralmente usada para conduzir clientes por menus automatizados de empresas, neste caso operava junto com os chamados robocalls, que disparam ligações automáticas em massa.
Nessas ligações, uma vez que o aposentado atendia, o sistema URA entrava em ação para simular uma conversa real e apresentar vantagens e serviços supostamente associados ao INSS. Ao final da ligação, muitos segurados, sem total entendimento, acabavam tendo mensalidades de associações descontadas diretamente de seus benefícios, sem consentimento explícito.
Um dos trechos revelados pela CNN traz uma atendente justificando o contato:
“O pacote oferecido de benefícios ao senhor foi realizado através de uma URA digital. A URA seria uma discadora que disca vários números aleatórios oferecendo os nossos benefícios.”
A explicação está tecnicamente equivocada, já que quem realiza as ligações são os robocalls — a URA apenas interage com o usuário após a chamada ser iniciada.
Explosão nos descontos: aumento de 119% em um ano
Dados alarmantes da CGU
Os dados da Controladoria-Geral da União (CGU) mostram um crescimento assustador no volume financeiro de descontos associativos aplicados sobre benefícios do INSS. De 2023 para 2024, o valor quase dobrou:
- 2022: R$ 706 milhões
- 2023: R$ 1,3 bilhão
- 2024: R$ 2,8 bilhões
Esse aumento de 119% em apenas um ano levanta sérias dúvidas sobre a efetividade dos mecanismos de controle interno e a vulnerabilidade dos beneficiários frente a abordagens cada vez mais sofisticadas.
O que dizem os órgãos responsáveis
Anatel amplia fiscalização contra fraudes
A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) declarou estar atenta à movimentação irregular nas telecomunicações. A agência informou que tem monitorado o uso de robocalls e URA para coibir práticas abusivas, sobretudo contra públicos mais vulneráveis, como os idosos.
Entre as ações implementadas estão:
- Monitoramento do tráfego irregular de chamadas
- Bloqueio de números usados para fraudes
- Campanhas de conscientização sobre ligações suspeitas
INSS: “Não autorizamos abordagens irregulares”
O INSS, por sua vez, reforçou que não reconhece qualquer abordagem feita sem a autorização expressa do beneficiário. A autarquia informou que todos os descontos associativos devem ser autorizados formalmente pelo titular do benefício.
“Não autorizamos qualquer tipo de abordagem irregular, como ligações relâmpago, confusas ou que induzam o segurado ao erro para a efetivação de descontos”, disse o INSS em nota.
Operação Sem Desconto: R$ 6,5 bilhões desviados desde 2019
Investigação da PF revela esquema nacional
A operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal, apura a participação de associações e empresas que atuavam em conjunto para realizar os descontos sem consentimento. O foco da investigação são mensalidades de entidades associativas, que deveriam ser voluntárias e requerer a autorização explícita do segurado.
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A PF estima que, entre 2019 e 2024, o esquema tenha movimentado aproximadamente R$ 6,5 bilhões, lesando milhões de beneficiários do INSS em todo o Brasil. A complexidade do esquema, que mistura atuação humana com tecnologia automatizada, dificulta o rastreamento e o controle por parte das instituições reguladoras.
Falta de regulação tecnológica expõe aposentados

Uso indevido de tecnologia levanta debate sobre regulação
O caso também reacende o debate sobre a necessidade de regulamentação do uso de tecnologias de teleatendimento, especialmente em contextos sensíveis como o de benefícios previdenciários.
Apesar de úteis em setores como bancos e operadoras, os sistemas automatizados podem ser explorados para enganar consumidores desavisados, em especial os mais idosos, que muitas vezes têm dificuldades em identificar fraudes por telefone.
Organizações de defesa do consumidor e parlamentares já se mobilizam para cobrar maior transparência e limites ao uso de robocalls e URAs, além de exigir melhor controle nos sistemas de desconto do INSS.
Como se proteger de descontos indevidos
Especialistas recomendam que os aposentados e pensionistas:
- Consultem frequentemente o extrato de pagamento no Meu INSS
- Reportem qualquer desconto suspeito à ouvidoria do INSS
- Recusem chamadas que ofereçam “benefícios” sem identificação clara
- Busquem apoio de familiares ou advogados em casos de dúvida
Conclusão
A revelação do uso de robôs e URA digital por associações para fraudar aposentados e pensionistas do INSS é um alerta grave para o Brasil. Além do prejuízo financeiro bilionário, o escândalo escancara a fragilidade das estruturas de proteção ao consumidor no ambiente previdenciário.
Com investigações em andamento e pressões por maior regulação, espera-se que medidas mais rígidas sejam adotadas para garantir que os benefícios previdenciários não sejam transformados em moeda de troca por entidades inescrupulosas, que se aproveitam da boa-fé de cidadãos já vulneráveis.
Imagem: Freepik
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