Um experimento realizado pela Anistia Internacional Brasil identificou falhas no sistema de moderação de anúncios da Meta, empresa responsável pelo Facebook, antes das eleições de 2026. A organização submeteu 15 anúncios pagos em português, direcionados a brasileiros em idade de votar, sendo 14 com conteúdo de desinformação eleitoral e um material neutro.
Segundo o levantamento, oito dos anúncios com conteúdo desinformativo foram aceitos pela plataforma para veiculação futura. Os outros sete — incluindo o anúncio neutro — foram encaminhados para verificação de identidade por serem classificados como relacionados a questões sociais, eleições ou política, e não especificamente por apresentarem informações falsas.
Nenhum dos materiais chegou a ser exibido aos usuários. A Anistia programou os anúncios para uma data futura justamente para conseguir cancelar as campanhas depois de testar os mecanismos de revisão da plataforma.
O resultado coloca em discussão a capacidade das plataformas digitais de impedir campanhas de desinformação durante um período eleitoral especialmente sensível. O primeiro turno das eleições gerais de 2026 está marcado para 4 de outubro.
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Como foi realizado o teste da Anistia Internacional

A organização criou anúncios fictícios baseados em narrativas eleitorais que circulavam nas redes sociais brasileiras. Para construir o material, os pesquisadores analisaram conversas online, manifestações de opinião e conteúdos publicados em português no Facebook e no X entre janeiro e maio de 2026.
Os 15 anúncios foram escritos em português brasileiro e direcionados exclusivamente à população brasileira com idade para votar, a partir dos 16 anos.
Dos materiais submetidos, 14 continham desinformação e um tinha conteúdo neutro. A própria Anistia explica que utilizou o termo “desinformação” para manter a nomenclatura empregada em sua análise, enquanto o experimento foi construído considerando a definição de “informação falsa ou imprecisa” prevista nas políticas da Meta.
Os anúncios foram enviados por contas específicas de pesquisa, e não por perfis pessoais. A conta utilizada também não havia concluído o processo de confirmação de identidade da Meta, uma decisão tomada pelos pesquisadores para evitar que o histórico da conta interferisse no resultado do teste.
Oito anúncios passaram pelo sistema
O resultado chamou atenção porque oito dos anúncios desinformativos foram aprovados para publicação futura.
Os outros sete foram sinalizados para verificação de identidade. Isso significa que não foram rejeitados especificamente porque continham desinformação eleitoral, segundo a Anistia. A justificativa apresentada estava relacionada ao fato de os materiais tratarem de questões sociais, eleições ou política.
A distinção é relevante porque o teste pretendia justamente verificar se o sistema conseguiria identificar o conteúdo problemático antes que ele chegasse ao público.
A Anistia afirma que todos os anúncios, com exceção do material neutro, violavam a política da Meta relacionada à desinformação e à interferência no processo eleitoral.
Que tipo de desinformação foi usada nos anúncios?
Os conteúdos foram elaborados a partir de três estratégias recorrentes em campanhas que podem enfraquecer a confiança nas instituições democráticas.
A primeira foi a deslegitimação eleitoral, com mensagens destinadas a colocar em dúvida a segurança das eleições, do sistema de votação ou dos resultados.
A segunda foi a construção de um inimigo, apresentando adversários políticos ou instituições como ameaças ao país ou como atores ilegítimos.
A terceira estratégia foi classificada pela organização como autoritarismo centrado na segurança, que associa força, intervenção militar ou regimes autoritários à solução de problemas relacionados à criminalidade ou à instabilidade política.
Sete anúncios apresentavam alegações deliberadamente enganosas sobre candidatos e instituições eleitorais, incluindo acusações de fraude e questionamentos sobre a integridade da votação.
Outros sete continham informações falsas capazes de interferir diretamente na capacidade de uma pessoa votar, como dados incorretos sobre quando votar, como votar ou quais candidatos disputariam o pleito.
Anúncios que defendiam intervenção militar também foram aceitos
Um dos resultados considerados mais preocupantes pela Anistia envolveu anúncios com conteúdo militarista e contrário ao funcionamento democrático.
De acordo com o experimento, três dos quatro anúncios desse grupo foram aceitos pelo Facebook. As peças defendiam, por meio de informações falsas, a possibilidade de uma intervenção militar ou apresentavam a força como solução para problemas políticos e de segurança.
O levantamento também encontrou uma diferença na capacidade de moderação conforme o tipo de mensagem. Segundo a Anistia, os sistemas foram mais eficazes para identificar anúncios que apresentavam adversários políticos como criminosos, traidores ou agentes ilegítimos. Cinco dos sete anúncios classificados nessa categoria foram rejeitados.
Para a organização, a diferença sugere que o mecanismo pode apresentar níveis distintos de eficácia dependendo da narrativa utilizada.
Por que o fato de os anúncios não terem sido publicados é importante?
Apesar da falha identificada no processo de moderação, os anúncios não chegaram ao público.
A Anistia programou todas as peças para uma data futura. Com isso, a organização conseguiu acompanhar o resultado da análise da plataforma e cancelar os anúncios antes da publicação. A estratégia foi adotada justamente para evitar que o experimento provocasse a circulação real de desinformação eleitoral.
Portanto, o experimento não demonstra que usuários do Facebook tenham sido expostos àquelas peças específicas.
O que o teste demonstra, segundo a organização, é que determinados conteúdos que deveriam ser barrados pelas políticas declaradas da plataforma conseguiram passar pelo processo de análise de anúncios.
Anúncios puderam ser enviados de fora do Brasil
Outro ponto levantado pela Anistia Internacional diz respeito à localização dos pesquisadores.
Os responsáveis pelo experimento não estavam fisicamente no Brasil quando enviaram os anúncios. O material foi submetido a partir de Londres, sem utilização de VPN, ferramenta que poderia mascarar a localização real do usuário.
Para a organização, isso cria uma preocupação adicional: a possibilidade de atores localizados fora do país utilizarem mecanismos semelhantes para tentar influenciar processos eleitorais brasileiros.
A questão ganha relevância porque campanhas digitais podem alcançar públicos específicos por meio de publicidade segmentada, permitindo que mensagens políticas sejam direcionadas a determinados grupos de usuários.
O que a Meta diz sobre o experimento?
A Meta contestou as conclusões da Anistia Internacional.
Em resposta à Agência Brasil, a empresa afirmou que o relatório foi baseado em uma amostra muito pequena de anúncios que nunca foram publicados nem visualizados por usuários. A companhia também disse que o resultado não representa a dimensão de seu trabalho de moderação.
Segundo a Meta, seu processo de análise de anúncios possui diferentes camadas de detecção e revisão, que funcionam antes e depois da publicação.
A empresa também afirmou que está destinando recursos para proteger o processo eleitoral brasileiro de 2026, incluindo medidas relacionadas à transparência publicitária e protocolos específicos para anúncios sobre questões sociais, eleições e política.
Em uma página publicada pela própria companhia, a Meta afirma que anúncios políticos e eleitorais no Brasil precisam passar por verificação de identidade do anunciante e conter identificação sobre quem pagou pela publicidade. A empresa também mantém uma Biblioteca de Anúncios com informações sobre esse tipo de conteúdo.
Como funcionam as regras para anúncios eleitorais no Brasil?
A publicidade eleitoral na internet é submetida a regras específicas da Justiça Eleitoral.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) utiliza como principal referência a Resolução nº 23.610/2019, atualizada para as eleições de 2026 pelas Resoluções nº 23.732/2024 e nº 23.755/2026.
A regulamentação estabelece medidas para combater conteúdos falsos ou gravemente descontextualizados que possam prejudicar a integridade do processo eleitoral.
A legislação eleitoral também prevê regras específicas para conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial. Em determinadas situações, o responsável deve informar de maneira explícita que o material foi fabricado ou manipulado com tecnologia desse tipo.
A norma também proíbe conteúdos fabricados ou manipulados para divulgar fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados com potencial para causar danos ao equilíbrio da eleição ou à integridade do processo eleitoral.
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O que muda para o eleitor?
Para o eleitor, o principal efeito é a necessidade de atenção redobrada durante o período eleitoral.
Anúncios pagos podem alcançar públicos específicos e aparecer no feed como publicidade. O fato de uma mensagem estar sendo exibida em uma plataforma conhecida não significa que as informações apresentadas sejam verdadeiras.
Informações sobre data da votação, candidatos, locais de votação, regras eleitorais e funcionamento das urnas devem ser conferidas em canais oficiais da Justiça Eleitoral.
A própria Meta afirma que, para as eleições de 2026, mantém parceria com o TSE e participa do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral. A empresa também informa que disponibiliza canais para denúncias e pretende divulgar informações oficiais do TSE aos usuários brasileiros.
O experimento prova que a Meta permite desinformação eleitoral?
Não é possível tirar essa conclusão de forma ampla apenas a partir do teste.
O experimento encontrou oito anúncios desinformativos aceitos em uma amostra de 14 anúncios falsos, mas a quantidade de peças analisadas é pequena diante do volume de publicidade processado pela plataforma.
Além disso, os anúncios nunca foram publicados e, portanto, o teste não permite medir quantos usuários teriam sido alcançados ou qual seria o impacto real sobre o comportamento eleitoral.
O que os resultados sustentam é uma conclusão mais específica: o sistema de moderação testado não identificou como desinformação eleitoral mais da metade das peças falsas submetidas pela Anistia, embora a própria Meta conteste a capacidade do experimento de representar seu sistema em escala.
Essa diferença é fundamental para interpretar corretamente o levantamento.
Por que o caso preocupa antes das eleições de 2026?
O primeiro turno das eleições gerais está marcado para 4 de outubro de 2026, o que coloca as plataformas digitais sob maior pressão para impedir a circulação de conteúdos capazes de interferir no processo eleitoral.
A preocupação não está apenas na existência de informações falsas, mas na possibilidade de que elas sejam transformadas em publicidade e direcionadas a públicos específicos.
No caso analisado pela Anistia, o problema ganhou uma dimensão adicional porque parte das mensagens testadas envolvia ataques à credibilidade das eleições e defesa de soluções autoritárias.
A organização considera que a possibilidade de enviar anúncios de fora do país amplia o risco de campanhas coordenadas por atores nacionais ou estrangeiros.
O que acontece agora?

A Anistia Internacional informou que procurou a Meta em 21 de julho de 2026, antes da publicação dos resultados, para solicitar uma resposta sobre as falhas identificadas e questionar se os sistemas da empresa seriam suficientes para identificar, avaliar e reduzir riscos relacionados aos direitos humanos. Na data de divulgação do relatório, a organização afirmou que ainda não havia recebido resposta.
A Meta posteriormente se manifestou publicamente, contestando a representatividade da pesquisa e defendendo que seus mecanismos possuem várias etapas de análise.
O episódio deve continuar sendo acompanhado à medida que a campanha eleitoral avance. Para os eleitores, a recomendação mais segura é conferir informações políticas e eleitorais diretamente em fontes oficiais antes de compartilhar ou tomar decisões com base em conteúdos vistos nas redes sociais.
Conclusão
O experimento da Anistia Internacional identificou uma vulnerabilidade específica no processo de moderação de anúncios do Facebook: 8 dos 14 anúncios que continham desinformação eleitoral foram aceitos para publicação futura.
Os materiais não chegaram a ser veiculados porque a organização os programou antecipadamente e cancelou as campanhas antes da data prevista. Ainda assim, o resultado levantou dúvidas sobre a capacidade dos mecanismos automatizados de identificar determinadas formas de desinformação.
A Meta contesta a representatividade do teste e afirma utilizar diferentes camadas de análise para proteger as eleições brasileiras.
Com as eleições de 2026 se aproximando, o caso reforça uma orientação prática para o eleitor: conteúdos políticos encontrados nas redes sociais, principalmente aqueles que tratam de votação, candidatos, urnas ou acusações de fraude, devem ser conferidos antes de serem considerados verdadeiros ou compartilhados.



