A realidade de milhões de brasileiros que não têm os depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) feitos corretamente pelos empregadores acaba de ganhar um novo aliado: a plataforma FGND – Fundo de Garantia Não Depositado. Criada pelo Instituto Fundo de Garantia do Trabalhador (IFGT), a ferramenta digital já está disponível para uso gratuito por 15 dias e promete revolucionar o controle individual sobre o benefício.
Segundo o idealizador da iniciativa, Mário Avelino, presidente do IFGT, a proposta é colocar o trabalhador no centro da gestão do próprio FGTS, facilitando a identificação de irregularidades e oferecendo instrumentos para cobrança das empresas inadimplentes, seja por vias administrativas ou judiciais.
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O que é a plataforma FGND?
Gestão ativa do FGTS pelo trabalhador
A plataforma FGND foi desenvolvida com o objetivo de dar mais poder ao trabalhador na identificação e controle dos depósitos obrigatórios do FGTS. A sigla faz referência direta ao principal problema enfrentado por milhões de brasileiros: o não depósito dos valores devidos mensalmente pelos empregadores.
Através da FGND, é possível:
- Lançar manualmente salários que deveriam ter sido objeto de depósito;
- Emitir e imprimir extratos detalhados da conta vinculada ao FGTS;
- Consultar juros, correção monetária e eventuais participações nos lucros do fundo;
- Gerar documentação de cobrança contra empresas inadimplentes;
- Acompanhar ações para recuperação dos valores devidos.
Segundo Avelino, o trabalhador passa a ser o próprio fiscal do seu direito.
“A omissão no depósito do FGTS é uma violação grave e persistente da legislação trabalhista. Com a FGND, o empregado poderá reagir com dados concretos em mãos”, afirmou o presidente do IFGT.
Acesso gratuito por 15 dias
A ferramenta está disponível gratuitamente por um período inicial de 15 dias, durante os quais o trabalhador pode explorar todas as funcionalidades, cadastrar seus dados, consultar extratos e começar a montar seu histórico de contribuições — ou de ausência delas.
Após esse período, o acesso poderá exigir assinatura ou adesão a um plano, cujos detalhes ainda estão sendo definidos pela organização.
A dimensão do problema no Brasil
Cenário de informalidade e fraude
O lançamento da plataforma acontece em um momento de grave crise nas relações trabalhistas formais no país. Segundo levantamento recente, mais de 19 milhões de brasileiros estão em situação de informalidade, o que significa que não têm acesso a nenhum direito garantido pela CLT, incluindo o FGTS.
Entre 1,5 e 2 milhões de trabalhadores atuam como Pessoas Jurídicas (PJs) ou Microempreendedores Individuais (MEIs) em condições que configuram disfarce de vínculo empregatício — uma prática comum em fraudes contra a legislação.
Além disso, há cerca de 10 milhões de pessoas que recebem parte do salário por fora, em dinheiro vivo ou sem registro contábil, como forma de reduzir encargos. Essa prática, ilegal, oculta o real vínculo de trabalho e compromete diretamente o futuro desses trabalhadores.
Trabalhadores com carteira assinada também sofrem
Débitos ocultos em contratos formais
Mesmo entre os trabalhadores que possuem carteira assinada, o descaso com o FGTS é alarmante. Estima-se que entre 8 e 10 milhões de empregados formais não tenham os depósitos do FGTS realizados corretamente, seja por atrasos, omissões ou fraudes nos recolhimentos mensais.
Em 2024, mais de 2,1 milhões de ações trabalhistas foram ajuizadas no Brasil. Desse total, cerca de 500 mil ações tiveram como foco a falta de pagamento da multa de 40% do FGTS, devida em casos de demissão sem justa causa.
Dívidas bilionárias: mais de R$ 50 bilhões não foram depositados
Levantamento da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN)
Dados atualizados da PGFN, compilados em junho de 2025, mostram que 219.337 empresas estão inscritas na Dívida Ativa da União por inadimplência no recolhimento do FGTS.
Essas empresas devem, juntas, mais de R$ 50,4 bilhões ao fundo, afetando diretamente 11,7 milhões de trabalhadores. O número pode ser ainda maior quando se somam os casos de informalidade e fraudes não declaradas.
Mapa da inadimplência: onde estão os maiores devedores

Sudeste lidera em número de empresas devedoras
A Região Sudeste concentra a maior parte da dívida:
- 103.064 empresas inadimplentes
- Dívida acumulada: R$ 27,4 bilhões
- Trabalhadores afetados: cerca de 5,5 milhões
No estado de São Paulo, a situação é ainda mais crítica:
- 55.093 empresas devedoras
- R$ 17,3 bilhões em débitos
- Aproximadamente 3,4 milhões de trabalhadores atingidos
Nordeste acumula R$ 8,7 bilhões em dívidas
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- Bahia lidera com R$ 2,3 bilhões
- Seguido pelo Ceará, com R$ 1,4 bilhão
- Estima-se que 2,7 milhões de trabalhadores foram afetados na região
Sul também enfrenta números elevados
- Dívida regional: R$ 8,5 bilhões
- Destaque para o Rio Grande do Sul, com R$ 3,6 bilhões em valores não depositados
- Estimativa de 1,7 milhão de trabalhadores prejudicados
Impactos da inadimplência do FGTS
Futuro comprometido
A ausência de depósitos regulares no FGTS afeta diretamente a vida financeira dos trabalhadores em várias dimensões:
- Demissão sem justa causa: o trabalhador perde o direito à multa de 40%
- Aposentadoria: o saldo do FGTS pode estar incompleto ou incorreto
- Financiamento habitacional: uso do FGTS como entrada fica prejudicado
- Doenças graves: dificuldade no acesso ao saque emergencial
- Mortes: dependentes ficam sem acesso à totalidade dos recursos
Como usar a plataforma FGND
Cadastro e funcionalidades
Para utilizar a FGND, o trabalhador precisa:
- Acessar a plataforma oficial (disponível via navegador ou app)
- Realizar um cadastro gratuito, com CPF e dados do contrato de trabalho
- Informar os salários e datas em que deveria ter havido depósito
- Gerar relatórios de inconsistências
- Emitir documentos formais de cobrança ao empregador
- Acompanhar possíveis ações jurídicas ou notificações extrajudiciais
Direitos do trabalhador diante da falta de depósito do FGTS

O que fazer se o FGTS não está sendo recolhido?
O trabalhador pode tomar algumas atitudes:
- Conversar com o empregador e exigir a regularização imediata
- Registrar denúncia anônima junto ao Ministério do Trabalho
- Buscar apoio jurídico via sindicato ou Defensoria Pública
- Entrar com ação judicial trabalhista, exigindo a correção dos depósitos
A plataforma FGND facilita todas essas etapas, oferecendo ao trabalhador provas documentais e cálculos atualizados para embasar qualquer ação.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital



