O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, deixou de ser apenas uma inovação financeira brasileira para entrar no centro de uma discussão comercial entre Brasil e Estados Unidos. O mecanismo, que revolucionou a forma como milhões de brasileiros fazem transferências e pagamentos, passou a ser citado em debates envolvendo a política comercial norte-americana e investigações que podem resultar em novas tarifas sobre produtos brasileiros.
A discussão ganhou força após representantes do setor de meios de pagamento dos Estados Unidos manifestarem preocupações sobre o crescimento do Pix. No entanto, especialistas defendem que as críticas não refletem o funcionamento do sistema e ignoram seus impactos positivos para a inclusão financeira, a concorrência e a digitalização da economia brasileira.
Um dos principais defensores dessa visão será o economista Gustavo Pessoa, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), que participará de uma audiência pública promovida pelo United States Trade Representative (USTR), órgão responsável pela política de comércio exterior dos Estados Unidos.
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Por que o Pix entrou na discussão entre Brasil e Estados Unidos?
A audiência faz parte das investigações conduzidas pelo governo norte-americano com base na chamada Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.
Esse instrumento é utilizado para avaliar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos e pode embasar a aplicação de medidas como tarifas adicionais sobre produtos importados.
No caso brasileiro, a investigação analisa diversos aspectos relacionados ao ambiente de negócios, incluindo o mercado de pagamentos eletrônicos.
Segundo Gustavo Pessoa, parte das críticas direcionadas ao Pix parte de interpretações equivocadas sobre os efeitos do sistema no mercado financeiro.
Especialista afirma que existem “falácias” sobre o Pix
Selecionado para participar da audiência, o economista afirma que pretende apresentar dados técnicos, sem representar empresas ou o governo brasileiro.
Seu principal argumento é que o crescimento do Pix não eliminou o espaço ocupado pelos cartões de crédito.
De acordo com o pesquisador, desde a criação do sistema de pagamentos instantâneos pelo Banco Central, o uso dos cartões de crédito continuou crescendo.
Segundo ele, houve um aumento de aproximadamente 60% nas operações com cartão de crédito, demonstrando que ambos os meios de pagamento passaram a coexistir.
Para o economista, isso mostra que não existe concorrência desleal entre as modalidades.
Pix ampliou a inclusão financeira no Brasil
Outro ponto que será apresentado durante a audiência é o papel do Pix na inclusão financeira.
Antes da chegada do sistema, milhões de brasileiros enfrentavam dificuldades para utilizar serviços bancários devido a tarifas elevadas, limitações tecnológicas ou baixa oferta de produtos financeiros.
Com transferências gratuitas para pessoas físicas e funcionamento ininterrupto, o Pix reduziu barreiras e ampliou o acesso ao sistema financeiro.
Segundo Gustavo Pessoa, essa inclusão gerou efeitos indiretos importantes.
Mais pessoas passaram a utilizar cartão de crédito
Ao ingressarem no sistema bancário, muitos consumidores também conseguiram acesso a outros produtos financeiros.
Entre eles estão:
- cartões de crédito;
- contas digitais;
- crédito pessoal;
- serviços financeiros online.
Isso permitiu, inclusive, que consumidores passassem a contratar plataformas internacionais de assinatura, como serviços de streaming e aplicativos digitais.
Na avaliação do economista, empresas norte-americanas também foram beneficiadas por essa expansão do acesso aos meios de pagamento.
O crescimento do Pix mudou o comportamento dos consumidores
Desde seu lançamento, em novembro de 2020, o Pix se consolidou como um dos meios de pagamento mais utilizados no país.
Dados do Banco Central mostram que o sistema movimenta bilhões de reais diariamente e já supera outros instrumentos tradicionais em quantidade de transações.
Uma característica importante é o perfil das operações.
Segundo Gustavo Pessoa, o valor médio das transações gira em torno de R$ 39, indicando que o sistema é amplamente utilizado para compras do dia a dia.
Entre os usos mais comuns estão:
- compras em supermercados;
- farmácias;
- transporte por aplicativo;
- pequenos comércios;
- pagamento entre pessoas físicas.
Essa característica reforça seu papel como ferramenta de democratização dos pagamentos eletrônicos.
Críticas sobre segurança também foram abordadas
Outro argumento frequentemente utilizado por críticos do Pix envolve o uso do sistema em fraudes financeiras.
Segundo Gustavo Pessoa, entretanto, essa visão desconsidera as medidas adotadas pelo Banco Central para reforçar a segurança do sistema.
Nos últimos anos, a autoridade monetária implementou diversas iniciativas, entre elas:
- limites para transferências em determinados horários;
- mecanismos de devolução de valores em casos específicos;
- monitoramento de transações suspeitas;
- aperfeiçoamento das ferramentas de prevenção a fraudes.
Embora golpes continuem ocorrendo, especialistas destacam que crimes financeiros também afetam outros meios de pagamento, como boletos, cartões e transferências bancárias tradicionais.
A preocupação com possíveis tarifas dos Estados Unidos
A participação de representantes brasileiros na audiência ocorre em um momento de preocupação para diversos setores da economia.
As investigações conduzidas pelo governo dos Estados Unidos podem servir de base para a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Segundo informações divulgadas durante o processo, algumas propostas analisam sobretaxas que poderiam chegar a 37,5% sobre determinadas importações.
Embora a audiência permita que especialistas apresentem argumentos técnicos, ainda não há garantia de que essas manifestações influenciarão a decisão final.
O economista afirmou que existe preocupação com a possibilidade de o Brasil sofrer sanções comerciais mesmo após apresentar sua defesa.
Um desafio futuro: quem pagará pela infraestrutura do Pix?
Além da discussão internacional, Gustavo Pessoa chamou atenção para outro tema que deverá ganhar relevância nos próximos anos: o financiamento da infraestrutura do Pix.
Atualmente, para a maior parte das pessoas físicas, o uso do sistema é gratuito.
Entretanto, manter uma plataforma que opera milhões de transações diariamente exige investimentos contínuos em tecnologia, segurança cibernética e processamento de dados.
O exemplo da Índia
O economista citou como referência o Unified Payments Interface (UPI), sistema de pagamentos instantâneos da Índia.
Considerado um dos maiores do mundo, o UPI movimenta um volume de operações cerca de quatro vezes superior ao registrado pelo Pix.
Apesar do enorme sucesso, especialistas apontam que o crescimento acelerado também elevou significativamente os custos de manutenção da infraestrutura, gerando debates sobre o modelo de financiamento.
Esse cenário pode servir como experiência para o Brasil discutir formas de garantir a sustentabilidade do Pix sem comprometer sua ampla utilização.
O papel do Banco Central

O Banco Central é responsável pela criação, operação e evolução do Pix.
Além de administrar toda a infraestrutura tecnológica, a instituição continua implementando melhorias para ampliar a segurança e criar novas funcionalidades.
Entre as inovações recentes estão recursos voltados para pagamentos recorrentes, novas modalidades de cobrança e mecanismos de proteção contra fraudes.
O objetivo é manter o sistema competitivo diante das constantes transformações do mercado financeiro global.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
