O mercado financeiro iniciou esta segunda-feira (9) sob impacto das medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para compensar a suspensão do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Após uma semana de pressões políticas e instabilidade no ambiente econômico, as novas propostas incluem tributação sobre empresas de apostas esportivas — conhecidas como “bets” — e o fim da isenção de Imposto de Renda sobre determinados títulos de renda fixa, como LCI e LCA.
Mercado desaba após decisão sobre IOF — veja por que a proposta decepcionou
Medidas anunciadas por Haddad para substituir alta do IOF geram reação negativa no mercado. Especialistas cobram reformas estruturais!
Apesar de o governo apresentar as medidas como alternativas viáveis, a reação do mercado foi marcada por frustração e ceticismo, segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil. Economistas e analistas apontam que as soluções apresentadas evitam o enfrentamento do problema central das contas públicas: os gastos do governo.
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A origem da crise: aumento do IOF e pressão do Congresso
A ideia inicial da equipe econômica era elevar o IOF para reforçar o caixa federal e financiar políticas públicas sem precisar alterar o arcabouço fiscal. No entanto, a medida enfrentou forte resistência de líderes partidários e setores econômicos, forçando Haddad a recuar.
Diante da pressão, a Câmara dos Deputados estabeleceu um prazo de 10 dias para a Fazenda apresentar novas alternativas. A expectativa do mercado era de que esse movimento abrisse espaço para reformas estruturantes ou corte de gastos, mas as propostas divulgadas no domingo (8) foram vistas como meras substituições tributárias.
“Trocamos o imposto A pelos impostos B, C e D. A origem do problema, que é cortar gastos e fazer reformas, não foi tocada”, criticou o economista-chefe da Way Investimentos, Alexandre Espírito Santo, em entrevista à CNN.
As medidas anunciadas por Haddad
1. Fim da isenção para rendimentos de LCI, LCA e outros títulos
Uma das medidas mais debatidas é a instituição de uma alíquota de 5% de IR sobre os rendimentos de Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA), que hoje são isentas. A mudança está prevista para vigorar a partir de 2026 e afetará a rentabilidade desses títulos, amplamente utilizados por investidores de perfil conservador.
2. Tributação de empresas de apostas esportivas
Outra frente é o endurecimento da tributação sobre empresas de apostas, especialmente as que operam com plataformas digitais de “bets”, hoje sob regime tributário mais leve. A estimativa do governo é arrecadar bilhões com esse segmento, que movimenta altos volumes de dinheiro e tem crescimento acelerado no Brasil.
Reação do mercado: frustração com ausência de cortes de gastos
Apesar da intenção do governo de apresentar soluções de curto prazo, o mercado financeiro reagiu com desconfiança. O estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, afirmou que faltou ousadia para atacar o principal problema fiscal do país: os gastos excessivos.
“Mais uma vez, não vimos nenhuma medida que ataque a estrutura dos gastos públicos. Era esperado algo mais robusto, ao menos no discurso”, avaliou.
Efeito sobre a inflação e juros
Por outro lado, há quem veja nas medidas um efeito colateral positivo para o controle inflacionário. O aumento da carga tributária tende a frear o consumo e a atividade econômica, o que pode facilitar o trabalho do Banco Central na manutenção da inflação dentro da meta.
“O aumento de impostos tem impacto monetário. Ele reduz a propensão ao consumo, o que pode ajudar o BC a conter a inflação sem subir ainda mais os juros”, explicou Cruz.
O papel do Congresso e os limites políticos

Após o anúncio, ficou evidente que o ministro Fernando Haddad enfrenta dificuldades para aprovar reformas profundas, devido à falta de apoio político consistente no Congresso Nacional. O colunista do CNN Money, Gilvan Bueno, relembrou as seguidas derrotas e recuos da equipe econômica desde o segundo semestre de 2023.
“Desde novembro, Haddad não conseguiu êxito nas suas principais propostas. A isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, por exemplo, não se sustentou. O IOF foi vetado. Agora, troca-se um imposto por outros. Ainda que haja esforço, as limitações são claras”, apontou.
Avaliação técnica das medidas
Potencial de arrecadação
As medidas têm potencial arrecadatório significativo, especialmente com a taxação das bets. Estima-se que a tributação do setor de apostas possa render até R$ 15 bilhões por ano aos cofres públicos. Já a taxação das LCIs e LCAs, embora menor, busca ampliar a base tributária sem atingir diretamente a classe média baixa.
Impacto sobre investimentos
A tributação de renda fixa pode gerar desestímulo à aplicação em produtos como LCI e LCA, forçando bancos a oferecer taxas maiores para manter a atratividade dos títulos. Isso pode aumentar o custo de captação para os setores imobiliário e agropecuário, com reflexos indiretos na economia real.
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Complexidade legislativa
Todas as medidas precisam passar pelo Congresso, mesmo se editadas por medida provisória, o que pode prolongar a tramitação e abrir espaço para alterações no texto. Com isso, o efeito prático pode ser limitado no curto prazo, especialmente se houver judicializações ou vetos.
Como o investidor deve reagir
Monitorar ativos de renda fixa
Com a perspectiva de tributação das LCIs e LCAs a partir de 2026, o investidor deve avaliar novas aplicações ainda em 2025, aproveitando a vantagem tributária enquanto vigente. Também será essencial comparar alternativas de renda fixa, como CDBs, Tesouro Direto e debêntures incentivadas, que têm diferentes regras de IR.
Diversificação e liquidez
Especialistas reforçam a importância da diversificação de ativos, especialmente em momentos de incerteza fiscal. Investidores devem priorizar ativos líquidos e com proteção do FGC, além de manter uma reserva de emergência sólida.
Projeções para os próximos meses

O mercado seguirá atento à tramitação das propostas no Congresso e ao impacto que as medidas terão nas projeções fiscais. Caso o governo consiga aprovar as mudanças sem maiores resistências, isso pode melhorar o nível de confiança dos investidores. No entanto, sem reformas de maior profundidade, o cenário de médio prazo continua preocupante.
O desafio da sustentabilidade fiscal
A meta de zerar o déficit primário em 2025 continua sendo um dos maiores desafios da equipe econômica. A simples troca de fontes de arrecadação pode não ser suficiente se os gastos não forem reduzidos ou racionalizados.
“O mercado quer clareza sobre o compromisso com a responsabilidade fiscal. Substituir imposto por imposto não resolve o problema”, sintetizou Alexandre Espírito Santo.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
