O uso do cartão de crédito segue sendo uma das principais ferramentas de consumo entre os brasileiros. No entanto, dados recentes acendem um sinal de alerta: o número de consumidores que pagam suas faturas em dia está caindo, o que pode indicar uma escalada da inadimplência no país. Um levantamento inédito da Serasa Experian mostra que a média de pontualidade nos pagamentos de faturas caiu de 80,9% no primeiro trimestre de 2024 para 78,1% no mesmo período de 2025, uma redução de 2,8 pontos percentuais.
Uso do rotativo cresce e inadimplência ameaça o bolso do brasileiro, diz novo estudo da Serasa!
Pontualidade nas faturas de cartão de crédito caiu de 80,9% para 78,1% em 2025. Serasa aponta alta da inadimplência e uso do rotativo.
Segundo especialistas, essa tendência está diretamente relacionada ao aumento do endividamento das famílias brasileiras e ao uso crescente de linhas de crédito mais caras, como o rotativo do cartão, cujas taxas podem ultrapassar 8% ao mês.
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A pontualidade caiu — e com ela, a saúde financeira do brasileiro
Para Renan Diego, educador financeiro, os dados da Serasa refletem um problema estrutural de educação financeira precária, além da pressão econômica sobre o orçamento das famílias.
“Temos acompanhado um alto índice de endividamento entre os brasileiros, o que já é preocupante. Mas isso se agrava com os menores índices de pontualidade, que apontam uma restrição financeira ainda maior”, explica Diego.
De acordo com ele, a dificuldade em pagar a fatura do cartão no vencimento frequentemente leva o consumidor a optar por pagar apenas o valor mínimo — o que ativa automaticamente o temido crédito rotativo.
O que é o crédito rotativo e por que ele é perigoso
O crédito rotativo é acionado quando o consumidor não paga o valor total da fatura do cartão e opta por um pagamento parcial. Ao fazer isso, a dívida restante passa a ser financiada automaticamente pelo banco — mas com juros altíssimos, que variam entre 7% e 12% ao mês, dependendo da instituição financeira.
Consequências do uso do rotativo:
- Acúmulo rápido da dívida: o valor pode dobrar em menos de um ano.
- Comprometimento da renda futura com parcelas que aumentam mês a mês.
- Diminuição do score de crédito, dificultando futuras operações financeiras.
- Entrada em inadimplência, com restrições no CPF e bloqueio de crédito.
Segundo Diego, “embora o rotativo pareça uma solução rápida para imprevistos, ele pode se tornar um ciclo vicioso, quase como uma bola de neve difícil de controlar”.
Mulheres foram mais impactadas do que homens
A pesquisa da Serasa Experian também revela um recorte por gênero, e aponta que a queda na pontualidade foi mais acentuada entre as mulheres. Veja os números:
- Homens: de 81% em 2024 para 78,4% em 2025 (queda de 2,6pp)
- Mulheres: de 80,9% em 2024 para 77,9% em 2025 (queda de 3pp)
Esse dado reforça análises anteriores sobre o maior impacto financeiro da inflação e dos juros altos sobre o público feminino, especialmente mulheres chefes de família e trabalhadoras informais.
Sudeste lidera a piora no comportamento de pagamento
O levantamento também detalha o desempenho por regiões do Brasil. A Região Sudeste apresentou a maior queda de pontualidade, com uma diminuição de 3,3 pontos percentuais:
- Sudeste: de 82,3% para 79%
- Nordeste: queda de 2,7pp
- Sul: queda de 2,5pp
- Centro-Oeste: queda de 2,3pp
- Norte: queda de 2,2pp
Esses dados revelam que o problema é nacional e não está restrito a regiões com menor desenvolvimento econômico.
Compras por impulso: o gatilho emocional do endividamento

Um dos principais fatores que levam ao uso descontrolado do cartão de crédito são as compras por impulso, muitas vezes motivadas por descontrole emocional ou falta de planejamento.
“Ao fazer compras, especialmente em lojas e shoppings, é importante se questionar: ‘Eu realmente preciso desse item?’ ou ‘Já tenho algo similar em casa?’”, recomenda Renan Diego.
Esse exercício de autoconhecimento pode evitar que gastos desnecessários se transformem em dívidas impagáveis. O cartão de crédito deve ser utilizado como ferramenta de gestão, e não como uma extensão da renda mensal.
O cenário do endividamento no Brasil
O Brasil vive uma das maiores ondas de endividamento das últimas décadas. Segundo dados do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mais de 78% das famílias brasileiras estão endividadas. Dentre elas:
- 30% têm dívidas no cartão de crédito
- 22% estão inadimplentes
- 8% usam o rotativo com frequência
Além disso, o aumento da inflação nos anos anteriores, combinado com a alta da taxa Selic, fez com que o acesso ao crédito ficasse mais caro e restrito. O resultado é uma população com renda comprimida, dificuldade de pagar contas básicas e falta de fôlego financeiro para lidar com emergências.
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Como sair do ciclo do crédito rotativo
Especialistas em finanças pessoais sugerem ações práticas para sair do rotativo e melhorar o controle sobre o cartão de crédito:
1. Troque a dívida cara por uma mais barata
Uma alternativa imediata é buscar um empréstimo com juros menores (como crédito consignado ou pessoal com garantia) para quitar o rotativo.
2. Faça um diagnóstico financeiro
Liste todos os gastos do mês e identifique onde estão os gastos supérfluos. Isso permite liberar recursos para pagar a fatura integralmente.
3. Defina um limite de gastos no cartão
Estabeleça um teto mensal no uso do cartão de crédito, preferencialmente abaixo de 30% da sua renda líquida.
4. Use o débito para evitar compras por impulso
Utilizar o débito automático ou pagamento à vista ajuda a manter maior consciência sobre os gastos e impede o efeito ilusório do crédito.
Educação financeira é o caminho mais eficaz

O cenário de inadimplência e queda da pontualidade reforça a importância da educação financeira desde cedo. Para evitar que o cartão de crédito se torne um vilão, o consumidor precisa:
- Entender como funcionam os juros
- Planejar seus gastos com antecedência
- Criar uma reserva de emergência
- Desenvolver hábitos de consumo mais conscientes
O próprio Banco Central tem investido em campanhas de orientação ao consumidor e há diversas ferramentas digitais, como aplicativos gratuitos de gestão financeira, que podem ajudar.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
