O Banco Central do Brasil lançou, em novembro de 2020, o Pix, sistema de pagamentos instantâneos que rapidamente se tornou popular entre brasileiros. Menos de um ano após sua implementação, mais de dois terços da população adulta já utilizava a plataforma, número que subiu para mais de 90% nos anos seguintes.
O Pix “matou” o Drex sem querer? Entenda a sugestão do BIS que mudou o real digital
Relatório do BIS sugere que o Pix contribuiu para o abandono do Drex, real digital brasileiro, ao reduzir demanda por pagamentos via blockchain.
O crescimento meteórico do Pix, gratuito para pessoa física e com custo reduzido para comerciantes, pode ter influenciado diretamente o abandono do Drex, projeto piloto de real digital, segundo análise do BIS (Bank for International Settlements).
O Drex foi concebido como uma CBDC (Central Bank Digital Currency) avançada, utilizando tecnologia blockchain para representar digitalmente o real. O objetivo era permitir pagamentos rápidos, seguros e baratos, tanto para consumidores quanto para empresas.
No entanto, o surgimento do Pix acabou suprindo muitas das necessidades do varejo, diminuindo a demanda para que o real digital fosse usado no dia a dia da população.
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O que é o Drex e por que foi criado
O Drex surgiu como uma iniciativa do Banco Central do Brasil para explorar o potencial de uma moeda digital oficial. Diferente das criptomoedas privadas, como Bitcoin ou Ethereum, o Drex seria lastreado pelo real, com regulação estatal, proporcionando segurança e confiança.
As principais metas do projeto incluíam:
- Transferências rápidas entre indivíduos e empresas;
- Pagamentos internacionais e domésticos mais eficientes;
- Redução de custos em comparação com sistemas tradicionais;
- Experimentação de blockchain como infraestrutura monetária.
O projeto piloto chegou a testar soluções de varejo, mas logo migrou para operações de atacado, como liquidação de títulos e transferências interbancárias, devido à ampla adoção do Pix entre consumidores comuns.
Pix e a popularização dos pagamentos instantâneos
Segundo o relatório do BIS, o sucesso do Pix foi determinante para reduzir a necessidade de uma CBDC voltada ao público em geral. A plataforma:
- É gratuita para pessoas físicas;
- Possui taxa média de 0,22% para comerciantes, muito abaixo dos 2,1% cobrados em cartões de crédito;
- Permite transferências instantâneas 24/7, inclusive finais de semana e feriados;
- É amplamente aceita em comércio físico e digital.
Com tais vantagens, o Pix supriu boa parte das lacunas que o Drex pretendia preencher, tornando a experiência do usuário mais simples e acessível sem necessidade de tecnologias adicionais como blockchain.
Comparativo internacional: CBDCs e sistemas tradicionais
A adoção do Pix coloca o Brasil em destaque no cenário global. Em muitos países, como Estados Unidos e União Europeia, o uso de cheques, dinheiro em espécie ou transferências eletrônicas tradicionais ainda predomina.
- Nos EUA, TEDs e ACHs são comuns, mas não oferecem a mesma instantaneidade;
- Na UE, transferências via SEPA são eficientes, mas o custo e o tempo ainda são superiores aos do Pix;
- Em contraste, o Pix oferece um modelo rápido, barato e seguro, minimizando a necessidade de tokenização digital do dinheiro para uso cotidiano.
Diante disso, a criação de uma CBDC de varejo, como o Drex, perdeu parte de sua relevância prática para a população.
Drex agora foca em soluções de atacado
Embora o Pix tenha limitado o uso do Drex no varejo, o projeto piloto não foi completamente abandonado. Atualmente, o real digital se concentra em operações de atacado, incluindo:
- Liquidação de títulos e pagamentos interbancários;
- Troca de ativos financeiros com maior segurança e rastreabilidade;
- Testes de eficiência e automação em sistemas financeiros complexos.
Essa mudança de foco permite que o Drex explore o potencial de CBDCs para instituições financeiras, enquanto o Pix atende diretamente consumidores e empresas.
Desafios enfrentados pelo Drex
O Drex encontrou barreiras naturais, que foram aceleradas pelo sucesso do Pix:
- Baixa adoção no varejo – a população já contava com Pix para transações rápidas;
- Custo e complexidade tecnológica – implementar blockchain em grande escala exige infraestrutura robusta;
- Concorrência de sistemas existentes – TED, DOC e Pix já resolviam grande parte das necessidades do mercado;
- Regulação e segurança – manter a integridade de uma CBDC exige normas rigorosas e monitoramento constante.
Esses fatores contribuíram para que o Drex migrasse do varejo para o segmento institucional, sem perder completamente seu propósito de inovação monetária.
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A visão do BIS sobre Pix e Drex
O Bank for International Settlements avaliou que o sucesso do Pix serviu como lição global: uma CBDC não necessariamente precisa ser lançada rapidamente se o sistema de pagamentos local já atende a população de maneira eficiente.
O relatório destaca:
- A adoção massiva de pagamentos instantâneos reduz a urgência de criar moeda digital de varejo;
- Sistemas de pagamento inovadores, como Pix, podem mitigar fraudes e custos, incentivando inclusão financeira;
- Países que ainda dependem de transferências lentas e caras podem se beneficiar da tokenização digital, mas devem avaliar custo-benefício.
O BIS sugere que experiências como a brasileira ajudam outros bancos centrais a entenderem a relação entre CBDCs e sistemas de pagamento existentes.
Perspectivas futuras para o real digital
Mesmo que o Pix tenha diminuído a demanda por uso do Drex no varejo, a CBDC brasileira ainda tem papel estratégico:
- Potencial para integração com pagamentos internacionais;
- Automatização e liquidação de títulos e derivativos;
- Ferramenta de inovação para instituições financeiras, promovendo maior eficiência e transparência;
- Possibilidade de expansão futura para uso de varejo, caso o Pix encontre limitações tecnológicas ou regulatórias.
Analistas apontam que a experiência do Brasil pode servir de modelo para outros países em desenvolvimento, que buscam modernizar sistemas financeiros sem abrir mão da inclusão social.
Considerações finais
O caso do Pix e Drex evidencia a importância de analisar o contexto local antes de lançar CBDCs voltadas para o varejo. O Brasil, com forte adoção de pagamentos instantâneos, demonstrou que uma solução simples, barata e eficiente pode atender à população melhor do que tecnologias complexas, ao menos no curto prazo.
O Drex, embora não tenha sido completamente abandonado, precisou se reposicionar para o segmento de atacado, aproveitando a tecnologia blockchain para fins específicos de mercado. Já o Pix continua consolidado como uma ferramenta essencial de inclusão financeira, mostrando que inovação e adoção rápida podem redefinir o futuro das moedas digitais.
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