O programa Remessa Conforme, que passou a taxar com mais rigor compras internacionais feitas por pessoas físicas no Brasil, pode sofrer alterações relevantes. Um projeto de lei (PL) apresentado recentemente pela deputada federal Dani Cunha (União Brasil-RJ) propõe a isenção do imposto de importação para compras de até US$ 600 por ano, aproximadamente R$ 3.485, com o câmbio atual.
Taxa das blusinhas: nova lei pode elevar isenção de importações para US$ 600 anuais
Nova proposta legislativa quer isentar brasileiros de imposto de importação em compras internacionais de até US$ 600 por ano, vinculadas ao CPF.
A proposta estabelece que esse limite seja vinculado ao CPF do comprador, criando uma espécie de cota individual anual para isenção de tributos federais e estaduais nas importações destinadas a uso pessoal. Acima desse valor, os impostos seriam cobrados normalmente.
Segundo a autora, o objetivo é corrigir distorções sociais causadas pelo programa Remessa Conforme, que, na prática, penaliza os consumidores mais pobres e favorece os que viajam ao exterior, isentos de impostos em compras de até US$ 1 mil.
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O que é o programa Remessa Conforme?
Iniciativa da Receita Federal que visa regular compras internacionais
Lançado oficialmente em 2023, o Remessa Conforme é um programa da Receita Federal que passou a regulamentar com mais rigor a entrada de produtos comprados no exterior pela internet, especialmente de plataformas como Shein, AliExpress, Shopee e Amazon.
A medida foi inicialmente anunciada com a promessa de reduzir a sonegação fiscal e aumentar a competitividade das empresas nacionais. No entanto, com a nova política, compras acima de US$ 50 passaram a ser tributadas com 60% de imposto de importação e ICMS estadual de 17%, mesmo para pessoas físicas.
O que muda com o projeto da deputada Dani Cunha?
Cota anual de isenção e restrição à pessoa física
O projeto de lei apresentado por Dani Cunha altera o formato do Remessa Conforme ao criar uma cota de isenção de até US$ 600 por ano por CPF. A regra, caso aprovada, significaria que:
- Compras internacionais de até US$ 600 anuais por pessoa física estariam isentas de imposto de importação e ICMS;
- A isenção seria vinculada ao CPF do consumidor;
- Empresas continuariam sujeitas à tributação integral, como já ocorre atualmente;
- Acima do valor limite anual, os tributos seriam calculados sobre o excedente.
Essa proposta oferece mais clareza e previsibilidade para consumidores brasileiros que costumam comprar produtos de baixo valor em sites estrangeiros.
Justificativas da proposta: por que mudar o Remessa Conforme?
Impacto negativo nos consumidores mais pobres
De acordo com a deputada, a atual política do Remessa Conforme prejudica desproporcionalmente as classes de menor renda, que dependem de produtos importados mais baratos para economizar no consumo pessoal ou revenda informal.
Ela compara o tratamento dado ao consumidor que compra online ao de quem viaja internacionalmente, que pode entrar no Brasil com até US$ 1.000 em compras isentas, desde que traga os itens na bagagem.
“A Receita Federal continua permitindo que os mais ricos ingressem no país com produtos de até US$ 1 mil sem pagar qualquer tipo de imposto, enquanto penaliza os mais pobres nas compras online”, argumenta Dani Cunha.
Impacto na arrecadação e na indústria nacional
Críticas e contrapontos
Embora a proposta agrade consumidores, setores da indústria e varejo nacional manifestam preocupações. Entidades como a CNC (Confederação Nacional do Comércio) e a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) alegam que a isenção aumenta a concorrência desleal com produtos importados de baixo custo, muitas vezes fabricados em países com custo trabalhista e tributário inferior ao brasileiro.
Já especialistas em tributação alertam para o possível efeito sobre a arrecadação de estados e da União, caso o número de isenções cresça significativamente. Segundo estimativas preliminares da Receita, o programa Remessa Conforme poderia gerar mais de R$ 8 bilhões em arrecadação por ano com a manutenção do atual formato.
Situação atual do projeto na Câmara

A proposta ainda aguarda despacho e análise
O projeto de lei ainda não foi distribuído às comissões da Câmara dos Deputados, primeira etapa antes de uma possível votação em plenário. Quando começar a tramitar, ele deve passar por:
- Comissão de Finanças e Tributação (CFT)
- Comissão de Desenvolvimento Econômico (CDE)
- Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)
A expectativa é que o debate ganhe força nas próximas semanas, especialmente em meio às discussões sobre a reforma tributária, que pode mudar completamente o modelo de cobrança de impostos sobre o consumo no Brasil.
Quem ganha com a nova proposta?
Beneficiários diretos seriam consumidores e pequenos empreendedores
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Caso a proposta seja aprovada, os principais beneficiários seriam:
- Consumidores de baixa e média renda, que fazem compras pessoais de itens baratos no exterior;
- Microempreendedores individuais (MEIs) e revendedores informais, que costumam importar pequenas quantidades para revenda local;
- Estudantes e jovens, que compram eletrônicos, roupas e acessórios de uso pessoal via marketplaces internacionais.
A medida também pode reduzir o número de fiscalizações e autuações sobre pequenas remessas que, muitas vezes, acabam atrasadas ou retidas nos Correios por conta de tributos contestados.
Como funcionaria o controle da cota de isenção?
Uso do CPF para rastrear o limite anual
A proposta prevê que a isenção seja controlada por CPF, limitando o benefício a US$ 600 por ano por pessoa física. A Receita Federal poderia utilizar sua infraestrutura tecnológica para:
- Cruzar dados de importações registradas com o CPF do destinatário;
- Suspender automaticamente a isenção ao atingir o limite;
- Cobrar tributos apenas sobre o valor que ultrapassar os US$ 600.
Esse modelo seria semelhante ao utilizado para monitorar gastos no exterior com cartão de crédito ou entradas de bagagem em viagens internacionais.
Comparativo: modelo proposto x atual
| Critério | Modelo atual (Remessa Conforme) | Proposta de Dani Cunha |
|---|---|---|
| Isenção por pessoa física | Até US$ 50 por remessa | Até US$ 600 por ano por CPF |
| Tributação acima do limite | 60% (imposto federal) + 17% (ICMS estadual) | Só incide acima dos US$ 600 anuais |
| Vinculação | Por remessa | Por CPF e ano-calendário |
| Empresas | Tributadas normalmente | Permanecem tributadas |
| Controle | Por envio de dados pelas plataformas | Pela Receita Federal, cruzando CPF |
O que esperar nos próximos meses?

Tramitação do projeto pode acender debate nacional
Embora a proposta ainda esteja no início, ela acende um debate importante sobre justiça fiscal, acesso ao consumo e concorrência internacional.
Se avançar no Congresso, o projeto pode servir de base para uma reformulação mais ampla do Remessa Conforme, inclusive sendo incorporado à reforma tributária em curso.
Enquanto isso, consumidores e comerciantes aguardam com expectativa a posição do governo federal e das comissões técnicas.
Imagem: Venn-Photo/Shutterstock
