As taxas dos contratos futuros de juros (Depósitos Interfinanceiros – DIs) fecharam em queda nesta segunda-feira, 9 de junho, refletindo tanto o recuo nos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) quanto a repercussão das novas medidas fiscais anunciadas pelo governo Lula para conter o déficit público.
Juros futuros recuam com atenção do mercado ao noticiário fiscal
Os juros dos DIs fecharam em queda com o recuo dos Treasuries e expectativas sobre o pacote fiscal do governo Lula. Veja os impactos no mercado.
A sessão foi marcada por volatilidade, mas terminou com sinal predominante de alívio, especialmente nos contratos mais longos.
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Segunda sessão consecutiva de queda

Esta foi a segunda sessão consecutiva de baixa nas taxas dos DIs, que já haviam recuado na sexta-feira anterior com a expectativa de um pacote fiscal mais estrutural por parte do governo federal. O comportamento do mercado revela cautela diante das incertezas fiscais, mas também uma tentativa de antecipar os possíveis desdobramentos sobre a política monetária do Banco Central.
Números do fechamento: taxas caem de forma generalizada
Principais vencimentos
Ao fim da sessão, os principais contratos futuros de juros apresentavam os seguintes resultados:
- DI para janeiro de 2026: 14,865% (queda de 5,3 pontos-base em relação ao ajuste anterior de 14,918%)
- DI para janeiro de 2027: 14,23% (baixa de 9,4 pontos-base frente aos 14,324%)
- DI para janeiro de 2031: 13,81% (ante 13,857%)
- DI para janeiro de 2033: 13,87% (ante 13,898%)
O recuo mais acentuado nas taxas a partir de 2027 demonstra que o alívio foi mais forte nos contratos longos, refletindo uma visão mais positiva sobre o médio prazo com base nas novas sinalizações fiscais.
Pacote fiscal em substituição ao aumento de IOF
Governo recua de elevação do IOF
Uma das razões centrais para o movimento de baixa nas taxas foi o anúncio, feito no fim de semana, de que o governo pretende recalibrar o decreto que aumentou o IOF no mês passado. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou ter chegado a um acordo com líderes do Congresso para substituir a medida por alternativas mais estruturais de arrecadação.
Novas medidas anunciadas
As propostas incluem:
- Cobrança de 5% de IR sobre títulos atualmente isentos, como:
- Letras de Crédito Imobiliário (LCI)
- Letras de Crédito do Agronegócio (LCA)
- Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI)
- Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA)
- Debêntures incentivadas
- Aumento de tributação sobre apostas online (bets): de 12% para 18% sobre o faturamento, após prêmios e IR
- Alíquota unificada de 17,5% de IR sobre aplicações financeiras, incluindo renda fixa e ações (atualmente varia entre 15% e 22,5%)
- Redução mínima de 10% nos incentivos tributários não previstos constitucionalmente
Apesar do impacto potencial das medidas, a falta de detalhes concretos e a necessidade de aprovação no Congresso deixaram os investidores em modo de espera.
Influência dos Treasuries no movimento
Rendimento dos Treasuries recua no exterior
Outro fator importante que contribuiu para a queda das taxas foi o recuo nos rendimentos dos Treasuries, especialmente os títulos de 10 anos — referência global para decisões de investimento. Às 16h45, o rendimento do título caía 2 pontos-base, a 4,488%.
Segundo Luciano Rostagno, estrategista-chefe da EPS Investimentos, esse movimento no exterior ajudou a aliviar a pressão nas taxas brasileiras.
“Tem um pouco de realização, porque na semana passada houve um movimento expressivo de alta. Com os Treasuries caindo, reduz a pressão”, afirmou.
Volatilidade e cautela dominam a sessão
Durante o dia, os contratos chegaram a oscilar fortemente, com picos de alta pela manhã, quando o dólar tocou os R$ 5,60, refletindo o excesso de ruído sobre o IOF e a falta de clareza sobre as medidas tributárias. No entanto, no período da tarde, os ativos migraram para o campo negativo.
Mercado atento à tramitação no Congresso
Parte do mercado se mostra cética quanto à viabilidade de algumas das propostas do pacote fiscal, especialmente no que se refere à unificação da alíquota do Imposto de Renda e à tributação de ativos antes isentos, como LCIs e LCAs.
“O impacto sobre os preços não foi tão claro, porque há ceticismo em relação à aprovação das mudanças no Congresso”, disse um analista ouvido pela Reuters.
Selic: mercado recalibra apostas para decisão do Copom
Reunião marcada para 17 e 18 de junho
Enquanto digere os desdobramentos fiscais, o mercado segue de olho na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorre nos dias 17 e 18 de junho. A dúvida persiste sobre a manutenção ou elevação da taxa básica de juros, atualmente em 14,75% ao ano.
Probabilidades atualizadas na B3
Na última sexta-feira, os derivativos de Copom negociados na B3 indicavam:
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- 69,00% de chances de aumento de 25 pontos-base na Selic
- 26,50% de probabilidade de manutenção da taxa
No dia 27 de maio, esses números eram praticamente invertidos: apenas 14,50% apostavam em alta, e 83,00% esperavam manutenção. A mudança de expectativa reflete o cenário mais volátil e a incerteza com relação à condução fiscal.
Foco do BC: flexibilidade e cautela
No sábado, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou que a autoridade monetária seguirá com postura flexível e cautelosa, absorvendo os dados até o último momento antes da decisão.
“Flexibilidade significa que vamos com as opções em aberto. Cautela significa que estamos em um ambiente de elevada incerteza”, declarou Galípolo.
Relatório Focus: projeções seguem estáveis
Enquanto o mercado ajusta as apostas, o Relatório Focus do Banco Central, divulgado nesta segunda-feira (10), manteve a projeção da Selic em 14,75% até o fim de 2025. Já a expectativa de inflação foi levemente revisada de 5,46% para 5,44%.
Essa relativa estabilidade no Focus contrasta com a volatilidade nos mercados futuros, mostrando que os economistas ainda veem pouca margem para novos apertos monetários, a menos que o cenário fiscal se deteriore ainda mais.
Impactos para o investidor

O que muda para aplicações em renda fixa?
Com o governo sinalizando tributação sobre LCIs, LCAs e CRIs, ativos antes considerados isentos e seguros podem perder atratividade, caso a proposta avance no Congresso. Já a unificação do IR pode beneficiar investidores de longo prazo, que hoje pagam mais imposto em aplicações curtas.
Ações e Tesouro Direto
A perspectiva de queda nas taxas de longo prazo pode beneficiar ativos como ações e títulos prefixados do Tesouro Direto. No entanto, a volatilidade ainda exige cautela, principalmente em papéis com vencimentos mais longos, que são mais sensíveis ao cenário macroeconômico.
Conclusão: queda nas taxas reflete alívio, mas cenário segue incerto
A baixa nas taxas dos DIs nesta segunda-feira reflete um momento de alívio temporário no mercado, impulsionado pela queda dos Treasuries e pela substituição do aumento do IOF por medidas fiscais mais estruturais.
No entanto, a falta de clareza sobre a implementação das propostas e as incertezas quanto à aprovação no Congresso mantêm o investidor em alerta.
Enquanto isso, as expectativas em torno da reunião do Copom e o comportamento do dólar seguirão como termômetros do apetite por risco nos próximos dias. Em um ambiente de incerteza elevada, a palavra de ordem é cautela — seja para o Banco Central, seja para os investidores.
