Durante sua participação em um evento promovido pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em São Paulo, nesta terça-feira (25), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, voltou a reforçar o tom conservador da autoridade monetária. Segundo ele, a inflação ainda não está convergindo para a meta de 3% definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o que justifica a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em patamar considerado “restritivo” pelo BC.
Galípolo confirma: juros vão continuar altos e BC não pretende baixar a Selic tão cedo, entenda o impacto!
Galípolo diz que o BC manterá juros altos até a inflação convergir à meta e garante que fará o necessário para assegurar a estabilidade econômica.
“Ainda estamos insatisfeitos, não estamos onde gostaríamos, por isso seguimos com patamar restritivo de juros”, declarou Galípolo.
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A leitura do BC sobre a inflação
Inflação desacelera, mas não na velocidade desejada
Apesar de sinais de desinflação ao longo de 2025, Galípolo demonstrou preocupação com a lentidão do processo. Para ele, o controle de preços ainda exige vigilância rigorosa da política monetária. Embora o índice oficial de inflação (IPCA) tenha recuado em meses recentes, o presidente do BC avalia que ainda há “custo e trade-off” envolvidos para garantir a convergência efetiva à meta.
“Gostaríamos que a inflação estivesse convergindo mais rápido, mas existe um custo, um trade-off para fazer isso”, observou.
A meta de 3% e os obstáculos para atingi-la
A atual meta de inflação — definida em 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual — permanece como referência para a política de juros. O BC avalia que, para garantir credibilidade junto ao mercado, é fundamental manter o foco nessa ancoragem.
O desafio, no entanto, passa por choques de preços de alimentos, volatilidade no câmbio e incertezas no cenário fiscal, o que dificulta o trabalho da autoridade monetária.
Selic em 15% e sem cortes à vista
O atual patamar da taxa básica de juros
Atualmente, a taxa Selic está fixada em 15% ao ano — um dos níveis mais altos do mundo, especialmente entre economias emergentes. Segundo Galípolo, esse patamar ainda é necessário para conter a inércia inflacionária e garantir que as expectativas futuras sigam alinhadas à meta.
“Toda vez que for necessário, o BC vai usar a taxa de juros”, reafirmou o presidente da instituição.
Projeções do mercado: cortes apenas em 2026
De acordo com o boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira, analistas do mercado financeiro ajustaram a expectativa para a Selic ao final de 2026, reduzindo a projeção de 12,25% para 12%. No entanto, a maioria não espera corte na taxa ainda em 2025. A reunião de dezembro do Comitê de Política Monetária (Copom), a última do ano, deve manter a taxa inalterada, segundo as apostas do mercado.
Essa postura cautelosa reflete a leitura de que o processo de desinflação ainda requer solidez e não há margem para experimentações que possam desancorar expectativas.
O papel do BC e sua independência
Mandato claro: controlar a inflação
Desde a promulgação da lei de autonomia do Banco Central, em 2021, a instituição ganhou independência formal em sua atuação. Isso significa que a diretoria do BC, hoje comandada por Galípolo, tem como mandato prioritário garantir a estabilidade de preços. Embora também acompanhe indicadores de emprego e crescimento, o foco na inflação permanece soberano.
“O BC fará o que for necessário para cumprir seu mandato de levar a inflação à meta”, reiterou Galípolo.
Direção da política monetária é a desejada
Galípolo também afirmou que o curso atual da política monetária é aquele que melhor cumpre o mandato da autarquia. Apesar da pressão de setores do governo e da sociedade por uma flexibilização mais rápida, o BC sinaliza que prefere errar pelo excesso de cautela do que comprometer sua credibilidade.
Essa postura é interpretada pelos agentes de mercado como uma garantia de que o Banco Central não cederá a pressões políticas, mantendo sua autoridade técnica no centro das decisões econômicas.
Estabilidade financeira em foco
Falibilidade dos bancos e aprendizados do passado
Ao tratar de outro tema sensível — a estabilidade do sistema financeiro — Galípolo afirmou que os bancos são instituições “falíveis” e que o BC precisa estar em constante aprendizado para evitar repetição de erros do passado. A fala ocorre poucos dias após a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master, medida adotada pela própria autoridade monetária.
Sem citar o caso diretamente, o presidente do BC disse que a instituição “seguiu o gabarito” ao agir na defesa do sistema e que todas as decisões foram embasadas em critérios técnicos e legais.
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“É importante que o BC aprenda com cada evento e evite repetir erros históricos”, disse, ao se referir à atuação preventiva da autoridade diante de desequilíbrios bancários.
Papel do BC na supervisão
O Banco Central também atua como supervisor do sistema financeiro, acompanhando a saúde das instituições, solvência, liquidez e cumprimento de regras prudenciais. Em casos extremos, como o do Banco Master, pode intervir diretamente para evitar riscos sistêmicos.
A sinalização de que o BC agirá de forma firme, quando necessário, busca reforçar a confiança dos investidores e dos depositantes no sistema bancário nacional.
Perspectivas para 2026 e além
Selic pode cair, mas com condições
A redução da taxa Selic segue como tema de amplo debate entre economistas. Para que ocorra, será necessário um conjunto de fatores favoráveis, entre eles:
- Inflação em trajetória clara de queda
- Expectativas ancoradas nos relatórios Focus
- Responsabilidade fiscal por parte do governo
- Estabilidade cambial
- Crescimento econômico sem pressão sobre a demanda
Caso esses pilares se mantenham firmes, o BC poderá iniciar um ciclo de cortes mais consistente ao longo de 2026. Contudo, Galípolo deixou claro que não há pressa e que a autoridade monetária manterá vigilância permanente.
Comunicação transparente com o mercado
Uma das marcas da gestão de Galípolo tem sido o esforço de comunicação com os agentes econômicos. Ao participar de eventos como o da Febraban, o BC tenta reforçar o discurso técnico, explicar suas decisões e, ao mesmo tempo, preparar o mercado para o que está por vir.
Essa transparência é vital para evitar choques nos preços dos ativos, fuga de capitais e volatilidade na curva de juros. Ao garantir previsibilidade, o Banco Central sustenta a estabilidade necessária para que empresas e consumidores possam planejar suas decisões financeiras.
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Imagem: Fábio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil
