A Oncoclínicas, uma das maiores redes de tratamento oncológico da América Latina, enfrenta uma crise financeira e societária que colocou suas decisões administrativas sob questionamento. Um grupo de médicos que se tornou acionista após vender suas clínicas à companhia quer esclarecimentos sobre a gestão, os gastos corporativos e o destino dos recursos recebidos ao longo dos últimos anos.
A dimensão da deterioração financeira chama a atenção. A empresa registrou lucro de R$ 312 milhões em 2023, mas encerrou 2025 com prejuízo de R$ 3,7 bilhões. A mudança no resultado aumentou a pressão por transparência e por medidas capazes de recuperar a saúde financeira do negócio.
Entre os pontos que os médicos pretendem investigar estão despesas com viagens do fundador e ex-presidente-executivo Bruno Ferrari, contratos imobiliários que resultaram em multas elevadas e operações financeiras envolvendo o banco Master.
A cobrança ocorre em um momento delicado para a companhia, que apresentou um pedido de recuperação extrajudicial em julho de 2026 para tentar renegociar compromissos financeiros e preservar suas atividades.
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Viagens corporativas estão entre os pontos questionados
Um dos principais alvos da iniciativa é o conjunto de despesas atribuídas a Bruno Ferrari durante o período em que comandou a empresa. Segundo as informações divulgadas sobre a notificação encaminhada pelos acionistas, os gastos com viagens entre 2023 e 2025 chegaram a R$ 57 milhões.
O montante inclui despesas em cartões corporativos, hospedagens em hotéis de luxo e deslocamentos em aeronaves particulares. Os médicos querem compreender a natureza desses desembolsos e verificar se os valores eram compatíveis com os interesses da companhia.
Ferrari, por sua vez, afirmou que as viagens foram autorizadas pelo conselho de administração e tinham objetivos profissionais, como encontros com investidores e parceiros internacionais. Ele também declarou que participava de compromissos ligados às operações e às parcerias comerciais da rede.
A apuração pretendida pelos acionistas não significa, por si só, que houve irregularidade. O objetivo é examinar documentos, contratos e decisões para esclarecer como os recursos foram utilizados e se os procedimentos de governança foram respeitados.
Contratos imobiliários também entram na investigação
Outro tema envolve contratos de construção e locação de imóveis adaptados às necessidades da empresa, conhecidos como built to suit. Nesse modelo, o imóvel é desenvolvido ou modificado para atender a um cliente específico, normalmente com condições contratuais mais rígidas do que as de um aluguel convencional.
Dois contratos relacionados a projetos em São Paulo e Belo Horizonte foram rompidos, gerando uma multa de R$ 210 milhões paga pela Oncoclínicas em 2025. Outros R$ 75 milhões teriam sido desembolsados em 2026.
Os médicos querem avaliar as condições desses acordos, os motivos que levaram ao encerramento e o impacto financeiro das decisões. Em uma companhia pressionada pela falta de caixa, pagamentos dessa magnitude ampliam a necessidade de justificar escolhas administrativas.
Relação com o banco Master aumenta as dúvidas

A participação do banco Master na história financeira da Oncoclínicas é outro ponto que desperta interesse dos acionistas. Em maio de 2024, a companhia recebeu um aporte de R$ 1,5 bilhão em uma operação que envolveu aumento de capital e recursos destinados ao fundador para ampliar sua participação acionária.
Segundo Ferrari, parte dos valores permaneceu aplicada em certificados de depósito bancário (CDBs) do próprio Master, com retiradas conforme a necessidade de investimentos. Ele também afirmou que a empresa chegou a aportar mais de R$ 1,2 bilhão e que houve tentativas de renegociar as condições quando surgiram dificuldades para recuperar os recursos investidos.
A relação ganhou relevância após a liquidação do banco, aumentando as preocupações sobre a disponibilidade dos valores e os efeitos sobre a situação financeira da rede de saúde.
Os questionamentos precisam ser analisados à luz dos documentos das operações e das demonstrações financeiras. A existência de negócios com uma instituição financeira que posteriormente enfrentou uma crise não comprova, isoladamente, irregularidade por parte da empresa ou de seus administradores.
Como a Oncoclínicas chegou à crise financeira
Fundada em Belo Horizonte, em 2010, a companhia cresceu por meio da aquisição de clínicas e da ampliação de sua presença no mercado de tratamento contra o câncer. A entrada de investidores institucionais e a abertura de capital, em 2021, ajudaram a financiar a expansão.
No IPO, a empresa captou R$ 3,8 bilhões. Parte dos recursos foi destinada aos acionistas, enquanto o restante permaneceu disponível para financiar investimentos e novas aquisições.
Nos anos seguintes, a estratégia incluiu a diversificação das atividades, com iniciativas no exterior e investimentos ligados à operação hospitalar. Conforme declarou Ferrari, esses projetos enfrentaram dificuldades operacionais e condições econômicas adversas, incluindo a pandemia, problemas no setor de planos de saúde e o aumento dos juros.
Em 2025, a companhia realizou outra operação de aumento de capital, de R$ 1,4 bilhão, formada majoritariamente pela conversão de debêntures em participação acionária. Apesar das tentativas de reforçar o balanço, o prejuízo bilionário evidenciou a dimensão dos desafios.
A sucessão de investimentos, despesas, obrigações contratuais e dificuldades de geração de caixa está no centro das perguntas que os acionistas pretendem esclarecer.
Recuperação extrajudicial e disputa societária
A Oncoclínicas funciona como uma corporation, modelo em que o capital é distribuído entre diversos investidores, sem necessariamente existir um acionista controlador com participação majoritária. Nesse cenário, a composição do conselho e as alianças entre acionistas podem ter influência decisiva sobre os rumos da empresa.
Além da cobrança dos médicos, a companhia enfrenta uma disputa com a gestora americana Centaurus relacionada à interpretação de regras de seu estatuto e à eventual realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA).
A controvérsia pode produzir consequências financeiras expressivas, dependendo do desfecho da arbitragem. No entanto, trata-se de uma disputa distinta das dúvidas sobre a gestão operacional e os gastos corporativos.
A recuperação extrajudicial, por sua vez, busca criar condições para renegociar dívidas com credores. Ela não representa automaticamente o encerramento das atividades, mas evidencia a necessidade de reorganizar compromissos financeiros e recuperar a capacidade de pagamento.
Foto: Reprodução / Oncoclínicas
