A revelação de que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) possui cerca de 763 mil empréstimos consignados ativos feitos em nome de menores de idade reacendeu o debate sobre vulnerabilidade, fiscalização e responsabilidade das instituições financeiras. Os contratos, que somam aproximadamente R$ 12 bilhões, foram realizados enquanto vigia uma norma que permitia esse tipo de operação — posteriormente revogada em agosto.
Crédito consignado a crianças? INSS autorizou R$ 12 bilhões em nome de menores
O INSS identificou mais de 763 mil empréstimos consignados feitos em nome de crianças e adolescentes, totalizando R$ 12 bilhões. Entenda!
O caso veio à tona após o presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, informar que o órgão está revisando acordos com bancos e reduzindo o número de instituições parceiras devido à detecção de inúmeras irregularidades. A denúncia também ganha peso porque surge após a queda de Alessandro Stefanutto, ex-presidente do instituto, demitido e preso no contexto das investigações sobre descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas.
Como empréstimos em nome de crianças foram liberados?
Leia mais: Descontos indevidos: INSS vai devolver valores de falecidos a herdeiros
A norma que abriu brecha para as contratações
Durante a gestão de Stefanutto, uma instrução permitiu que benefícios de menores, especialmente aqueles ligados ao BPC (Benefício de Prestação Continuada) e às pensões por morte, fossem utilizados como base para consignados.
Apesar de controversa, a regra autorizava averbações desde que houvesse um responsável legal pelo menor.
O problema:
Não havia mecanismos eficientes de confirmação, como biometria obrigatória, e verificações eram facilmente burladas por atravessadores e instituições financeiras.
Revogação tardia
A norma só foi revogada em agosto, já sob nova gestão. Até então, milhares de contratos já estavam ativos — muitos firmados em condições consideradas abusivas.
Os números do escândalo
Valor médio e volume de contratos
Segundo o novo presidente do INSS, o valor médio dos empréstimos é de R$ 16 mil por contrato.
Apenas em 2022, foram 395 mil averbações em nome de menores de idade.
Crianças de 11 a 13 anos são as mais afetadas
A faixa etária mais atingida está entre 11 e 13 anos, mas casos mais graves foram registrados.
Bebês endividados: os casos mais extremos
Um levantamento da Anced (Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) e dados internos do INSS mostram exemplos chocantes:
- 15 empréstimos em nome de menores de 1 ano registrados em 2022.
- Um bebê nascido em maio já tinha, em dezembro, uma dívida de R$ 15,5 mil, parcelada em 84 vezes.
- Outro recém-nascido, com apenas 3 meses, “contraiu” um empréstimo de R$ 1.650 via cartão de crédito consignado.
A reação do INSS e as medidas de contenção
Biometria obrigatória para novos consignados
Desde maio, o INSS implementou a exigência de biometria do próprio beneficiário para qualquer operação de consignado.
Como menores não podem fornecer esse tipo de validação, o sistema bloqueia automaticamente empréstimos em seus nomes.
Redução de bancos conveniados
Waller afirmou que o instituto reduziu o número de instituições financeiras participantes do sistema de consignado de 74 para 59, após auditorias apontarem irregularidades graves.
Revisão de contratos suspeitos
O INSS também revisa contratos que apresentam:
- valores incompatíveis com perfis etários
- assinaturas suspeitas
- ausência de documentos
- variações bruscas de endividamento
A nova gestão afirma que, se identificadas fraudes, os valores serão cancelados e devolvidos aos beneficiários.
Por que menores se tornaram alvo de bancos e atravessadores?
Benefícios de renda fixa e baixa contestação
Especialistas afirmam que benefícios destinados a menores, como o BPC, são atrativos para fraudes porque:
- possuem pagamento contínuo e garantido
- apresentam menor probabilidade de contestação judicial imediata
- responsáveis nem sempre compreendem completamente os extratos e descontos
Para criminosos—e para bancos pouco rigorosos—isso representava uma “oportunidade”.
Falha sistêmica e fiscalização insuficiente
A ausência de verificações biométricas e a facilidade de averbação criaram um ambiente propício para irregularidades.
O que acontece com os empréstimos já contratados?
Casos serão reavaliados individualmente
O INSS afirmou que analisará contrato por contrato.
Para situações onde fique comprovada:
- fraude
- ausência de autorização legítima
- falta de documentação
- irregularidade na contratação
O contrato poderá ser cancelado.
Responsáveis podem ser investigados
Em casos extremos, com indícios de fraude familiar ou de terceiros:
- responsáveis legais podem responder por crime
- bancos podem ser multados e desligados do convênio
- atravessadores podem ser responsabilizados judicialmente
Como responsáveis podem verificar se há descontos indevidos?
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Passo a passo básico
- Acessar Meu INSS (aplicativo ou site).
- Entrar em Extrato de Pagamento.
- Verificar se existe a aba “Empréstimos Consignados” vinculada ao benefício do menor.
- Conferir parcelas, valores e bancos responsáveis.
Como contestar
- Abrir um pedido de revisão de consignado pelo próprio Meu INSS.
- Em caso de fraude evidente, registrar boletim de ocorrência.
- Acionar a Defensoria Pública quando necessário.
O que muda no futuro do consignado?
Tendência é de endurecimento das regras
A nova gestão do INSS sinaliza que:
- contratos serão monitorados com inteligência artificial
- bancos com histórico problemático podem ser banidos
- novas exigências de validação serão implementadas
Proteção de vulneráveis como prioridade
A ideia é impedir que benefícios de pessoas incapazes de decidir—como menores ou indivíduos com deficiência severa—sejam utilizados para endividamentos indevidos.
FAQ — Perguntas frequentes
O INSS realmente liberou consignados para menores de idade?
Sim. Mais de 763 mil contratos ativos foram identificados, totalizando cerca de R$ 12 bilhões.
Por que isso aconteceu?
Uma norma permitiu consignados vinculados a benefícios de menores. A regra foi revogada apenas em agosto.
Os contratos serão cancelados?
Casos suspeitos serão revisados individualmente e podem ser cancelados se comprovada fraude.
Bebês realmente tinham dívidas?
Sim. Dados oficiais mostram ao menos 15 casos envolvendo menores de 1 ano.
Considerações finais
O escândalo dos consignados para crianças expõe uma série de vulnerabilidades no sistema de proteção social brasileiro e revela a necessidade urgente de fiscalização mais rigorosa e transparência nas relações entre o INSS e instituições financeiras. Enquanto a revisão dos contratos avança, especialistas pedem responsabilização e reforço das medidas de prevenção a fraudes, garantindo que benefícios destinados a crianças e adolescentes não sejam transformados em instrumentos de endividamento ilegal.
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