O mercado brasileiro de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) entrou em um período de cautela. Após um primeiro semestre marcado por poucas estreias e aumento da volatilidade nos mercados financeiros, bancos de investimento e empresas passaram a concentrar suas expectativas em 2027.
Retomada dos IPOs deve ficar para 2027, segundo projeção do Bradesco BBI
Mercado de IPOs adia novas estreias para 2027 e aposta em queda dos juros, recuperação do capital estrangeiro e melhora do cenário econômico.
A combinação de juros elevados, incertezas fiscais, menor participação de investidores estrangeiros e o ambiente político contribuiu para que diversos planos de abertura de capital fossem adiados. Enquanto isso, o mercado de capitais mantém alguma atividade por meio de ofertas subsequentes de ações (follow-ons) e operações de fusões e aquisições (M&A), consideradas alternativas mais adequadas ao cenário atual.
Segundo projeções do Bradesco BBI, caso o ambiente macroeconômico evolua de forma favorável, o Brasil poderá registrar entre cinco e dez IPOs em 2027, marcando o início de uma nova fase para o mercado de capitais.
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Por que os IPOs perderam força em 2026
O primeiro semestre de 2026 mostrou que abrir capital continua sendo um desafio para empresas brasileiras.
Embora algumas companhias tenham conseguido concluir suas ofertas, o volume ficou muito abaixo das expectativas existentes no início do ano.
Entre os fatores que explicam essa desaceleração estão:
- manutenção dos juros em níveis elevados;
- aumento da volatilidade dos mercados;
- incertezas sobre a política fiscal brasileira;
- redução do fluxo de investidores estrangeiros;
- ambiente eleitoral que aumenta a percepção de risco.
Esses elementos elevaram o custo de captação e reduziram o apetite dos investidores por novas empresas listadas na bolsa.
Apenas algumas empresas conseguiram estrear
Mesmo diante do cenário desafiador, três empresas conseguiram realizar ofertas públicas neste ano.
Duas delas optaram pelo mercado norte-americano:
- PicPay;
- Agibank.
Na B3, apenas a Compass concluiu sua abertura de capital.
O número reduzido de operações reforça o momento de seletividade vivido pelos investidores, que passaram a priorizar empresas consolidadas e modelos de negócios considerados mais previsíveis.
Bradesco BBI projeta retomada gradual em 2027

A expectativa do Bradesco BBI é de que o mercado volte a ganhar tração em 2027.
A instituição estima um potencial de cinco a dez IPOs, desde que haja melhora consistente das condições econômicas.
Segundo o banco, essa primeira onda deverá reunir empresas com características específicas:
- negócios resilientes;
- geração consistente de caixa;
- resultados previsíveis;
- ofertas entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões.
Companhias com essas características tendem a despertar maior interesse dos investidores em momentos de recuperação do mercado.
Queda dos juros será fator decisivo
Um dos principais elementos para a retomada das ofertas públicas será o comportamento das taxas de juros.
Na avaliação do mercado financeiro, a redução dos juros futuros depende de fatores como:
Ajuste das contas públicas
Investidores acompanham a trajetória fiscal do país para avaliar a sustentabilidade da dívida pública.
Maior previsibilidade econômica
Ambientes econômicos estáveis favorecem investimentos de longo prazo.
Confiança dos investidores
Quanto menor a percepção de risco, maior tende a ser o interesse por novas ofertas de ações.
Sem esses fatores, muitas empresas preferem adiar seus planos de abertura de capital para buscar avaliações mais favoráveis.
Follow-ons ganham espaço no mercado
Enquanto os IPOs seguem escassos, as ofertas subsequentes de ações, conhecidas como follow-ons, continuam movimentando o mercado.
Diferentemente do IPO, o follow-on ocorre quando uma empresa que já possui ações negociadas em bolsa realiza uma nova emissão ou oferta de papéis.
Essa modalidade costuma apresentar menor risco para investidores, já que envolve empresas conhecidas pelo mercado.
Entre as companhias que anunciaram operações recentes estão:
- Engie;
- Isa Energia.
Com essas operações, a expectativa é que o número de follow-ons alcance cerca de dez neste ano, superando o volume registrado em 2025.
Empresas resilientes seguem atraindo investidores
Mesmo em períodos de maior cautela, alguns setores continuam despertando interesse.
As chamadas utilities — empresas que atuam em segmentos essenciais da economia — permanecem entre as favoritas do mercado.
Entre elas estão companhias ligadas a:
- energia elétrica;
- saneamento;
- transmissão de energia;
- infraestrutura.
Esses negócios costumam apresentar receitas mais estáveis e previsíveis, característica valorizada em momentos de incerteza econômica.
Capital estrangeiro diminuiu, mas ainda mantém saldo positivo
Outro fator importante para o mercado de capitais foi a redução do fluxo de investidores estrangeiros ao longo dos últimos meses.
Parte desses recursos migrou para empresas globais ligadas à inteligência artificial e tecnologia, especialmente nos Estados Unidos.
O crescimento acelerado desse segmento aumentou o interesse por grandes operações internacionais envolvendo companhias de alta tecnologia.
Apesar desse movimento, o saldo de investimentos estrangeiros na bolsa brasileira permaneceu positivo até junho, alcançando R$ 33,4 bilhões.
Embora o valor represente uma desaceleração em relação ao pico registrado anteriormente, ele demonstra que investidores internacionais continuam mantendo exposição ao mercado brasileiro.
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Brasil ainda pode ganhar espaço entre mercados emergentes
Especialistas avaliam que o Brasil continua apresentando potencial para ampliar sua participação nas carteiras de fundos internacionais especializados em mercados emergentes.
Atualmente, a participação média dos ativos brasileiros nesses fundos permanece abaixo dos níveis históricos.
Caso o cenário econômico apresente melhora consistente, parte desse capital poderá retornar ao país, impulsionando:
- novas ofertas públicas;
- valorização das ações;
- aumento da liquidez da bolsa;
- crescimento do mercado de capitais.
Além disso, movimentos de realocação de recursos entre diferentes países emergentes podem beneficiar o mercado brasileiro.
Mercado de fusões e aquisições segue aquecido
Enquanto os IPOs desaceleram, o mercado de fusões e aquisições (M&A) continua registrando forte atividade.
Segundo especialistas do Bradesco BBI, diversos segmentos permanecem atraindo investidores estratégicos.
Entre eles destacam-se:
Infraestrutura
Projetos relacionados a:
- data centers;
- portos;
- linhas de transmissão;
- logística.
Esses ativos continuam sendo considerados estratégicos devido ao crescimento da demanda por infraestrutura digital e energética.
Commodities
Empresas ligadas aos setores de mineração, energia e agronegócio seguem despertando interesse tanto de investidores nacionais quanto internacionais.
Reestruturação financeira
Outro movimento observado envolve empresas que buscam reduzir seu nível de endividamento por meio da venda de ativos.
Esse processo permite fortalecer o caixa e melhorar indicadores financeiros.
Grupos como Cosan e CSN realizaram operações desse tipo como parte de suas estratégias de reorganização financeira.
O que precisa acontecer para o mercado voltar a crescer
A retomada consistente das aberturas de capital dependerá da combinação de diferentes fatores.
Entre os principais estão:
- redução das taxas de juros;
- estabilidade fiscal;
- inflação sob controle;
- crescimento econômico;
- maior entrada de capital estrangeiro;
- ambiente político previsível;
- fortalecimento da confiança dos investidores.
Quando esses elementos convergem, o mercado costuma registrar aumento no número de empresas interessadas em acessar a bolsa para financiar sua expansão.
Crédito: Reprodução Adobe Stock
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