A crescente insatisfação do setor de alimentação com as plataformas de delivery ganhou força nas últimas semanas. A Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp) deu início a um movimento para pressionar o iFood a reduzir ou até zerar as taxas cobradas dos estabelecimentos.
Restaurantes pressionam iFood para zerar taxas de entregas para estabelecimentos: o que esperar?
Restaurantes pressionam o iFood por redução de taxas; Fhoresp lidera ação enquanto Rappi e 99Food ganham espaço com comissões zeradas.
Segundo a entidade, que representa cerca de 500 mil empreendimentos, o atual modelo de cobrança é insustentável para os negócios e compromete a rentabilidade dos restaurantes.
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A insatisfação do setor com o iFood

De acordo com Edson Pinto, diretor-executivo da Fhoresp, as tentativas de negociação com o iFood já se arrastam há anos, sem sucesso. Para ele, a postura da empresa é de inflexibilidade e abuso de poder de mercado.
“As taxas excessivas fazem com que, praticamente, os restaurantes trabalhem para ela. O monopólio não fez bem ao iFood, que estabeleceu uma relação predatória com os parceiros”, afirmou Pinto.
A crítica central é voltada à cobrança de comissões que, segundo empresários do setor, chegam a até 27% do valor dos pedidos. Em um contexto de margens apertadas e custos operacionais em alta, essas tarifas se tornam, para muitos, insuportáveis.
A resposta do iFood: livre mercado e concorrência
O iFood, que domina cerca de 80% do mercado de delivery de comida no Brasil — segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) —, se defende dizendo atuar dentro das regras de mercado e prezar pelo sucesso dos seus parceiros.
Em nota, a empresa afirmou que “defende o livre mercado e a livre concorrência” e destacou os benefícios que oferece aos 400 mil restaurantes cadastrados. Entre os serviços citados estão:
- Pagamentos online com diferentes opções;
- Prevenção de fraudes e estornos;
- Acesso a dados estratégicos e ações de marketing;
- Suporte logístico com entregadores.
Além disso, o iFood contesta a acusação de monopólio, argumentando que 65% dos pedidos ainda são feitos via WhatsApp, telefone ou apps próprios dos estabelecimentos, o que mostraria um mercado pulverizado.
A ofensiva da concorrência: 99Food e Rappi entram no jogo
Enquanto a Fhoresp pressiona o iFood, outras plataformas aproveitam o momento para expandir sua atuação no país com promessas agressivas. A 99Food, por exemplo, anunciou em abril seu retorno ao Brasil com uma estratégia ousada: taxa zero para os restaurantes.
Poucos dias depois, foi a vez do Rappi entrar em cena com uma proposta ainda mais impactante. A empresa comunicou um investimento bilionário no país e anunciou a isenção de taxas para os estabelecimentos durante três anos. Antes disso, a plataforma cobrava comissões entre 18% e 23%.
Apoio institucional à concorrência
A movimentação da Rappi conquistou o apoio da Abrasel. Em audiência pública realizada em abril na Câmara dos Deputados, o presidente da entidade, Paulo Solmucci Jr., criticou o modelo de cobrança atual das plataformas, alegando que os custos são repassados ao consumidor.
“Taxas menores para bares e restaurantes significariam preços mais baixos. O consumidor gostaria e tem direito, obviamente, de pagar menos do que atualmente”, afirmou Solmucci.
Apesar do apoio à concorrência, a Abrasel não endossa a proposta de boicote ao iFood liderada pela Fhoresp. Para a associação, a melhor saída é o fortalecimento de um ambiente competitivo.
“O caminho para um mercado melhor não é o boicote, mas sim a concorrência”, concluiu Solmucci.
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O que está em jogo: sustentabilidade do setor e acesso ao consumidor

A questão central por trás da disputa é a sustentabilidade econômica dos pequenos e médios estabelecimentos. Para muitos donos de restaurantes, o delivery representa uma fatia significativa do faturamento, especialmente após a pandemia. No entanto, o alto custo das comissões tem corroído as margens e dificultado a operação.
Além disso, a dependência de plataformas como o iFood, com sua ampla base de usuários e estrutura logística consolidada, limita o poder de negociação dos empresários. Muitos alegam que não podem simplesmente sair da plataforma, pois perderiam visibilidade e vendas.
Pressão dos entregadores também pesa
Outro fator que torna o cenário ainda mais complexo é o posicionamento dos entregadores. Greves organizadas por motoristas e ciclistas de aplicativos nos últimos anos chamaram atenção para a precariedade das condições de trabalho, e os protestos frequentemente apontam o iFood como alvo.
Os restaurantes, por sua vez, se veem entre dois polos: as demandas dos entregadores por melhores condições e o aumento das próprias despesas operacionais. É uma equação difícil de equilibrar.
Perspectivas: possível regulação à vista?
Com o avanço do debate, cresce a expectativa por uma regulação mais clara do setor. Em Brasília, já há movimentações nesse sentido. A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados tem discutido propostas para limitar as taxas cobradas pelas plataformas, estabelecer transparência nos contratos e assegurar direitos tanto para restaurantes quanto para entregadores.
Especialistas em direito econômico veem com bons olhos uma regulação que traga mais equilíbrio às relações comerciais no setor. Para eles, o avanço tecnológico das plataformas não pode ser justificativa para práticas abusivas.
Imagem: Divulgação/Ifood

