O Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF) rejeitou um pedido feito pelo empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, que buscava judicialmente impedir que fosse identificado publicamente como o “careca do INSS”.
Juiz nega ação de servidor apelidado de ‘Careca do INSS’
Justiça do DF nega pedido de Antonio Carlos Camilo Antunes para proibir uso do apelido "careca do INSS". Empresário é investigado na Operação Sem Desconto.
A decisão foi proferida no domingo, 18 de maio, pelo juiz José Ronaldo Rossato, da 6ª Vara Criminal, e repercutiu amplamente nas redes sociais e veículos de imprensa.
Antunes é um dos alvos da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), que investiga um suposto esquema bilionário de descontos indevidos de mensalidades associativas em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS.
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O que motivou o pedido do empresário

A defesa do empresário entrou com uma queixa-crime por calúnia, injúria e difamação contra os responsáveis por um site de notícias do Distrito Federal. O motivo: publicações que mencionaram o apelido “careca do INSS” e afirmavam que Antunes teria adquirido uma mansão em Trancoso, na Bahia, com dinheiro vivo.
Segundo os advogados, a veiculação dessas informações configuraria ofensa à honra, reputação e imagem do empresário, podendo ainda ser interpretada como sugestão indireta de lavagem de dinheiro, prática tipificada como crime.
A decisão da Justiça: liberdade de imprensa e interesse público
Ao analisar o caso, o juiz José Ronaldo Rossato considerou que as reportagens em questão tratavam de temas de interesse público, especialmente por envolverem recursos destinados à população idosa e de baixa renda, que compõem o principal grupo atingido pelo suposto esquema.
“As expressões utilizadas nas matérias jornalísticas, inclusive a alcunha ‘careca do INSS’, embora de gosto duvidoso, não se reveste, por si só, de carga ofensiva suficiente para configurar crime”, pontuou o magistrado em sua decisão.
A sentença também destaca que não houve imputação direta de crime ao empresário por parte dos jornalistas, apenas a exposição de fatos vinculados às investigações conduzidas pela Polícia Federal.
O que é a Operação Sem Desconto?
A Operação Sem Desconto foi deflagrada em abril de 2024 com o objetivo de desarticular um esquema fraudulento que teria causado prejuízos de cerca de R$ 6,3 bilhões aos cofres públicos entre os anos de 2019 e 2024.
Segundo a PF, milhares de aposentados e pensionistas do INSS foram alvo de descontos automáticos e não autorizados relacionados a mensalidades de associações e entidades de classe.
A investigação revelou a existência de convênios irregulares entre o INSS e organizações intermediárias, que atuavam como fachada para o desvio de valores por meio de cobranças não solicitadas diretamente nas folhas de pagamento dos beneficiários.
Envolvimento do empresário no caso
Embora ainda não tenha sido formalmente indiciado, Antonio Carlos Camilo Antunes aparece nos autos como um dos principais articuladores do esquema, segundo fontes ligadas à apuração. A alcunha “careca do INSS” teria surgido como forma de identificação informal entre os investigados e policiais envolvidos no caso.
Entre os indícios levantados pela PF, destacam-se:
- Movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada
- Aquisição de imóveis de alto padrão, incluindo a mansão em Trancoso/BA
- Participação em contratos suspeitos com entidades conveniadas ao INSS
A Polícia Federal já solicitou o quebra de sigilos bancário e fiscal de Antunes, além de buscas e apreensões em endereços ligados ao empresário e seus sócios.
Polêmica sobre apelidos em investigações

O uso de apelidos e codinomes em operações policiais não é novidade no Brasil. Expressões como “Rei do Gado”, “Barão do Pó” ou “Coronel do Aço” já foram usadas para identificar alvos de investigações, muitas vezes com objetivo de facilitar a comunicação interna entre agentes.
No entanto, o uso desses termos na mídia e em processos públicos levanta debates sobre os limites entre o direito à imagem e a liberdade de imprensa.
No caso do “careca do INSS”, o juiz ponderou que, embora a expressão possa ser considerada indelicada ou de gosto duvidoso, não houve dolo, nem uso difamatório intencional por parte dos jornalistas. A matéria, segundo ele, não induziu o leitor à crença de que o apelido fosse injurioso ou representasse uma acusação formal de crime.
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Entidades reagem à decisão
Reações da imprensa
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) publicou nota defendendo a liberdade de imprensa e a decisão da Justiça, ressaltando que “reportagens baseadas em documentos públicos e fatos apurados por órgãos oficiais não podem ser confundidas com ataques pessoais ou ofensas gratuitas”.
Reações da defesa de Antunes
A defesa do empresário criticou a sentença, alegando que a divulgação reiterada do apelido em veículos de comunicação compromete o direito à presunção de inocência e contribui para um “linchamento público prévio”. Os advogados estudam a possibilidade de entrar com recurso junto ao Tribunal de Justiça do DF ou ao STJ.
O que acontece agora?
O processo de investigação segue em curso na esfera criminal, enquanto a esfera cível pode ser acionada para disputas relacionadas à imagem e indenização. A Operação Sem Desconto ainda está em fase de instrução, com mais oitivas e análises de provas sendo realizadas.
Se confirmado o envolvimento de Antunes e de outras pessoas jurídicas ou físicas, o Ministério Público Federal poderá oferecer denúncia formal à Justiça Federal.
Considerações finais
O caso envolvendo o empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, apelidado de “careca do INSS”, lança luz sobre as fronteiras entre liberdade de expressão, direito à informação e proteção da imagem em contextos de investigação pública.
Ao rejeitar o pedido de proibição do uso do apelido, o Judiciário reforçou que a imprensa tem o direito de reportar fatos de interesse coletivo, especialmente quando se trata de apurações que envolvem desvios de recursos públicos e impacto direto sobre milhões de beneficiários do INSS.
Enquanto isso, a Operação Sem Desconto continua desvendando um dos maiores esquemas de fraudes já registrados contra aposentados e pensionistas no Brasil — e promete novos desdobramentos nos próximos meses. O caso segue como exemplo da importância da fiscalização, do controle social e da atuação conjunta entre imprensa, Judiciário e órgãos de investigação.
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