O mercado de crédito brasileiro atravessa um momento delicado. Em julho de 2025, a inadimplência atingiu o maior patamar em quase oito anos, enquanto o ritmo de concessão de empréstimos e financiamentos desacelerou, segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC).
Inadimplência cresce no Brasil e atinge maior patamar nos últimos anos
A inadimplência no Brasil alcançou o maior nível em quase oito anos, enquanto o crédito mostra sinais de desaceleração. Veja dados do Banco Central.
O estoque total de crédito no país chegou a R$ 6,716 trilhões, representando um crescimento de apenas 0,4% em relação a junho. Apesar do avanço, os números mostram um cenário de alerta para famílias, empresas e instituições financeiras, que enfrentam uma combinação de crédito mais caro, maior risco de calote e atividade econômica moderada.
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Recorde desde 2017
No segmento de recursos livres — no qual as condições de empréstimos são negociadas diretamente entre bancos e clientes, sem interferência do governo — a inadimplência chegou a 5,2% em julho, contra 5,0% em junho. O indicador alcançou o maior nível desde novembro de 2017.
No acumulado do ano, a alta já é de 1,1 ponto percentual, um movimento que acende o sinal vermelho sobre a saúde financeira das famílias e a qualidade dos ativos dos bancos.
Mudanças regulatórias influenciaram o indicador
O BC informou que parte da elevação se deve a ajustes regulatórios, que tornaram a medição mais precisa. Ainda assim, mesmo desconsiderando essa alteração, o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) destacou em ata recente que houve crescimento real nos ativos problemáticos.
Impacto nas famílias
Com o endividamento das famílias próximo de 50% da renda disponível e o peso do cartão de crédito como principal modalidade de dívida, a inadimplência reflete a dificuldade de consumidores em lidar com juros elevados e custos crescentes.
Crédito dá sinais de desaceleração
Estoque cresce, mas ritmo cai
Apesar do estoque de crédito ter atingido R$ 6,716 trilhões, o ritmo anual de expansão perdeu força:
- Em junho, o aumento havia sido de 10,8%;
- Em julho, caiu para 10,7%.
O recuo pode parecer pequeno, mas sinaliza uma tendência de moderação nas concessões.
Condições financeiras restritivas
O Banco Central aponta que a desaceleração é reflexo de dois fatores:
- Atividade econômica moderada, com crescimento baixo do PIB;
- Condições financeiras mais restritivas, com juros elevados.
Avanço de modalidades direcionadas
As concessões de crédito cresceram 1,2% em julho, puxadas por financiamentos com recursos direcionados, que subiram 7,4%. Esse tipo de crédito, geralmente voltado a habitação e agricultura, tem condições subsidiadas e maior regulação governamental.
Taxa Selic e juros mantêm crédito caro
Selic em 15% ao ano
A política monetária segue em posição contracionista. A taxa Selic permanece em 15% ao ano, com o objetivo de conter a inflação, mas elevando o custo do crédito para famílias e empresas.
Juros médios
Nos empréstimos de recursos livres, os juros médios chegaram a 45,4% ao ano, ainda que tenham registrado leve queda de 0,1 ponto percentual em relação a junho.
Spread bancário
O spread bancário — diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa efetivamente cobrada do cliente — caiu de 31,7 para 31,6 pontos percentuais. Apesar da redução, o patamar segue entre os mais altos do mundo.
Cartão de crédito: vilão do endividamento
Crescente dependência
O cartão de crédito continua sendo o principal meio de endividamento das famílias brasileiras. Seu uso descontrolado, aliado a juros rotativos que ultrapassam 400% ao ano, contribui fortemente para o aumento da inadimplência.
Perfil das dívidas em atraso
Segundo especialistas, grande parte dos calotes ocorre em:
- cartão de crédito rotativo;
- empréstimos pessoais;
- financiamentos de veículos.
Essa composição mostra como o consumo imediato, impulsionado por crédito fácil, se transformou em um peso difícil de administrar para milhões de brasileiros.
Impactos da alta inadimplência
Para consumidores
- Nome negativado em cadastros de proteção ao crédito (SPC e Serasa);
- Dificuldade para obter novos empréstimos;
- Comprometimento da renda familiar.
Para bancos e instituições financeiras
- Aumento do risco de crédito;
- Maior necessidade de provisões para perdas;
- Pressão sobre a rentabilidade.
Para a economia
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- Menor consumo das famílias;
- Freio nos investimentos privados;
- Risco de desaquecimento ainda maior da atividade econômica.
O que dizem os especialistas
Necessidade de cautela
Economistas ressaltam que o Brasil enfrenta um equilíbrio delicado: é necessário conter a inflação, mas sem sufocar o crédito a ponto de agravar a recessão.
Projeções para os próximos meses
- Inadimplência pode seguir elevada enquanto os juros permanecerem altos;
- Crédito deve continuar desacelerando, especialmente no setor de recursos livres;
- Fintechs e bancos digitais devem ganhar espaço, oferecendo alternativas de crédito mais baratas, ainda que sob maior risco.
Como consumidores podem se proteger

1. Organizar as finanças pessoais
Criar um orçamento mensal, priorizando despesas essenciais e evitando gastos supérfluos.
2. Evitar crédito caro
Sempre que possível, fugir de modalidades com juros muito altos, como cartão rotativo e cheque especial.
3. Negociar dívidas
Buscar renegociações com bancos e aproveitar feirões de renegociação de dívidas pode ajudar a recuperar o controle financeiro.
4. Construir reserva de emergência
Ter um fundo de segurança reduz a necessidade de recorrer a empréstimos em momentos de crise.
Comparação internacional
O nível de inadimplência no Brasil, mesmo elevado, ainda é considerado baixo em comparação a crises passadas. Em 2016, por exemplo, o índice ultrapassou 6,5%. No entanto, os juros altos e o endividamento elevado deixam o país mais vulnerável a choques econômicos.
Considerações finais
O Brasil vive um momento de alerta no mercado de crédito. A inadimplência em nível recorde e a desaceleração das concessões refletem a pressão de juros elevados e a fragilidade da renda das famílias.
Se por um lado a política monetária busca conter a inflação, por outro, impõe desafios ao crescimento econômico e à estabilidade do sistema financeiro.
A tendência para os próximos meses é de cautela, tanto para consumidores quanto para instituições financeiras. Enquanto isso, a recomendação é clara: evitar o endividamento excessivo, priorizar o pagamento de dívidas e buscar alternativas mais sustentáveis de crédito.
