Na segunda-feira, 8 de setembro, o Itaú Unibanco, maior banco privado da América Latina, anunciou o desligamento de aproximadamente mil funcionários. A justificativa apresentada pela instituição foi a baixa produtividade no regime de trabalho remoto.
Itaú revela: demitidos em home office cumpriam só 20% da jornada
Itaú demitiu cerca de mil funcionários por baixa produtividade no home office. Banco aponta quebra de confiança, enquanto sindicato contesta falta de transparência.
Segundo o comunicado, parte desses colaboradores cumpria apenas cerca de um quinto da jornada prevista, apesar de registrarem horas extras.
A decisão gerou repercussão imediata. De um lado, o banco reforça que se tratou de uma medida pontual para preservar a confiança. Do outro, o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região classificou o movimento como demissão em massa injustificada, contestando a falta de transparência nos critérios utilizados.
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A justificativa do banco

Atividade digital como métrica
No comunicado divulgado em 10 de julho, o Itaú afirmou ter identificado uma “minoria de colaboradores em jornadas de trabalho remoto com baixos níveis de atividade digital”. A análise foi feita ao longo de quatro meses, considerando o tempo de conexão e o uso dos sistemas corporativos.
Segundo o banco, os casos mais críticos registravam apenas 20% de atividade digital em um dia, o que corresponderia a um quinto da carga horária. Ainda assim, esses trabalhadores teriam reportado horas extras, sem justificativa aparente.
Exemplos apresentados pelo Itaú
A instituição detalhou dois casos para embasar sua decisão:
- Em uma área com 316 analistas, a média de atividade digital foi de 72%. Já os colaboradores desligados apresentavam entre 27% e 37%, além de registrarem horas extras.
- Em outra área com 30 analistas, a média ficou em 75%, enquanto o profissional desligado teve 39% de atividade digital, também com registro adicional de horas.
O banco destacou que a média geral de atividade digital dos colaboradores em home office é de 75%, patamar que considera “adequado”.
Quebra de confiança
Para o Itaú, os casos identificados configuram “desvio do padrão de comportamento” e resultam em quebra de confiança entre empregador e empregado. A instituição frisou que até mesmo funcionários com boa avaliação de performance foram desligados, já que a conduta em relação ao tempo de trabalho não estaria alinhada às expectativas da empresa.
O contraponto do sindicato
Críticas à falta de transparência
O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região reagiu de imediato ao anúncio, afirmando que as demissões foram excessivas e desproporcionais. Segundo a entidade, a justificativa de queda de produtividade não é clara e não foi discutida previamente com os representantes dos trabalhadores.
Demissão em massa e direitos trabalhistas
A organização classifica o episódio como demissão em massa, exigindo transparência e respeito aos acordos coletivos. Para o sindicato, a gestão de desempenho deve incluir critérios objetivos, comunicação direta e possibilidade de defesa. O órgão lembra ainda que a negociação coletiva prevê garantias mínimas no teletrabalho, incluindo orientação de gestores e processos claros em casos de advertência ou falhas.
O dilema do home office no setor bancário
Avanço do teletrabalho
A pandemia de Covid-19 consolidou o home office como alternativa viável no setor financeiro. Bancos e fintechs adotaram o regime remoto para reduzir custos e oferecer mais flexibilidade. No entanto, a gestão de produtividade nesse modelo continua sendo um desafio.
Monitoramento e privacidade
O uso de métricas digitais de produtividade levanta debates sobre privacidade e confiança. Embora ajude a identificar padrões de comportamento, a análise pode não capturar nuances da jornada de trabalho, como reuniões externas, atividades offline ou tarefas não digitalizadas.
O risco da generalização
Especialistas em recursos humanos alertam que a avaliação puramente quantitativa pode levar a injustiças. Um colaborador pode apresentar baixa atividade digital em determinados períodos por estar envolvido em projetos específicos que não exigem interação constante nos sistemas.
Impactos para o Itaú e para os trabalhadores
Clima organizacional
As demissões em massa podem afetar o clima organizacional dentro da instituição. Funcionários remanescentes podem se sentir pressionados, temendo novas medidas, o que impacta a motivação e a produtividade.
Imagem corporativa
O Itaú, que já vinha investindo fortemente em transformação digital e políticas de diversidade, agora enfrenta um desafio de imagem. O episódio pode gerar desgaste na relação com clientes e investidores, especialmente em um cenário de alta competitividade no setor bancário.
Consequências para os desligados
Para os trabalhadores demitidos, o desafio é ainda maior. Em um mercado altamente competitivo, a marca de baixa produtividade pode prejudicar futuras recolocações, mesmo que os critérios utilizados pelo banco sejam questionáveis.
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O que dizem os especialistas

Direito trabalhista
Juristas apontam que, embora o empregador tenha autonomia para decidir desligamentos, a falta de transparência e de comunicação clara pode gerar passivos trabalhistas. Casos de suposta demissão injusta ou sem o devido processo podem resultar em ações na Justiça do Trabalho.
Gestão de desempenho
Consultores de RH afirmam que o episódio mostra a importância de modelos híbridos de avaliação, combinando métricas digitais, feedback de gestores e resultados entregues. Apenas assim é possível garantir uma análise justa e equilibrada.
O papel da negociação coletiva
Para especialistas em relações sindicais, o episódio deve reforçar a necessidade de fortalecer negociações coletivas, especialmente em temas ligados ao teletrabalho, para evitar lacunas que possam prejudicar trabalhadores.
Futuro do trabalho remoto no setor financeiro

Tendência de revisão de políticas
O caso Itaú pode servir de alerta para outras instituições financeiras. A tendência é que bancos revisem suas políticas de home office, buscando equilibrar produtividade e bem-estar.
Novos modelos de monitoramento
Ferramentas de inteligência artificial e análise de dados devem ganhar espaço, mas será essencial garantir transparência e ética no uso das informações.
Debate sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional
O episódio também reacende a discussão sobre o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. A pressão por produtividade pode comprometer a saúde mental dos trabalhadores, tornando urgente a adoção de práticas de gestão mais humanizadas.
Considerações finais
As demissões no Itaú expõem um dos maiores dilemas do mercado de trabalho atual: como medir produtividade no home office de forma justa e transparente. Enquanto o banco defende que houve quebra de confiança, o sindicato insiste que os desligamentos foram excessivos e carecem de critérios claros.
Mais do que um caso isolado, o episódio pode redefinir o debate sobre o teletrabalho no Brasil, envolvendo bancos, sindicatos, especialistas e milhões de trabalhadores que vivem o desafio do equilíbrio entre flexibilidade e responsabilidade.
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