O avanço das fontes renováveis no Brasil trouxe ganhos ambientais relevantes, mas também revelou gargalos estruturais. Um dos principais é o chamado curtailment — situação em que a energia gerada precisa ser reduzida ou até descartada por falta de capacidade do sistema elétrico em absorver toda a produção. Nesse contexto, o braço de capital de risco do Itaú Unibanco, o Itaú Ventures, liderou um investimento na Minter, startup brasileira que desenvolve data centers móveis com foco em mitigar esse problema.
Itaú Ventures investe em startup de data center portátil
Startup Minter atrai Itaú Ventures e aposta em data centers móveis para reduzir perdas de energia e monetizar excedentes no Brasil.
A rodada série A também contou com participação do Grupo Leste, Legend Capital e investidores individuais.
Embora o valor do aporte não tenha sido divulgado, operações desse tipo costumam variar entre R$ 20 milhões e R$ 50 milhões dentro da estratégia do fundo. O movimento reforça o interesse crescente do mercado financeiro por soluções que conectam tecnologia e infraestrutura energética.
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O que é curtailment e por que ele preocupa o setor elétrico
O curtailment ocorre quando há excesso de geração — especialmente em fontes intermitentes como solar e eólica — e o sistema não consegue distribuir ou armazenar essa energia. Como resultado, usinas são obrigadas a reduzir sua produção, gerando prejuízos financeiros e ineficiência operacional.
No Brasil, esse cenário vem se intensificando à medida que a matriz energética se torna mais limpa. Dados do setor apontam que as perdas podem chegar a cerca de 4 gigawatts (GW), o equivalente a aproximadamente 5% da capacidade energética nacional.
Esse desperdício impacta diretamente geradoras e investidores, além de reduzir a eficiência global do sistema elétrico. Diante disso, soluções que permitam aproveitar essa energia excedente ganham relevância estratégica.
Como funcionam os data centers móveis da Minter
Fundada em 2023, a Minter aposta em uma abordagem prática: levar o consumo de energia até o ponto de geração. A empresa desenvolve estruturas modulares instaladas em contêineres, que funcionam como data centers móveis.
Estrutura flexível e escalável
Cada unidade pode abrigar até 200 máquinas de processamento de dados e ser transportada para diferentes localidades, conforme a necessidade. Esse modelo se diferencia dos grandes data centers tradicionais operados por empresas como Equinix, Ascenty e Scala Data Centers, que exigem investimentos elevados e infraestrutura fixa.
A proposta da Minter é reduzir custos e aumentar a eficiência ao consumir energia diretamente na fonte, evitando perdas com transmissão e distribuição.
Aplicação prática em geração renovável
Na prática, os data centers são instalados próximos a parques solares ou eólicos. Quando há excesso de energia, essa capacidade é direcionada para o processamento de dados — transformando um problema em oportunidade de receita.
Atualmente, a empresa opera uma planta em Xique-Xique, com capacidade instalada de 20 megawatts (MW), atendendo um cliente.
Monetização do excedente energético ganha força
O modelo de negócio da Minter se baseia em transformar energia desperdiçada em valor econômico. Ao direcionar o excedente para atividades intensivas em processamento, como mineração de criptomoedas, a empresa cria uma nova fonte de receita para geradoras.
Mineração de bitcoin como ponto de partida
Hoje, o principal foco da startup é atender empresas de mineração de Bitcoin, que demandam grande capacidade computacional e alto consumo energético.
Esse segmento é particularmente atrativo porque permite flexibilidade: as operações podem ser ajustadas conforme a disponibilidade de energia, sem comprometer a estabilidade do sistema elétrico.
Expansão para computação em nuvem
Apesar do foco inicial, a Minter também avalia expandir sua atuação para serviços de computação em nuvem. No entanto, o alto custo dos equipamentos ainda representa um desafio para escalar esse modelo no curto prazo.
Mesmo assim, a estratégia aponta para um futuro em que data centers móveis possam atender múltiplos segmentos, ampliando o impacto da solução.
Crescimento acelerado e metas ambiciosas
Com o novo investimento, a Minter pretende expandir sua capacidade operacional. A meta é dobrar a potência instalada para 40 MW até o fim do ano e alcançar 500 MW até 2029.
Esse crescimento acompanha a tendência global de aumento da demanda por processamento de dados, impulsionada por tecnologias como inteligência artificial, computação em nuvem e blockchain.
Ao mesmo tempo, o Brasil se posiciona como um mercado estratégico, graças à sua matriz energética predominantemente renovável — um diferencial competitivo para operações intensivas em energia.
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Papel do Itaú na conexão com o setor energético
Além do aporte financeiro, o Itaú Ventures busca atuar como facilitador de negócios entre a Minter e empresas do setor elétrico. A ideia é acelerar parcerias e ampliar a adoção da tecnologia.
Essa estratégia reflete uma mudança no posicionamento do corporate venture capital, que passa a priorizar sinergias práticas entre startups e clientes corporativos.
A iniciativa também está alinhada à agenda de inovação do Itaú Unibanco, que pretende investir cerca de R$ 200 milhões em novos projetos até meados do ano, focando empresas em estágios série A e B.
Impactos para o futuro da energia no Brasil
A proposta da Minter dialoga diretamente com um dos principais desafios da transição energética: equilibrar produção e consumo em um sistema cada vez mais descentralizado e intermitente.
Eficiência e sustentabilidade
Ao reduzir o desperdício de energia, a solução contribui para aumentar a eficiência do sistema elétrico e melhorar o retorno sobre investimentos em geração renovável.
Nova dinâmica de mercado
Além disso, abre espaço para novos modelos de negócio, em que energia e tecnologia se integram de forma mais dinâmica. A monetização do excedente pode se tornar um diferencial competitivo para geradoras.
Oportunidade de escala
Com perdas estimadas em gigawatts, o mercado potencial é significativo. Se bem-sucedida, a estratégia pode transformar o Brasil em referência global na integração entre energia limpa e infraestrutura digital.
Conclusão
O investimento na Minter evidencia uma mudança importante no setor energético brasileiro: a busca por soluções inovadoras para desafios estruturais. Ao transformar desperdício em oportunidade, os data centers móveis surgem como uma alternativa promissora para aumentar a eficiência e a rentabilidade da geração renovável.
Com apoio de grandes investidores e um modelo escalável, a startup pode desempenhar papel relevante na evolução do mercado — conectando energia, tecnologia e sustentabilidade em uma nova lógica de crescimento econômico.
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