A votação da medida provisória (MP) que altera a tributação de ativos financeiros e amplia a taxação de setores como bets e fintechs foi novamente adiada. O texto, considerado essencial pela equipe econômica para fechar as contas públicas em 2025 e 2026, seria votado nesta quinta-feira (2), mas foi remarcado para a próxima terça-feira (7), véspera do fim do prazo de vigência da MP.
Governo vê dificuldade de tempo, mas mantém expectativa de aprovação da MP do IOF
Votação da MP sobre tributação de ativos é adiada, mas governo aposta em aprovação para garantir arrecadação e cumprir metas fiscais.
A mudança no calendário ocorre em meio à resistência da bancada ruralista e de setores do mercado financeiro, contrários especialmente à taxação de produtos antes isentos, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCI).
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Estratégia política: adiamento interessou também ao Planalto
Apesar da pressão do calendário, interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que o adiamento também foi uma estratégia do governo. A justificativa é que os últimos dias foram dominados pela articulação em torno da votação que ampliou a isenção do Imposto de Renda para rendimentos até R$ 5 mil, aprovada nesta quarta-feira (1º).
Com a pauta consumida por esse debate, o Planalto optou por ganhar tempo e tentar construir acordos sobre a MP até a próxima semana.
“Essa é uma matéria que a gente tem que priorizar”, afirmou a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, reforçando que a Fazenda negocia pontos sensíveis com o relator, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), e com líderes partidários.
Impacto fiscal: governo depende da MP para equilibrar contas
Arrecadação prevista com a MP
O Ministério da Fazenda projeta que a MP será capaz de arrecadar:
- R$ 10,5 bilhões ainda em 2025;
- R$ 20 bilhões em 2026.
Em conjunto com corte de incentivos fiscais
A MP é apenas uma das medidas que compõem a estratégia de ajuste fiscal. Junto ao projeto de lei que prevê a redução linear de 10% nos benefícios tributários, o governo espera:
- Arrecadar R$ 19,76 bilhões adicionais em 2026;
- Criar condições para cumprir a meta de resultado primário.
Metas fiscais em risco
- 2025: déficit projetado em R$ 30,2 bilhões, próximo ao limite inferior da meta, que permite rombo de até R$ 31 bilhões;
- 2026: necessidade de alcançar superávit de 0,25% do PIB, com tolerância até zero.
Sem a aprovação da MP, o espaço fiscal fica comprometido, aumentando a pressão sobre o governo em um ano de forte vigilância do mercado e de agências de rating.
O que muda com a MP: principais pontos
Alterações na tributação de ativos financeiros
A medida provisória foi desenhada para corrigir distorções e ampliar a base tributária sobre investimentos. Entre as mudanças:
- LCI e LCA passam a ter alíquota de 7,5%, em substituição à isenção atual;
- Fim da proposta de taxar debêntures incentivadas, CRAs e CRIs, após resistência do Congresso;
- Regras específicas para fundos exclusivos e estruturados;
- Aumento da taxação sobre apostas online (bets) e operações de fintechs.
Retrocesso em relação ao IOF
Originalmente, a Fazenda chegou a propor aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas recuou diante da resistência generalizada no Congresso. O desenho atual da MP é visto como um texto mais enxuto, mas ainda enfrenta fortes críticas de setores atingidos.
Resistências no Congresso

Bancada ruralista
A principal resistência vem da bancada ruralista, que se opõe à tributação de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). Parlamentares do setor alegam que a medida pode encarecer o crédito agrícola, afetando pequenos e médios produtores.
Setores financeiros
Representantes de bancos e entidades de mercado criticam a perda da isenção para LCI e LCA, afirmando que isso pode reduzir a atratividade desses instrumentos e afetar o financiamento imobiliário e agrícola.
Falta de consenso
Nos bastidores, líderes partidários afirmam que não há consenso suficiente para aprovação da MP. Embora o governo sustente que ainda há tempo, há ceticismo na própria base aliada.
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Posição do relator Carlos Zarattini
O relator, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), tem atuado em conjunto com o Ministério da Fazenda para ajustar o texto e reduzir resistências.
- Recuou da tributação de debêntures incentivadas, CRAs e CRIs;
- Elevou a alíquota para LCI e LCA em 7,5%, em busca de compromisso intermediário;
- Defende que a medida é fundamental para o equilíbrio das contas públicas.
“Estamos diante de uma matéria essencial para garantir a sustentabilidade fiscal e evitar cortes mais duros em áreas sociais”, afirmou Zarattini a interlocutores.
Repercussões no mercado
Bolsa e setores promissores
Apesar da polêmica, analistas destacam que a definição das regras tributárias traz previsibilidade ao mercado, um ponto considerado positivo. A expectativa é que setores mais bem posicionados na Bolsa — como energia renovável, saneamento e tecnologia — possam atrair investidores em meio à reorganização tributária.
Reação de investidores
Investidores aguardam a definição final do texto antes de recalibrar suas carteiras. A incerteza no curto prazo pressiona o mercado de crédito privado, mas especialistas avaliam que a tributação de 7,5% sobre LCI e LCA ainda é menor que em outros instrumentos, preservando parte da atratividade.
Perspectivas para a próxima semana

O desafio do prazo
A votação marcada para terça-feira (7) será a última chance de análise da MP antes de seu vencimento. Caso não seja votada até essa data, a medida caduca, criando um rombo adicional de bilhões de reais nas contas públicas.
Três cenários possíveis
- Aprovação com ajustes – Governo fecha acordo e garante aprovação de versão negociada, assegurando parte da arrecadação;
- Rejeição tácita – MP perde validade e governo precisa buscar alternativa legislativa emergencial;
- Novo texto – Possibilidade de envio de projeto de lei complementar, com tramitação mais lenta e riscos fiscais imediatos.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
