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Funcionários do Nubank publicam carta-manifesto contra mudança no trabalho

Funcionários do Nubank divulgam carta contra o fim do home office e as demissões por justa causa. Sindicato cobra diálogo e reversão da medida.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Nubank Freepik e Canva.zip 6

Cerca de 300 funcionários do Nubank participaram de uma plenária virtual organizada pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, na noite desta quarta-feira (12), para protestar contra as recentes demissões e a decisão unilateral da fintech de encerrar o regime de trabalho 100% remoto.

Durante o encontro, foi lida uma carta-manifesto assinada por colaboradores de diferentes áreas da empresa, exigindo a reversão da política de retorno ao escritório (RTO) e a recontratação de 14 empregados demitidos por justa causa após manifestações internas contrárias à medida. O texto aponta retaliação, falta de diálogo e impacto negativo na diversidade e na qualidade de vida dos trabalhadores.

A mobilização reacende o debate sobre o modelo de trabalho no setor financeiro e lança luz sobre os conflitos entre inovação empresarial e direitos trabalhistas em uma das maiores fintechs do mundo.

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Mudança no modelo de trabalho: o que está em jogo

Do remoto ao híbrido obrigatório

O novo regime de trabalho do Nubank, anunciado em 6 de novembro, estabelece que a partir de julho de 2026, os funcionários deverão comparecer duas vezes por semana ao escritório. Já em janeiro de 2027, o número subirá para três dias presenciais por semana.

Até então, a política vigente permitia o comparecimento presencial de apenas uma semana por trimestre, o que consolidava o Nubank como um dos principais exemplos de trabalho remoto no setor bancário.

Segundo a empresa, cerca de 70% do quadro de funcionários será impactado pela nova política, com exceções para funções específicas e casos individuais que poderão ser analisados com base em critérios como performance, distância geográfica e responsabilidades familiares.

Auxílio para realocação

O Nubank anunciou também um programa de realocação geográfica, com suporte financeiro para quem precisar se mudar para trabalhar presencialmente. No entanto, segundo o manifesto, essa opção não contempla adequadamente os trabalhadores que vivem em cidades sem estrutura do banco, nem resolve as dificuldades enfrentadas por cuidadores familiares, pessoas com deficiência e trabalhadores neurodivergentes.

Demissões por justa causa geram indignação

14 desligamentos em um mês

O ponto mais polêmico do atual embate entre trabalhadores e empresa está na demissão de 14 profissionais por justa causa, em um curto intervalo de tempo.

Segundo o sindicato, 12 desses colaboradores foram desligados por se manifestarem contra o fim do trabalho remoto durante uma reunião com o CEO David Vélez. Outros dois teriam sido acusados de planejar a sabotagem de sistemas internos, o que não foi comprovado, segundo os organizadores da plenária.

A presidente do sindicato, Neiva Ribeiro, classificou os desligamentos como punições retaliatórias. Para ela, a postura do banco viola os princípios de liberdade de expressão e representa uma mudança grave na cultura da empresa:

“Esperamos que o Nubank esteja disposto a ouvir as reivindicações que serão apresentadas nas mesas de negociação. O sindicato não aceitará punições por manifestações legítimas.”

A carta-manifesto: principais pontos do documento

Rejeição ao retorno presencial

A carta lida durante a plenária, escrita por funcionários de todas as áreas do Nubank, incluindo Nu Pagamentos, Nu Invest, Nu Crypto, Nu Tech e outras, denuncia que o fim do home office foi decidido unilateralmente, sem diálogo ou consulta aos trabalhadores.

O documento alega que mais de 90% dos funcionários são contrários à medida, com base em dados da própria Chief People Officer da empresa, e aponta que nenhum estudo, dado ou justificativa objetiva foi apresentado pela gestão para embasar a mudança.

Defesa da diversidade e do trabalho remoto

Um dos principais argumentos é o de que o regime atual, com apenas uma semana presencial por trimestre, tem se mostrado eficaz para manter produtividade, inovação e coesão da equipe, além de preservar diversidade e bem-estar:

“Em poucos anos, o Nubank cresceu de 25 milhões para mais de 100 milhões de clientes, superando US$ 2 bilhões em lucro anual — e isso foi entregue por equipes remotas, diversas e comprometidas.”

A carta também reforça que o modelo remoto é essencial para garantir a permanência de trabalhadores com filhos, responsabilidades familiares, ou que vivem longe dos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Reivindicações centrais

Os autores do manifesto fazem dois pedidos principais:

  1. Reversão da política de RTO e abertura de uma mesa de negociação com o sindicato.
  2. Recontratação imediata dos funcionários demitidos por expressarem sua insatisfação com as mudanças.

O texto finaliza com um apelo à mobilização coletiva:

“Convocamos todes funcionários do Nubank a se somarem nessa luta.”

Sindicato promete novas mobilizações e reunião com o banco

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O sindicato anunciou que pretende realizar novas plenárias e já tem agendada uma reunião com a direção do Nubank para o dia 19 de novembro. O objetivo, segundo o dirigente Marcelo Gonçalves, é retomar o diálogo com foco em dois pontos centrais:

  • Rever o novo regime de trabalho;
  • Reverter as demissões por justa causa.

A secretária-geral Lucimara Malaquias também alertou os trabalhadores sobre os riscos de se organizarem por canais não oficiais:

“Os canais do sindicato são espaços seguros para denúncias. Muito cuidado com grupos no Telegram ou WhatsApp. Garantimos sigilo e proteção.”

O que diz o Nubank

Em nota enviada à imprensa, o Nubank afirmou que mantém um “diálogo aberto e transparente com todas as entidades representativas apropriadas”, mas não comentou diretamente os casos de demissão por justa causa.

A fintech também não respondeu sobre a eventual reversão da política de trabalho presencial nem forneceu justificativas técnicas para a decisão de encerrar o home office como padrão.

Impactos e contexto: o que o caso revela sobre o futuro do trabalho

Tendência global de retorno ao escritório

O movimento do Nubank segue uma tendência observada em grandes empresas de tecnologia e finanças ao redor do mundo, que têm revisto suas políticas de trabalho remoto após o pico da pandemia.

Corporativos como Amazon, Apple, Google e Meta também vêm exigindo maior presencialidade de seus colaboradores, alegando ganhos em colaboração, cultura organizacional e inovação. No entanto, essas decisões também têm sido contestadas por funcionários e avaliadas como causadoras de fuga de talentos.

O desafio do equilíbrio

O caso do Nubank revela os desafios de equilibrar os interesses da empresa com as novas expectativas dos trabalhadores, especialmente em setores altamente digitalizados, onde o trabalho remoto provou ser viável.

A fintech, que construiu sua imagem como símbolo de modernidade, diversidade e flexibilidade, pode ver sua reputação abalada caso não encontre caminhos de diálogo e consenso com seus colaboradores.

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

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Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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