O governo federal anunciou que pretende revisar as regras do saque-aniversário do FGTS em 2025, medida que reacende o debate sobre o futuro do fundo e seu papel como reserva de emergência para os trabalhadores. A proposta, em fase final de análise no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), tem como principal objetivo equilibrar o direito de acesso ao dinheiro acumulado com a necessidade de preservar os recursos para demissões sem justa causa.
Criado em 2019, o saque-aniversário permite que o trabalhador retire anualmente uma parte do saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no mês de seu aniversário. Em troca, ele perde o direito de sacar o valor total em caso de demissão. O modelo foi mantido pelos governos seguintes, mas passou a ser alvo de críticas devido aos efeitos colaterais sobre o mercado de trabalho e a liquidez do fundo.
Com o novo plano em discussão, o governo Lula pretende reformular o modelo para torná-lo mais equilibrado e justo, sem prejudicar o trabalhador nem comprometer a sustentabilidade do FGTS.
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O que o governo estuda mudar no saque-aniversário
De acordo com técnicos do Ministério do Trabalho, a ideia central da proposta é permitir que o trabalhador volte a sacar integralmente o FGTS em caso de demissão, mesmo que tenha optado pelo saque-aniversário. Isso corrigiria um dos pontos mais polêmicos do modelo atual, que impede o resgate total do saldo e causa dificuldades financeiras a quem perde o emprego.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, já havia criticado a modalidade em diversas ocasiões, afirmando que ela “fragiliza a proteção ao trabalhador e distorce a função original do fundo”. Segundo ele, a nova versão do programa busca “resgatar o caráter social do FGTS sem retirar o direito de quem deseja antecipar parte dos recursos”.
Possível unificação das modalidades
Entre as propostas avaliadas, está a criação de uma modalidade híbrida, que combine características do saque-aniversário e do saque-rescisão. Nesse modelo, o trabalhador poderia fazer retiradas anuais limitadas, mas sem perder o direito ao saque total caso seja demitido.
Outra alternativa em análise é o fim gradual do saque-aniversário, com uma transição para um novo formato de acesso, mais semelhante a uma conta de poupança individual, que permita saques programados e vinculados a situações específicas, como emergências ou despesas com saúde e educação.
Como funciona o saque-aniversário atualmente
O saque-aniversário foi criado durante o governo de Jair Bolsonaro, em 2019, como parte de um pacote de estímulo à economia. Ele permite que o trabalhador retire anualmente uma parcela de seu saldo no FGTS, conforme uma tabela progressiva que varia de acordo com o valor disponível na conta.
Por exemplo:
- Quem tem até R$ 500 no FGTS pode sacar 50% do saldo;
- Quem possui entre R$ 500 e R$ 1.000 pode sacar 40%;
- Já quem tem acima de R$ 20 mil pode retirar 5%, mais uma parcela adicional fixa.
Embora a modalidade tenha sido inicialmente bem recebida, cerca de 28 milhões de trabalhadores aderiram ao saque-aniversário, muitos passaram a enfrentar dificuldades ao perder o emprego, já que não podiam sacar o valor integral do fundo.
O impacto sobre os trabalhadores e a economia
Desde sua criação, o saque-aniversário gerou efeitos opostos na economia. De um lado, ajudou a injetar recursos no consumo das famílias em momentos de crise. De outro, reduziu a reserva financeira disponível para quem é demitido, especialmente em períodos de alta no desemprego.
Dificuldade em momentos de demissão
Para o trabalhador que perde o emprego, o modelo atual é considerado desfavorável. Ao aderir ao saque-aniversário, ele abre mão do saque-rescisão, o que significa que, mesmo demitido, só poderá retirar os valores anuais programados.
Essa limitação obrigou milhões de brasileiros a recorrerem a empréstimos consignados e antecipações do FGTS, o que, segundo especialistas, gera endividamento e reduz o poder de compra.
Efeitos na economia e no fundo
O FGTS é um dos principais instrumentos de investimento em habitação, saneamento e infraestrutura no país. Estimativas da Caixa Econômica Federal indicam que o fundo financia cerca de 80% dos projetos de moradia popular e responde por bilhões de reais em investimentos anuais.
Com o aumento dos saques anuais e das operações de antecipação, o saldo disponível para esses investimentos diminuiu, gerando preocupação no governo e nos setores de infraestrutura.
A posição da Caixa e dos especialistas

A Caixa Econômica Federal, que administra as contas do FGTS, confirmou que está colaborando com o governo na análise de cenários para uma eventual mudança. A instituição defende que o novo modelo preserve tanto o acesso do trabalhador quanto a capacidade de investimento do fundo.
Especialistas em finanças públicas também alertam para os riscos de decisões precipitadas. Para eles, o FGTS não deve ser tratado apenas como poupança individual, mas como um instrumento de política pública, que financia obras essenciais e gera empregos.
O dilema entre liquidez e segurança
Segundo economistas, o grande desafio do governo é equilibrar liquidez para o trabalhador e sustentabilidade do fundo. O excesso de retiradas pode comprometer a função social do FGTS, mas negar acesso ao dinheiro também gera insatisfação e pressões políticas.
A economista Laura Vilela, especialista em mercado de trabalho, afirma que “qualquer alteração precisa ser feita com cuidado para não repetir erros do passado, quando o saque imediato esvaziou as contas e afetou o crédito habitacional”.
Apoio político e tramitação da proposta
A proposta de reformulação do saque-aniversário deve ser apresentada ao Congresso Nacional ainda neste semestre. O governo deve encaminhar o texto em formato de projeto de lei, já que a mudança envolve direitos trabalhistas e acesso a recursos vinculados.
A expectativa é que a medida tenha apoio da base aliada, mas enfrente resistência de parte da oposição e do setor bancário, que lucra com a antecipação de saques. Deputados ligados à pauta liberal argumentam que o modelo atual “dá liberdade ao trabalhador sobre o uso de seu próprio dinheiro”.
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O Ministério do Trabalho, porém, sustenta que a prioridade é proteger o trabalhador em momentos de vulnerabilidade.
O que muda para quem já aderiu ao saque-aniversário
Um ponto importante da proposta é que nenhum trabalhador será prejudicado durante a transição. Aqueles que já aderiram ao saque-aniversário poderão optar por permanecer no modelo atual ou migrar para o novo sistema, caso aprovado.
O governo estuda criar um prazo de migração, que permita ao trabalhador retomar o direito de saque integral em caso de demissão, sem necessidade de devolução dos valores já retirados.
Essa mudança é vista como uma forma de corrigir injustiças e reduzir a inadimplência dos empréstimos vinculados à antecipação do FGTS.
Expectativas do mercado e da população
O anúncio das possíveis mudanças gerou otimismo entre os trabalhadores e expectativa no setor econômico. Para muitos brasileiros, o retorno da possibilidade de saque total em caso de demissão é uma questão de justiça social.
O setor da construção civil, no entanto, acompanha o tema com cautela. Caso o volume de saques cresça sem controle, pode haver redução temporária nos investimentos habitacionais financiados pelo FGTS.
Empresários do ramo sugerem que o governo crie mecanismos de compensação, como aportes do Tesouro ou limites de saque, para evitar desequilíbrio.
O futuro do FGTS e o desafio do equilíbrio
O debate sobre o saque-aniversário reflete uma discussão maior: qual deve ser o papel do FGTS no Brasil contemporâneo? Criado em 1966 para substituir a estabilidade no emprego, o fundo tem sido reformulado ao longo das décadas para atender tanto o trabalhador quanto os interesses de investimento público.
O governo Lula busca agora redefinir esse equilíbrio. A ideia é que o fundo volte a ser uma ferramenta de proteção social, mas sem impedir que o trabalhador use parte do dinheiro em momentos estratégicos.
A expectativa é que o novo modelo seja implementado gradualmente a partir de 2026, após análise de impacto econômico e consulta pública.
Conclusão
As mudanças no saque-aniversário do FGTS podem representar um dos ajustes mais significativos na política trabalhista dos últimos anos. O desafio do governo será encontrar um ponto de equilíbrio entre garantir liquidez ao trabalhador e manter o fundo saudável para financiar projetos sociais e de infraestrutura.
Independentemente do formato final, a discussão reforça a importância do FGTS como patrimônio coletivo dos trabalhadores brasileiros — um instrumento que precisa ser protegido, modernizado e utilizado de forma responsável



