A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) solicitando a suspensão imediata de todos os processos judiciais em curso no país.
Isso é para aqueles que tratam da responsabilização da União e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por descontos fraudulentos aplicados em benefícios previdenciários.
O governo federal justifica o pedido com base na necessidade de evitar a insegurança jurídica, reduzir a sobrecarga do Judiciário e garantir a sustentabilidade da Previdência Social, ameaçada pelo aumento exponencial de ações com decisões conflitantes.
Leia mais:
Quer comprar um imóvel usando o FGTS? Saiba quais são as regras para uso
Aposentadoria no INSS: saiba como consultar e acompanhar o pedido
Contexto: Entenda a fraude nos benefícios do INSS

Como os descontos indevidos ocorreram
Entre 2020 e 2025, milhões de segurados do INSS foram vítimas de descontos indevidos relacionados a supostas associações e sindicatos.
Em muitos casos, os beneficiários nem sequer autorizaram a adesão a essas entidades, que passaram a cobrar mensalidades diretamente do valor recebido por aposentados e pensionistas.
As fraudes foram reveladas por meio de auditorias internas do governo e denúncias apresentadas ao Ministério da Previdência, dando origem a investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU).
Quantos foram afetados
Segundo estimativas apresentadas pela AGU, cerca de 9 milhões de beneficiários foram impactados por esses descontos entre março de 2020 e março de 2025. O volume de ressarcimentos esperados é bilionário, e a previsão orçamentária da União não contempla essa despesa de forma direta.
Pedido ao STF: o que a AGU quer
Suspensão de processos e decisões
O governo pede ao STF uma liminar (decisão provisória) que suspenda imediatamente todas as ações judiciais em tramitação que cobram responsabilidade direta da União e do INSS pelos descontos indevidos.
O objetivo é evitar que milhões de processos avancem em direções distintas, o que pode gerar resultados contraditórios e instabilidade jurídica.
Além disso, a AGU quer que o STF anule as decisões judiciais que já reconheceram a responsabilidade do Estado e determinaram ressarcimento — inclusive em dobro — aos segurados afetados.
Declaração de inconstitucionalidade
No mérito da ação, o pedido é para que o STF declare inconstitucionais todas as decisões judiciais que contrariem o entendimento do governo de que o Estado não pode ser automaticamente responsabilizado por fraudes de terceiros, como as cometidas por entidades associativas.
Justificativas do governo federal
Risco à sustentabilidade da Previdência
A AGU argumenta que a judicialização em massa, somada à aplicação de sanções como a devolução em dobro dos valores descontados, representa um risco severo à sustentabilidade da Previdência Social.
De acordo com o órgão, a multiplicidade de ações e os diferentes entendimentos adotados pelos tribunais podem afetar diretamente a capacidade administrativa do INSS, impedindo que ele processe de forma eficaz os pedidos de ressarcimento que estão surgindo em escala nacional.
Insegurança jurídica
Outro ponto central da ação é a preocupação com a falta de uniformidade nas decisões judiciais.
Enquanto alguns tribunais reconhecem a responsabilidade da União, outros isentam o governo e atribuem a culpa exclusivamente às entidades fraudulentas. Essa insegurança jurídica, diz a AGU, ameaça o princípio da isonomia e dificulta o planejamento orçamentário da administração pública.
“Há decisões judiciais que impõem à União e ao INSS obrigações desproporcionais e que ferem a legalidade, ao aplicar analogias indevidas com o Código de Defesa do Consumidor”, sustenta a petição da AGU.
Como o STF pode agir
Liminar e mérito
Caso o STF aceite o pedido da AGU, milhões de processos serão imediatamente suspensos em todo o país.
Isso dará tempo ao governo para organizar mecanismos administrativos de devolução dos valores, além de propor alterações legislativas que regulamentem de forma mais clara a responsabilização em casos semelhantes.
A análise final (mérito) do pedido de inconstitucionalidade das decisões judiciais ainda levará semanas ou meses, mas a liminar pode ser concedida de forma imediata, caso o relator do processo, que ainda será definido, veja urgência e risco à ordem pública ou à economia nacional.
O impacto para os aposentados e pensionistas
O que muda para quem foi lesado
Para os segurados do INSS que foram vítimas das fraudes, a principal consequência imediata será a suspensão de ações judiciais que estão em andamento.
Isso não significa que perderão o direito ao ressarcimento, mas sim que deverão aguardar uma solução administrativa ou uma decisão definitiva do STF.
Novo canal para devolução administrativa?
Embora o governo ainda não tenha anunciado um canal oficial, fontes da AGU indicam que está em estudo a criação de um sistema eletrônico de restituição, a ser operado pelo próprio INSS.
Essa medida pretende evitar que os beneficiários precisem contratar advogados ou aguardar anos de tramitação judicial para receber o dinheiro de volta.
Direitos seguem preservados
O pedido da AGU também inclui uma solicitação ao STF para que a prescrição (prazo para perda do direito) seja suspensa, garantindo que todos os segurados possam reaver os valores no futuro, mesmo sem ingressar com ação judicial agora.
O que dizem especialistas
Juristas veem precedente relevante
Especialistas em direito constitucional e previdenciário avaliam que a ação da AGU pode criar um precedente de gestão judicial e administrativa de fraudes em larga escala, como já ocorreu em casos relacionados a planos econômicos.
Segundo o jurista Pedro Gonçalves, professor da USP, “o STF tem a oportunidade de evitar um colapso no Judiciário, mas ao mesmo tempo precisa assegurar que os direitos dos aposentados sejam preservados e os culpados, punidos”.
Debate sobre responsabilidade objetiva
Há também discussão sobre a responsabilidade objetiva do Estado por atos de terceiros.
A Constituição prevê que a União pode ser responsabilizada por danos causados por seus agentes, mas a AGU argumenta que as entidades envolvidas nas fraudes não são órgãos públicos, e sim organizações privadas que agiram à revelia do controle estatal.
Próximos passos

Distribuição da ação
A ação da AGU será distribuída nos próximos dias no STF, e um ministro relator será designado. Existe a possibilidade de que o processo seja atribuído por prevenção ao ministro Dias Toffoli, que já analisa outra ADPF sobre o mesmo tema (ADPF 1.234), o que pode acelerar a tramitação.
Pressão política
O tema também deve gerar debates no Congresso Nacional, especialmente com a instalação da CPI do INSS, que tem investigado fraudes e descontrole nos sistemas de descontos automáticos aplicados em benefícios previdenciários.
Conclusão: um novo modelo de resposta a fraudes em massa?
A ação proposta pela AGU representa uma tentativa de encontrar uma resposta coletiva, rápida e organizada para um problema sistêmico que afeta milhões de brasileiros.
O objetivo é evitar a judicialização em massa, preservar os cofres públicos e garantir justiça às vítimas sem comprometer o funcionamento da Previdência.
Caso o STF acate o pedido do governo, será necessário estabelecer canais claros, eficientes e transparentes para a devolução dos valores aos segurados prejudicados. A sociedade aguarda, agora, se o Judiciário será capaz de conciliar segurança jurídica, responsabilidade fiscal e proteção ao cidadão.
